Diário de Notícias - 15 de Junho
Promover o mérito
Marçal Grilo
1 - Participei há dias numa cerimónia no Instituto Politécnico de
Viana do Castelo e tive a grande satisfação de ser eu próprio uma das
pessoas que distribuíram aos melhores estudantes do instituto as Bolsas
de Mérito que o Ministério da Educação criou para incentivar e
premiar os que obtêm classificações mais elevadas nos diferentes
cursos de cada instituição de ensino superior.
2 - Vivemos numa sociedade que, sobretudo a seguir à revolução de
74, ficou um pouco paralisada face ao reconhecimento do mérito. É
verdade que durante algum tempo o país viveu num regime em que os
prémios estavam demasiado marcados por uma ideologia que promovia as
elites (o que em si mesmo não é nenhuma aberração), mas que não
cuidava das "médias", isto é, que não se preocupava com a
democratização e a promoção da educação para todos. E esta, sim,
é não só uma aberração, como foi um dos factores que mais
contribuíram para que o País fosse "empurrado" e mantido na
cauda da Europa. Bem sabemos que nunca estivemos propriamente na
"cabeça do pelotão", mas políticas educativas que
conduziram à redução da escolaridade obrigatória de quatro para
três anos, como aconteceu na década de 30, não podiam de facto
perspectivar nada de bom para a capacidade dos portugueses.
3 - A seguir a 74 entrou-se, no entanto, num período devastador para
o reconhecimento e distinção do mérito, neste caso do mérito do
estudante ao longo da sua vida escolar. A abolição das notas, os aptos
e não aptos, a ideia de que tudo devia ser tratado por igual e
sobretudo o conceito de nivelamento, que aliás, " é sempre um
nivelamento por baixo quando imposto de cima", foram práticas que
deixaram marcas na sociedade portuguesa, mesmo que muitos dos que hoje
defendem os prémios de mérito e os "rankings", tenham, nesse
período conturbado, defendido as passagens administrativas e o
desaparecimento das classificações individuais.
4 - Estamos numa fase de evolução da nossa sociedade que merece
alguma preocupação e se não tivermos a coragem e a determinação
para impor o reconhecimento do mérito como um factor que tem
consequências directas para a vida das pessoas e para a sua carreira,
escolar ou profissional, dificilmente sairemos deste "mais ou
menos" em que vivemos.
Não é uma matéria fácil - basta recordar a dificuldade que houve
aqui há uns anos para introduzir no estatuto da carreira dos nossos
professores o conceito de avaliação e mais difícil ainda o conceito
de classificação da avaliação do seu desempenho enquanto professores
- mas é uma tarefa imperiosa com vista à criação de estímulos e
incentivos sem os quais se torna difícil progredir.
5 - A avaliação e o reconhecimento do mérito têm, no entanto, que
ser assumidos pela sociedade no seu conjunto e em particular por cada um
dos grupos que a compõem. Significa isto que os pais têm que trabalhar
activamente nos órgãos que definem os projectos da escola e que
conduzem a gestão de toda a vida escolar e têm que desempenhar o seu
papel tendo em vista o objectivo de aumentar os standards e a
exigência. É bem desejável que os Pais nunca mais defendam as
facilidades e o "está tudo bem desde que o meu filho passe".
Significa também que os Professores e particularmente os Sindicatos
têm que assumir finalmente que há quem cumpre e quem não cumpre e que
há quem desempenhe as suas funções de uma forma competente, dedicada
e profissional enquanto outros se comportam como meros funcionários de
profissionalismo duvidoso, embora sempre prontos a dizer que "não
temos condições para trabalhar". E significa ainda que os
estudantes têm que compreender que a escola é o seu local de trabalho,
que estudar é um acto que implica esforço, dedicação e por vezes
sacrifícios e que o reconhecimento desse esforço tem que ser exigido a
quem tem a responsabilidade de ensinar ou seja, aos professores. Estes,
por sua vez, têm que assumir a avaliação como uma tarefa que faz
parte integrante das suas funções. Bem sei que por vezes se exige
muito aos professores, particularmente àqueles que têm maior espírito
de missão, mas - quer se queira quer não - a profissão de professor
não é uma profissão qualquer.
Os professores devem ser para os jovens uma referência profissional
e moral e é como tal que a sociedade os deve encarar.
Nota final: Todas estas reflexões serão para muitos apenas um
conjunto de lugares comuns, mas escrevo-as porque nem sempre é fácil
que todos assumam estas "evidências" no dia-a-dia das suas
actividades e dos seus comportamentos.