Diário de Notícias - 4 de Junho

Peritos reprovam comportamentos

Em Lisboa, o difícil contexto socioeconómico em que muitos alunos estão inseridos condiciona o processo de aprendizagem

INDISCIPLINA. "Postura incorrecta" e "comportamento errado" são elementos desestabilizadores nas salas de aulas

O DN publica hoje uma síntese do último conjunto de relatórios que a Inspecção-Geral de Educação (IGE) facultou à comunicação social. Para terminar a publicação destas avaliações, divulgamos o diagnóstico das escolas da Grande Lisboa.

LISBOA

Secundária do Restelo (1064 alunos). Uma escola situada em pleno centro urbano que recebe "um número significativo de alunos de um meio sócioeconómico elevado". O relatório começa por enaltecer as condições de segurança que este estabelecimento com mais de vinte anos oferece aos estudantes, mas diz que há frequentes queixas de roubos nas imediações.

Critica, por outro lado, a falta de "espaços de convívio exteriores agradáveis", especialmente "nos dias de chuva ou de muito frio". As instalações desportivas também "são bastante precárias e estão muito aquém" do que seria desejável. O ambiente escolar é quase irrepreensível e, segundo o documento, só fica manchado pela inexistência de uma associação de estudantes.

Secundária D. João de Castro (642 alunos). Ao contrário do exemplo anterior, esta escola situa-se num bairro predominantemente operário e popular, na freguesia de Alcântara. O facto de ser uma comissão provisória quem se encarrega de liderar o projecto educativo acarreta consequências negativas.

Pouca articulação entre os vários sectores, mau funcionamento do sistema de comunicação interna e gestão financeira deficiente são apenas algumas das críticas. Para além disso, os inspectores destacam a necessidade urgente de se efectuarem obras em quase toda a estrutura. Não menos grave, conclui-se, é o facto de não haver "qualquer plano de evacuação em caso de sinistro".

ARREDORES

Moita - EB D. Pedro II (820 alunos). O Alto de S. Sebastião, onde a D. Pedro II se insere, é um meio "que alberga famílias numerosas, sendo algumas oriundas de países de língua oficial portuguesa". Por isso, diz o documento, "há um número significativo de alunos com carências socioeconómicas e culturais". Mesmo assim, o ambiente é bastante positivo. A isto não será alheio a boa oferta curricular e o sistema de recolha de informação apoiado num conjunto de inquéritos realizados pelos directores de turma.

Oeiras - Secundária Aquilino Ribeiro (749 alunos). Uma escola que tem crescido na proporção da área envolvente, onde se desenvolveram grandes bairros sociais. Por isso, mais de 40 por cento dos estudantes beneficiam da Acção Social Escolar. A elevadíssima mobilidade do corpo docente não ajuda a integrar estes alunos no respectivo meio. Mesmo assim, a maior parte do trabalho administrativo e burocrático é feito com razoável eficácia. O mesmo não acontece com os debates "de natureza pedagógica" onde se detectou alguma "dispersão".

Almada - EB Monte da Caparica (605 alunos). Os "comportamentos indisciplinados" e as "posturas menos correctas" são aspectos comuns. Muitas vezes citada pelos meios de comunicação social como um exemplo "complicado", a escola do Monte da Caparica é um reflexo do contexto social "multi-étnico" em que se insere. Curiosamente, o relatório refere-se a essas dificuldades de forma muito ténue. Não se esconde, contudo, que há um número razoável de alunos "difíceis no relacionamento interpessoal, que provocam um abaixamento dos níveis de respeito pelos outros", bem como "do sentimento de confiança e segurança nos restantes alunos". O texto ainda admite que a postura desses elementos é "desestabilizadora, com prejuízo evidente para o trabalho na aula" e acrescenta uma denúncia da associação de pais: há situações de "agressividade nos espaços de recreio".

