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Diário de Notícias - 5 de Junho Todo o poder à televisão José
Medeiros Ferreira A vitória de Berlusconi nas eleições italianas e alguns episódios dos chamados reality shows em Portugal colocaram de novo os temas do poder da televisão nas sociedades liberais. Os fenómenos são de natureza bem diversa mas confluíram, entre nós, para uma inesperada tomada de consciência, por parte de alguns aprendizes de feiticeiro, até há bem pouco tempo insensíveis a qualquer preocupação sobre a desregulamentação no sector. A erosão do Estado democrático não era de molde a incomodar esses cavaleiros da vertigem. Desde já, declaro prever que ainda nos acontecerá muito pior, caso os poderes públicos se mantenham receosos. Apesar de tudo, o senhor Berlusconi ainda é um político do quadro democrático que aceita a alternativa do poder pela via eleitoral; mas quem não percebe que, depois dele, virá um qualquer populista obviamente mediático e muito mais autoritário? Possivelmente para produzir os reality shows que levarão the ordinary people a detestar-se a si própria... nessa altura já não haverá ninguém para teorizar o escândalo. Os mais dados agora a épater le bourgeois serão os primeiros a pedirem dispensa de opinar contra os novos poderes estabelecidos. Ou, assim, dos que consideram a vitória de Berlusconi um resultado, ainda benigno, do enfraquecimento dos poderes públicos perante a força do dinheiro aliada à mediatização da vida colectiva. E, até conto com a sua vontade de poder pessoal para emprestar algum ao regime democrático. De facto, não me admiraria que um homem como Berlusconi pretendesse dar uma lição de interesse geral aos políticos que o antecederam. Pois se ele já tem o poder do dinheiro e o aplicou na sua multiplicação em poder mediático para agora preferir o poder político é porque considera que este ainda vale alguma coisa e que valerá muito mais caso haja quem o saiba utilizar. A Europa copia sempre mal a América. É ainda uma homenagem que presta ao seu espírito original. Não há nenhum fenómeno Berlusconi nos Estados Unidos, onde o sistema bipartidário ainda está de pedra e cal, enquanto que no Velho Continente o sistema partidário resultante da guerra fria está em decomposição. A renacionalização dos aparelhos políticos em Itália ficou, assim, mais dependente da aliança entre dinheiro disponível e comunicação social peninsular. A investida desorientada da Imprensa europeia bem-pensante,com a insular The Economist à cabeça, é de quem, apesar de tudo, não compreende os paradoxos da globalização. Graças ao dinheiro e à televisão, será mais uma vez o Norte da Itália que irá ordenar o resto da península. Enquanto a Oliva era romana, a Casa das Liberdades é lombarda. E Garibaldi foi substituido pelo exército irregular das televisões privadas... Já Régis Debray considerou, há pouco tempo, que a teoria do foco revolucionário dos anos 60 está ultrapassada pelas novas tecnologias da sociedade de informação. Estações de televisão localizadas em países erráticos podem vir a incendiar de fervor mobilizador as massas hoje entretidas, com o tédio do sexo banalizado e da informação-espectáculo. Os jornalistas e a comunicação social em geral, e a televisão em particular, ocupam, nos nossos dias, o espaço outrora dedicado aos revolucionários e aos sacerdotes das igrejas dominantes. Por isso o anticlericalismo também já não faz sentido entre nós. A sociedade contemporânea é muito mais uma sociedade de comunicação unilateral do que de comunhão. José Eduardo Moniz na TVI é muito mais influente do que toda a Conferência Episcopal a pregar. Emídio Rangel tem condições para vir a ser o promotor da nova revolução radical em Portugal. Até lá, José Rodrigues dos Santos ainda poderá encontrar o seu caminho na salvação do regime democrático pluralista e representativo que todos os analistas especializados dão por perdido _ no que se precipitam um tudo nada... Não deixa aliás de ser curioso que uma das primeiras consequências que se pretende tirar do fracasso do Estado na disciplina dos meios de produção televisiva seja logo sobre o tipo de regime político. A pretensa analogia entre os meios instantâneos de comunicação de opiniões e a democracia directa dos sonhadores revolucionários não resiste a qualquer escrutíneo sobre a teoria de decisão nas nossas sociedades. Perdida a batalha de fazer da televisão um meio de educação universal como ela chegou a ser saudada nas sua origens, assiste-se agora à sua convocação para minar os regimes políticos assentes na democracia representativa com a ajuda cumulativa da Internet e das sondagens telefónicas... Na minha perspectiva passa-se exactamente o contrário: mais nítidos serão os contornos do monstro que se anuncia e mais fortes serão as resistências à sua gestação. Será como a energia atómica: depois do seu uso violento, o caminho ficará aberto para a utilização pacífica da energia televisiva na sociedade futura. Ou então até Berlusconi será devorado pelo verdadeiro Big Brother: aquele que o nazi Albert Speer anunciou já nos anos 70. É uma profecia de estarrecer. José Medeiros Ferrreira, professor universitário, assina esta coluna quinzenalmente à terça-feira [anterior] |