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16 de Junho de 2000 - Público
O Caminho Mais Fácil
Por MIGUEL SOUSA TAVARES
A entrada do Bloco de Esquerda para a Assembleia da República
trouxe, como era de prever e de desejar, um
refrescamento de ideias e de discurso de que aquela
casa bem precisada estava. A maior parte dessas iniciativas legislativas
estão à partida condenadas ao fracasso, outras são precipitadas,
outras simplesmente demagógicas ou inaceitáveis. Mas, quaisquer
que sejam os seus méritos e desfechos, as propostas do Bloco têm
contribuído para abrir o debate político, suscitando,
relativamente a questões fechadas, se não a
discussão, pelo menos, a reflexão. Isto ilustra as
vantagens de uma representação parlamentar diversificada a todo o
leque ideológico, confirmando o acerto do
"slogan" trotsquista "mais vale um deputado
acordado do que vinte a dormir". Um pequeníssimo grupo
parlamentar, libertado de responsabilidades
efectivas e da disciplina partidária, pode fazer
mais pela discussão em certos temas do que o vasto e preguiçoso
conformismo dos grandes grupos. E agora, que a Juventude
Socialista abandonou de vez o seu ridículo
monopólio das "questões fracturantes", para se
entregar à sua verdadeira vocação de reprodução, à escala júnior,
daquilo que de pior têm os partidos, o Bloco de
Esquerda (BE) tem ocupado o lugar, com bastante
mais seriedade política e solidez intelectual. O que não quer dizer
que não derrape por vezes na demagogia do politicamente correcto à
esquerda. É o caso.
A proposta de lei que o BE leva à Assembleia no
próximo dia 28, pretendendo tornar legal a
adopção de crianças por casais homossexuais, é um exemplo de como
uma proposta que se pretende apresentar como progressista e corajosa
não passa, afinal, de uma ideia profundamente
retrógrada e injusta. É claro, suponho eu, que a
proposta não tem a mais pequena possibilidade de passar, mas
a sua simples apresentação à discussão mostra como a ânsia de
"modernidade" pode conduzir à facilidade e à
leviandade intelectual. Imagino que no espírito
dos proponentes da lei e dos seus defensores esteja implícita
uma subtil intimidação ideológica: a de sugerir que quem é contra
a possibilidade de adopção pelos homossexuais é contra
o reconhecimento de direitos aos homossexuais, se
não mesmo homofóbico. Afastemos desde já a chantagem:
a adopção pelos homossexuais não tem nada, nada, a ver com direitos
dos homossexuais, mas sim e apenas com direitos das crianças. Pelo
que a única pergunta a que interessa responder é esta:
é do interesse das crianças serem adoptadas por
um casal de duas mulheres ou dois homens homossexuais? A resposta a esta
pergunta cabe à psicologia, à pediatria, ao instinto, ao bom senso e
às leis da natureza.
Fico estupefacto quando vejo uma psicóloga, como Isabel Leal,
declarar ao PÚBLICO que é incapaz de "dizer
genericamente das vantagens ou desvantagens de os casais homossexuais
terem filhos" e que os pais homossexuais só são um problema
"ao nível do estereótipo", pois que tal facto só influi na
formação dos filhos "como outras situações, por exemplo, o
serem toxicodependentes, profissionais obcecados pelo trabalho, ricos,
pobres, cultos ou incultos".
Tão aberrantes afirmações só são possíveis, de facto, para quem
como ela é capaz de chegar à conclusão de que "não vale a pena
dizer que há um modelo bom para educar crianças, pois não há um
modelo de família". Vejam que moderno: morreu o modelo de família
praticado na natureza por quase todos os animais, desde que o mundo é
mundo. Morreu a noção de mãe, de pai, de irmãos de avós, da
família como lugar natural de protecção, de crescimento, de
aprendizagem e de preparação para a liberdade, isto é, para a
condição de adulto. Em seu lugar, fica a via
aberta para todas as formas de experimentalismo familiar e paternal, em
obediência às regras de comportamento actual dos adultos nas quais é
suposto as crianças aprenderem a adaptar-se e a sobreviver. Porque,
mais uma vez, são os interesses dos adultos que devem prevalecer e as
crianças que têm de servir de cobaias ao experimentalismo familiar
politicamente correcto.
Há, neste discurso, para além de um insanável disparate do ponto
de vista sociológico e antropológico, uma total e revoltante inversão
de valores morais. O disparate consiste em imaginar que a família não
passa de um conceito intelectual e que fomos nós, os nossos
"estereótipos" ou as nossas religiões que a inventaram, e
não a natureza. A inversão de valores consiste em defender que os
interesses ilegítimos dos pais se devem sobrepor às expectativas
legítimas dos filhos, como se já não fosse obrigação dos pais
proteger os filhos, inclusive dos erros ou do egoísmo dos próprios
pais ou se, mais simples ainda, a própria noção de deveres da
paternidade se tenha diluído nos tais modelos vários de família, onde
já se perdeu (olha que conveniente!) a noção de qual é "o
modelo bom para educar crianças".
Há muito, todavia, que esta cultura do facilitismo e do
experimentalismo está denunciada por psicólogos e psiquiatras, como
nada mais do que o reflexo de um egoísmo disfarçado de modernidade.
Já não é sério pretender ignorar os danos
devastadores que este tipo de discurso demissionário causou e está a
causar a toda uma geração de crianças por uma geração de pais que
cada vez tem menos filhos e que cada vez mais encara a maternidade e a
paternidade como um encargo e não como a lei natural da vida e a
explicação do seu próprio mistério e grandeza. Definitivamente, é
muito mais fácil não ter filhos ou educá-los da forma que nos dá
mais jeito. Mas hoje também sabemos que é esta desresponsabilização
dos pais que conduz a formas desesperadas de procura de alternativas que
possam preencher o vazio que a família deveria ter ocupado - a droga, a
marginalidade urbana, o fanatismo religioso, o mundo triste e virtual
dos "chats" da Internet.
É preciso não ter medo de denunciar estas propostas e estes
discursos desresponsabilizadores. Uma sociedade que acha que tudo,
incluindo o impossível direito de paternidade dos casais homossexuais,
passa à frente dos direitos dos filhos é uma sociedade que está
pronta a abdicar de todos e quaisquer valores e a abraçar a lei do
"salve-se quem puder". Uma sociedade assim não será
progressista nem moderna: será simplesmente decadente e sem esperança.
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