APFN - 26 de Junho

Programação televisiva - um mês de discussão

De: APFN-Associação Portuguesa de Famílias Numerosas
Enviada: terça-feira, 26 de Junho de 2001 1:10

Para: Alta Autoridade para a Comunicação Social; Secretaria de Estado da Comunicação Social; Exma Deputada Ana Maria Manso; Exma Deputada Ana Narciso; Exma Deputada Heloísa Apolónia; Exma Deputada Isabel Barata; Exma Deputada Lucilia Ferra; Exma Deputada Manuela Aguiar; Exma Deputada Margarida Botelho; Exma Deputada Maria Celeste Cardona; Exma Deputada Maria do Céu Ramos; Exma Deputada Maria do Rosário Carneiro; Exma Deputada Maria Ofélia Moleiro; Exma Deputada Natália Carrascalão; Exma Deputada Natalina Moura; Exma Deputada Rosa Albernaz; Exma Deputada Sónia Fertuzinhos; Exmo Deputado Aires de Carvalho; Exmo Deputado José António Silva; Comissão Nacional de Família; Exmo Senhor Presidente do CDS-PP; Exmo Senhor Secretário-Geral do BE; Exmo Senhor Secretário-Geral do PCP; Exmo Senhor Secretário-Geral do PS; Exmo Senhor Secretário-Geral do PSD; Exmo Sr Presidente da Assembleia da República; Exmo Sr Presidente do Grupo Parlamentar Bloco de Esquerda; Exmo Sr Presidente do Grupo Parlamentar do Partido Ecologista Os Verdes; Exmo Sr Primeiro Ministro

Assunto: Programação televisiva - um mês de discussão - Comunicado da APFN

Exmo Senhor

Já se passou mais de um mês depois dos tristíssimos episódios que puseram a programação televisiva na ordem do dia.

Durante este mês, verificou-se uma condenação quase unânime dos excessos televisivos. Quase unânime, porque algumas vozes levantaram-se a defender as coitadinhas das estações televisivas que estavam a ser vítimas dos "falsos moralistas", embora estejam apenas a, altruisticamente, a querer dar ao povo aquilo de que ele gosta, conforme se prova à evidência pelas audiências que esses programas, eufemistica e abusivamente chamados de "reality shows", atingem.

Ainda hoje, no Colóquio "AudioVisual - Que estratégia", promovido em boa hora pelo Grupo Parlamentar do PS, e ao qual foi dada a oportunidade de a APFN assistir, verificou-se a quase unanimidade na condenação desse tipo de programação, embora haja grande discussão sobre quem é que deve actuar e de quem é a culpa do estado a que se chegou.

Enquanto se discute isto e se vão promovendo igualmente infrutíferas reuniões de auto-regulação ou co-regulação com as emissoras televisivas, estão já anunciados "reality shows" para muito breve, em que o objecto do concurso é exclusivamente o assédio sexual e o adultério, novamente fornecido altruísta e auto-reguladamente para gozo do povo.

A APFN desconhece o que "falso moralismo" quer dizer. Para isso, muito gostaria de saber o que os apoiantes deste estilo de programação consideram "verdadeiro moralismo".
Enquanto não obtém essa resposta, gostaríamos de referir:

1 - Recentemente, a violência doméstica foi (e muito bem) classificada como crime público. Será que crime público é um crime que se faz longe das câmaras de televisão, deixando de o ser quando é transmitido, em directo (e várias vezes reproduzido) para todo o país? Como é que é possível que o autor de um acto bem público de violência doméstica seja elevado à categoria de "figura pública", perante a total indiferença das autoridades (baixas, médias e altas)?

2 - O assédio sexual foi recentemente (e bem) elevado à categoria de crime. Como é que é possível serem autorizados concursos em que essa é a sua única razão de ser e natureza? A dignidade de homem e mulher não são valores absolutos que, com muito custo, se tenta promover universalmente (e, já agora, também em Portugal)?

3 - A APFN considera que a relação entre homem e mulher e o sentimento que os une são um valor que deve ser respeitado ao máximo, quer se tratem de casados, união de facto ou simplesmente namorados. Esse é o selo que dá origem à família, célula base da sociedade, como tal consagrado na Constituição. Como é que é possível haver um concurso cujo único motivo é tentar quebrar esse mesmo selo, para gozo do povão? Que diferença existe entre isto e os espectáculos primários nos circos romanos, igualmente muito apreciados pelo evoluidíssimo povão desses tempos?

4 - O facto de estes tristíssimos espectáculos serem servidos em doses industriais (e piores) noutros países ditos "mais evoluídos" serve de alguma desculpa ou justificação para que cá também sejam servidos? Por exemplo, o facto de os EUA ser o país com maior taxa de gravidez de adolescentes no mundo e a Inglaterra o "número um" na Europa, serve de desculpa para Portugal ser "apenas" o segundo na Europa? E quem diz isto, poderá falar de SIDA, delinquência juvenil, droga, alcoolismo juvenil, etc! Será que o facto desses países "mais evoluídos" estarem piores que nós, nos obriga a, quais parolos, sermos tão maus ou piores? Isso é sinal de "evolução", "progressismo" e do tal "verdadeiro moralismo"?

Exmo Senhor:

1 - Havendo uma condenação unânime de todas as forças políticas contra este tipo de programas (que, felizmente, não têm nada a ver com a realidade e que, portanto, só por um enorme abuso de linguagem podem ser classificados de "reality shows"), condenação essa que também é feita pelo governo e por todos os organismos que têm a ver com a regulação televisiva, e enquanto discutem de quem é a culpa pelo actual estado de coisas e quem é que deve actuar relativamente aos casos passados, não é possível juntarem-se todos e proibirem a emissão dos já anunciados programas que, na linguagem de gozo das emissoras, vão fazer com que o Big Brother e o Bar TV se venham a parecer com programas infantis?

A fim de melhor se inteirar do conteúdo e objectivo desses programas, junto se enviam os links da sua promoção e inscrição através da internet ("Ilha da Tentação" (TVI): http://www.tvi.iol.pt/insc_ilhadatentacao/inscricao1.php, "Confiança Cega" (SIC) - http://www.confiancacega.com/).
Salvo erro, o programa "Ilha da Tentação" tem estreia marcada para o próximo dia 30 de Junho.

Esperando que as autoridades democráticas exerçam o poder mandatado pelo povo português através das leis aprovadas pela Assembleia da República, aproveito para apresentar os melhores cumprimentos.

Fernando Castro

Presidente da Direcção
 

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