Diário de Notícias - 4 de Junho

Indisciplina afecta vida das escolas na Grande Lisboa

"Carolice" dos professores remedeia as falhas de um sistema que não se livra de fortes críticas

VIGILÂNCIA. Segundo os textos divulgados, nenhuma escola inspira cuidados especiais em matéria de segurança

A indisciplina, os problemas de relacionamento e a integração de alunos mais desfavorecidos são, segundo os peritos da Inspecção-Geral da Educação (IGE), alguns dos problemas mais graves que afectam as escolas de Lisboa. Para compensar as falhas do sistema, os professores respondem com empenho e dedicação, mas não conseguem, pela "carolice", trazer os pais para o processo educativo.

Muito menos diminuir o número astronómico de alunos por escola. Apesar de haver instituições com mais de mil alunos - e muitas que não andam longe disso -, os documentos ignoram as dificuldades decorrentes desse excesso de população escolar.

Igualmente curioso é o tratamento dado ao problema da insegurança. A avaliar pelos textos agora divulgados, nenhuma escola inspira cuidados especiais, nem carece de medidas que controlem a indisciplina. Criminalidade é palavra que nem sequer consta dos relatórios de avaliação.

A tudo isto não será alheio a aparente desorganização do trabalho divulgado.

Além de serem dispersos nas apreciações e vagos nas recomendações, muitos inspectores não conseguiram apresentar um produto coerente, assente em critérios uniformes e comparáveis.

Salvam-se alguns textos mais exaustivos que ilustram bem a realidade do nosso ensino básico e secundário. Extraem-se, desses trabalhos, elementos preocupantes que são comuns a muitos estabelecimentos. Em Lisboa, por exemplo, essas críticas denunciam a falta de planos de emergência, problemas graves de integração e o fraco acompanhamento dos encarregados de educação.

Outras dificuldades atingem proporções nacionais. O caso mais evidente encontra-se ao nível da articulação curricular que, de um modo geral, se traduz na ausência de planificação e na descoordenação entre profissionais.

Genericamente, o trabalho administrativo é elogiado, mas apresenta algumas dificuldades no que toca à organização burocrática. De acordo com a imagem que o conjunto dos textos reflecte, registos de notas, actas de reuniões e inventários de material são pormenores de gestão que a maioria das escolas pura e simplesmente desconhece. Intocável parece ser a disponibilidade dos professores, que se revelam inexcedíveis em todas as regiões avaliadas.

À margem das críticas e dos elogios, outras informações destacam-se por serem, no mínimo, estranhas. Caso paradigmático desta situação é a escola do Monte de Caparica onde, apesar das situações problemáticas detectadas, se verifica uma taxa de sucesso de 96 por cento. Mas não é só. Embora a população escolar seja composta por uma "percentagem elevada de alunos originários de minorias étnicas", este estabelecimento consegue ter o melhor nível nacional de insucesso a Língua Portuguesa: 0%.

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