Diário de Notícias - 28 de Junho

Referendo despertou ajudas

Desde a consulta de 1998, faz hoje três anos, foram criadas casas de apoio a grávidas e crianças. "É muito bonito dizer não abortem, mas é preciso ajudar", dizem responsáveis das instituições

Rita Carvalho

SOLUÇÃO. Ajuda de Berço acolhe crianças abandonadas ou retiradas à família e procura dar-lhes um futuro melhor

No dia do primeiro aniversário de Sofia, sua filha, Paula confessa: "É muito difícil ser mãe solteira". Apesar das dificuldades familiares e económicas e da gravidez de risco, marcada pelas ameaças do pai da criança que não a quis assumir, Paula decidiu aceitar a gravidez. "Mas tive que pedir ajuda para conseguir ter a minha filha. Hoje tudo o que tenho é para ela."

A Ajuda de Mãe, instituição que apoia grávidas em dificuldade, foi a primeira porta a que bateu. Aqui recebeu apoio psicológico e médico e aprendeu a tratar de crianças. Depois foi encaminhada para o Ponto de Apoio à Vida (PAV), outra associação: "Aqui a ajuda é muito boa: já me arranjaram emprego, dão-me roupas para a bebé e ensinam-me muitas coisas", conta Paula.

O objectivo do PAV é acolher e orientar grávidas em situações de risco e mães. Mas "a decisão de ter o bebé é sempre tomada conscientemente pela mãe, nunca influenciamos nem fazemos juízos de valor de ninguém. Apenas mostramos os mecanismos e apoios que há para quem decide assumir uma gravidez", explica Isabel Meneses, uma das responsáveis pela instituição.

Mas nem sempre é possível evitar que as mulheres recorram ao aborto - às vezes os telefonemas que recebem procuram um local para abortar. A responsável do PAV recorda o dia em que souberam da existência de uma grávida imigrante de leste e tudo fizeram para evitar que abortasse: "Até um tradutor arranjamos imediatamente. Mas foi tarde demais, porque a decisão já tinha sido tomada e concretizada".

Quando a gravidez é assumida, mas as condições para criar os filhos não são as mais desejáveis, muitos acabam por ser abandonados. Uma porta que se abre para estas crianças é a Associação Ajuda de Berço, em Alcântara. Aqui, estas passeiam-se com um ar sorridente e saudável, embora partilhem um passado cinzento comum - situações de risco e de abandono. É esta a casa que as acolheu e que procura oferecer-lhes um futuro risonho, capaz de contrariar o seu passado infeliz. Muitas retornam à família, que arranjou, entretanto, condições para as receber.

"A maioria destas crianças são filhas de mães desgraçadas, dependentes do álcool ou da droga, mas que não quiseram optar pelo aborto", afirma Madalena Maymone, uma das directoras da associação, ao mesmo tempo que não resiste a pegar num bebé de dois anos que lhe pede colo. "É perante situações como estas que há quem pense que o aborto é a solução. Nós acreditamos que não e que há um lugar no mundo para todas estas crianças", acrescenta Maria de Jesus Pinheiro Torres, outra das responsáveis.

Ao visitar as instalações somos confrontados com uma situação delicada para a qual é preciso tomar precauções: a chegada de um casal de pais adoptivos que vem conhecer a sua nova filha. Madalena e Maria explicam: "Esta casa é uma espécie de refúgio e por isso tentamos proteger, ao máximo, a intimidade e a privacidade, tanto das crianças, como das suas famílias". A equipa do DN presenciou um caso com um final feliz, que faz a alegria de quem lutou pelo bem-estar deste bebé.

A Ajuda de Berço, tal como o PAV, foi criada há três anos, pouco depois do referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez. Nessa altura, os seus responsáveis integraram os "Juntos pela Vida", depois deitaram mãos à obra.

"É muito bonito dizer não abortem, mas é preciso que a sociedade dê uma ajuda", esclarece Madalena Maymone.

Estas associações, tais como muitas outras espalhadas pelo resto do país, compõem uma rede de apoio e defesa da vida: "Uns ajudam a torná-la possível, outros dão-lhe seguimento", afirma Isabel Meneses do PAV. 

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