ajudar",
dizem responsáveis das instituições
Rita Carvalho
SOLUÇÃO. Ajuda de Berço acolhe crianças abandonadas ou
retiradas à família e procura dar-lhes um futuro melhor
No dia do primeiro aniversário de Sofia, sua filha, Paula confessa:
"É muito difícil ser mãe solteira". Apesar das dificuldades
familiares e económicas e da gravidez de risco, marcada pelas ameaças
do pai da criança que não a quis assumir, Paula decidiu aceitar a
gravidez. "Mas tive que pedir ajuda para conseguir ter a minha
filha. Hoje tudo o que tenho é para ela."
A Ajuda de Mãe, instituição que apoia grávidas em dificuldade,
foi a primeira porta a que bateu. Aqui recebeu apoio psicológico e
médico e aprendeu a tratar de crianças. Depois foi encaminhada para o
Ponto de Apoio à Vida (PAV), outra associação: "Aqui a ajuda é
muito boa: já me arranjaram emprego, dão-me roupas para a bebé e
ensinam-me muitas coisas", conta Paula.
O objectivo do PAV é acolher e orientar grávidas em situações de
risco e mães. Mas "a decisão de ter o bebé é sempre tomada
conscientemente pela mãe, nunca influenciamos nem fazemos juízos de
valor de ninguém. Apenas mostramos os mecanismos e apoios que há para
quem decide assumir uma gravidez", explica Isabel Meneses, uma das
responsáveis pela instituição.
Mas nem sempre é possível evitar que as mulheres recorram ao aborto
- às vezes os telefonemas que recebem procuram um local para abortar. A
responsável do PAV recorda o dia em que souberam da existência de uma
grávida imigrante de leste e tudo fizeram para evitar que abortasse:
"Até um tradutor arranjamos imediatamente. Mas foi tarde demais,
porque a decisão já tinha sido tomada e concretizada".
Quando a gravidez é assumida, mas as condições para criar os
filhos não são as mais desejáveis, muitos acabam por ser abandonados.
Uma porta que se abre para estas crianças é a Associação Ajuda de
Berço, em Alcântara. Aqui, estas passeiam-se com um ar sorridente e
saudável, embora partilhem um passado cinzento comum - situações de
risco e de abandono. É esta a casa que as acolheu e que procura
oferecer-lhes um futuro risonho, capaz de contrariar o seu passado
infeliz. Muitas retornam à família, que arranjou, entretanto,
condições para as receber.
"A maioria destas crianças são filhas de mães desgraçadas,
dependentes do álcool ou da droga, mas que não quiseram optar pelo
aborto", afirma Madalena Maymone, uma das directoras da
associação, ao mesmo tempo que não resiste a pegar num bebé de dois
anos que lhe pede colo. "É perante situações como estas que há
quem pense que o aborto é a solução. Nós acreditamos que não e que
há um lugar no mundo para todas estas crianças", acrescenta Maria
de Jesus Pinheiro Torres, outra das responsáveis.
Ao visitar as instalações somos confrontados com uma situação
delicada para a qual é preciso tomar precauções: a chegada de um
casal de pais adoptivos que vem conhecer a sua nova filha. Madalena e
Maria explicam: "Esta casa é uma espécie de refúgio e por isso
tentamos proteger, ao máximo, a intimidade e a privacidade, tanto das
crianças, como das suas famílias". A equipa do DN presenciou um
caso com um final feliz, que faz a alegria de quem lutou pelo bem-estar
deste bebé.
A Ajuda de Berço, tal como o PAV, foi criada há três anos, pouco
depois do referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez. Nessa
altura, os seus responsáveis integraram os "Juntos pela
Vida", depois deitaram mãos à obra.
"É muito bonito dizer não abortem, mas é preciso que a
sociedade dê uma ajuda", esclarece Madalena Maymone.
Estas associações, tais como muitas outras espalhadas pelo resto do
país, compõem uma rede de apoio e defesa da vida: "Uns ajudam a
torná-la possível, outros dão-lhe seguimento", afirma Isabel
Meneses do PAV.