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Diário de Notícias - 4 de Junho
A concha laica
João César das Neves
Portugal tem, hoje, um problema sério de fanatismo. Uma ideologia
com laivos fundamentalistas mina o nosso regime de
liberdade. Os fundadores do sistema democrático moderno avisaram-nos
quanto à necessidade de defesa contínua da liberdade, devido à
facilidade com que renascem a intolerância e o chauvinismo. A nossa
experiência é uma eloquente prova de como, no meio da normalidade
democrática, pode de repente surgir o sectarismo.
Afirmou-se recentemente entre nós uma linha ideológica, com
elementos de fé mística e dogmática. Em princípio, tal
desenvolvimento seria bem-vindo, integrando-se no proveitoso diálogo
entre posições culturais que vigora em Portugal. O problema é que
esta doutrina cedeu à tentação totalitária.
Pretende-se superior e absoluta, erigindo-se em juíza de todas as
outras, procurando determinar os termos em que elas e a sociedade podem
existir.
Esta filosofia é apresentada com vários nomes: "moral
laica", "humanismo individualista", "ética
republicana", etc. Estes princípios, enunciados com fervor
religioso, surgem em artigos de jornal, discursos políticos ou debates
parlamentares. Não teriam mal nenhum, se não se arrogassem ser o
critério determinante e o julgamento definitivo. Os seus oráculos
assumem-se como indiscutíveis e pretendem estabelecer as regras de
funcionamento da sociedade, informar as portarias governamentais e
orientar as decisões das repartições. Assim, perdem a razão.
A sua lógica está ligada a uma das armadilhas de intolerância mais
clássicas. Parte-se do princípio de que todas as tradições, culturas
e religiões são subjectivas e, portanto, inválidas. Aliás, o simples
facto de existirem outras tradições, culturas e religiões chega para
demonstrar que nenhuma delas é verdadeira.
Deste modo, a moral laica, que diz ser neutra e não se radicar em
nenhuma tradição, pode assumir-se como a verdade objectiva. Daí até
se erigir em juíza das demais, é um passo. Em nome da "ética
republicana", ou dos "valores seculares", são, assim,
impostas as opiniões de uma minoria.
As suas manifestações são cada vez mais frequentes. Se alguém
inventa uma regra de proporcionalidade arbitrária ou decreta a
igualdade entre duas coisas diferentes, tal torna-se o critério laico
e, por isso, supremo nessa questão. Se alguém detesta o tabaco, ou os
hambúrgueres, se admira a poesia beirã, ou o ciclismo, e o justifica
com valores republicanos, torna-se indiscutível. Vemos apregoar as
opiniões mais arbitrárias como verdades supremas, desde que o
proponente se diga laico, republicano e humanista.
Na educação, estão os casos mais gritantes. A escola privada é
vista como dogmática e arbitrária. Apenas a
escola pública, com a pureza dos valores cívicos, pode administrar uma
verdadeira educação equilibrada. Deste modo, ensina-se ao sabor do
capricho dos funcionários do ministério. A história secular condena
regimes, mitifica personagens e distorce civilizações. A ciência quer
regular tudo, incluindo os valores. Agora, até pretende ensinar o
deboche e vulgarizar a promiscuidade, em nome da tal moral laica e
republicana. É curioso como se insinuaram no domínio intelectual.
Hoje, é comum as pessoas terem medo de enunciar convicções,
relativizando as suas próprias opiniões, para não serem acusadas de
falta de compreensão. Apenas estes valores politicamente correctos
podem ser afirmados com certeza.
Como se explica um dogmatismo tão devoto em pensadores alegadamente
tão democráticos e tolerantes? A ciência, a democracia e a técnica
ocupam, hoje, o lugar que antes tinham a autoridade, a fé e a
tradição. Assim, dá-se uma transposição psicológica simples e os
novos sacerdotes reivindicam privilégios iguais aos antigos. O
político e o laboratório ocupam o lugar do druida e do catecismo.
Mas, afinal, qual é a tal referida moral cívica e republicana?
Responder a esta pergunta não é fácil. Ela parece ser uma concha
vazia. Exteriormente, mostram os valores essenciais da liberdade,
tolerância, os métodos democráticos e são a favor de coisas
abstractas, como o progresso, a justiça, a solidariedade, o ambiente,
tal como toda a gente séria. Mas, nos problemas concretos, a moral
cívica é vaga. Pode ser naturista, socialista, libertária, tecnocrata
ou jacobina, defender o instinto animal ou a sofisticação marxista, o
cientismo ou a anarquia. No fundo, não tem princípios éticos.
Mas a tentação totalitária quebra a própria concha. Na prática,
o consenso dessa moral faz-se apenas na perseguição. Sabemos muito bem
aquilo a que eles se opõem. Rejeitam, basicamente, as tradições, as
morais e religiões, atacam a família, os mercados e outras
instituições sociais.
Os pais da liberdade ensinaram-nos a construir a harmonia num
espírito de respeito. Para isso, são essenciais os pilares
fundamentais da nossa identidade. Rejeitando-os, a moral laica torna-se
inimiga da liberdade que diz defender.
João César das Neves, professor universitário,
assina esta coluna à segunda-feira
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