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Expresso - 2 de Junho
Ministério da deseducação
Henrique Monteiro
«Com o que os alunos do 6º ano ficam confrontados é com um miúdo que não assume responsabilidades, se mete num autocarro com destino desconhecido, deita fora os livros, guarda dinheiro que não lhe pertence e se ri quando os pais lhe ralham. Um manual anticívico patrocinado pelo Ministério da Educação. Poderia acontecer que ao longo das perguntas subsequentes se sublinhasse que o rapaz procedera mal. Mas nem uma única vez - uma única sequer - isso acontece.»
LÊ-SE e não se acredita! A prova nacional de aferição de Língua Portuguesa para o 6º ano (o antigo 2º ano do Liceu), destinada a crianças de 11 ou 12 anos, tem por base um texto inacreditável. Tão inacreditável que só se pode recomendar o imediato internamento (caso haja hipóteses de cura) a quem o escolheu e aprovou. Resumidamente, o texto diz o seguinte:
Um rapaz tem uma negativa a matemática e sabe que vai ficar de castigo e lhe vão cortar a semanada. Furioso, dá um pontapé numa pedra que, por azar, parte a montra de uma drogaria. O droguista vai atrás dele, mas o rapaz foge e mete-se num autocarro de cujo destino não faz a menor ideia. É já quase noite quando sai do autocarro, num largo que não conhece. Senta-se num banco e descobre uma pasta de crocodilo cheia de notas de 10 mil escudos. Como não vê ninguém, deita os livros e os cadernos da escola fora e enche a mochila com as notas. Quando chega a casa, os pais ralham-lhe, mas ele por dentro ri-se e «quase ia soltando uma gargalhada ao anunciarem que lhe cortavam a semanada». E pensa: «Pobres pelintras... para que queria eu a esmola deles?».
O texto é de Luísa Ducla Soares, mas está truncado, além de que se trata de um pequeno excerto do livro O Rapaz e o Robô. Não sabemos, pois, que voltas dá o enredo e se o rapaz que assim se comporta acaba por sofrer pelo seu comportamento errado. Mas não sabemos nós nem os alunos que fazem a prova. O livro não faz sequer parte do currículo.
Com o que os alunos do 6º ano ficam confrontados é com um miúdo que não assume responsabilidades, se mete num autocarro com destino desconhecido, deita fora os livros, guarda dinheiro que não lhe pertence e se ri quando os pais lhe ralham. Um manual anticívico patrocinado pelo Ministério da Educação.
Poderia acontecer que ao longo das perguntas subsequentes se sublinhasse que o rapaz procedera mal. Mas nem uma única vez - uma única sequer - isso acontece.
Pergunta-se: que raio de educação cívica e moral se transmite a crianças numa idade fundamental para a formação do carácter? Ora a resposta do Ministério é simples: se partires uma montra foge, nem que seja para um autocarro que não sabes para onde vai. Se encontrares dinheiro cuja proveniência não conheces, ele é teu. Se os teus pais te ralharem, não ligues. É demais!
Isto ultrapassa todo o lixo que as televisões passam. Aqui, ninguém é movido por intuitos comerciais, de audiências, de lideranças de mercado. Aqui as motivações ou são inconfessáveis ou totalmente irresponsáveis. Quem escolheu este texto e esta prova não merece ensinar. É um pedagogo rasteiro que tem de ser posto o mais longe possível dos nossos filhos.
Ao ministro Augusto Santos Silva exige-se uma explicação e uma atitude sobre este caso. Caso não tenha uma nem outra, mais vale demitir-se.
Não somos obrigados a aturar experiências pedagógicas. Não podemos tolerar que o Estado, através de maus exemplos, contrarie a educação normal que cada pai dá aos seus filhos. Temos o direito de não aturar esta gente e este ministério da Deseducação.
E-mail: hmonteiro@mail.expresso.pt
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