Amadora - EB José Cardoso Pires (574 alunos). Tal como se verifica em outras localidades limítrofes, também aqui os pais apresentam grandes dificuldades em acompanhar a vida escolar dos filhos, uma vez que trabalham, na sua maioria, fora do concelho. A escola não dispõe de serviços de Psicologia nem Orientação profissional mas, ao contrário do que é frequente, possui "muito boas instalações para a prática de Educação Física". No que respeita à avaliação dos alunos, o relatório denuncia "estratégias insuficientemente aferidas".

Cacém - Secundária Matias de Aires (1163 alunos). Dos 118 professores, 117 exercem actividade lectiva e um dedica-se exclusivamente ao apoio educativo. A mobilidade do corpo docente é muito grande. Existe uma percentagem significativa de alunos a receber apoio económico. Apesar de se verificar uma articulação curricular entre os diferentes anos de escolaridade, o mesmo não acontece a nível interdisciplinar. A participação dos encarregados de educação "ainda não atingiu um nível que permita uma estreita ligação entre a escola e a família". Os espaços físicos são plenamente aproveitados, havendo até salas de trabalho para docentes.

Camarate - EB Mário de Sá-Carneiro (1001 alunos). O nível de sucesso escolar é considerado baixo, sendo que a taxa de transição média é de 73%. Existe um número bastante elevado de alunos com necessidades educativas especiais que são apoiados por três professoras dedicadas exclusivamente a essa função. Mais de metade dos estudantes recebe apoio da Acção Social Escolar. As áreas de intervenção prioritária definidas pelos peritos da Inspecção Geral de Ensino são: o espaço escola (as instalações encontram-se num estado de degradação avançado); a área curricular, a área de relacionamento comunitário e a área de formação contínua centrada na escola.

Caneças - EB dos Castanheiros (919 alunos). Dos 99 docentes, 98 exercem actividade lectiva e apenas um exerce actividade de apoio educativo. Não existe uma coordenação "verdadeiramente eficaz", entre os docentes, relativamente à gestão curricular e às actividades e projectos das turmas. A participação dos encarregados de educação relativamente às retenções e aos planos de recuperação dos alunos, restringe-se à tomada de conhecimento das situações. Os alunos dedicam-se à preservação do ambiente e do património escolar. "O espaço escolar é aprazível e apresenta qualidade ao nível da segurança/vigilância".

Cascais - Secundária da Cidadela (918 alunos). A escola tem problemas na manutenção da segurança devido à degradação da vedação que permite a entrada de estranhos nas instalações. Os laboratórios, se bem que carecendo de ser melhorados "no que respeita a apetrechamento, respondem adequadamente à prática lectiva das disciplinas experimentais". A articulação entre as diferentes áreas disciplinares não é planificada. A sala de estudo e o Apoio Pedagógico Especial prestam apoio individual ou em pequenos grupos, para os alunos com necessidades educativas especiais. Os peritos recomendam a implementação de medidas facilitadoras do diálogo entre todos os actores escolares.

Portela - EB Gaspar Correia (827 alunos). A escola tem alunos com grandes carências socioeconómicas e culturais. Considerando o grande volume de actividades de apoio educativo que foi necessário desenvolver destacaram-se 40 professores só para o efeito. Atendendo ao forte predomínio de população de diferentes etnias, os peritos consideram que "é de admirar que apenas 16% dos transitados não tenha obtido sucesso a Língua Portuguesa". A articulação entre os diferentes docentes da turma é feita, tanto nas reuniões como nos encontros informais, nos intervalos das aulas. Não existe um trabalho sistemático a este nível. Verificou-se uma boa gestão e optimização dos recursos físicos existentes.

Seixal - Secundária do Moinho da Maré (912 alunos). Na generalidade, os alunos desta escola têm significativos problemas de integração (são jovens provenientes de famílias originárias das ex-colónias, ex-emigrantes e orientais). A partir dos problemas identificados, a escola definiu, entre outras, as seguintes prioridade: sensibilizar a comunidade escolar para o direito à diferença; promover uma escolaridade de segunda oportunidade para os que dela não usufruíram; fomentar a intervenção das famílias e dos encarregados de educação. O número de alunos com apoio educativo cifra-se em 130. Os espaços são exíguos. 

[anterior]