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12 de Junho - Diário de Notícias
Família planeada
César das Neves
O que é que se faz quando se aplica uma má ideia a um assunto importante e dá muito maus resultados? Aplica-se a mesma má ideia a um assunto ainda mais importante! Pelo menos, é esta a estratégia que está agora a ser seguida entre nós.
Há umas décadas, havia a convicção evidente de que o planeamento da economia era uma ideia excelente. Foi aplicada com grande diligência em alguns países. O resultado foi desastroso. De certeza evidente, passou a fiasco óbvio. Hoje, esse planeamento está simplesmente abandonado. Mas começa a divulgar-se a convicção de que o planeamento da família é uma ideia óptima e insistem em aplicá-lo com muita diligência. Os resultados não serão grande surpresa.
Qual é o mal de planear a família? Não é verdade que toda a gente procura prever e orientar a sua vida e o futuro do seu agregado familiar com cuidado? Claro que sim. Aliás, o mesmo se passa com as empresas, que também planeiam os seus negócios e os seus investimentos. Há especialistas e centros de saúde que fazem o verdadeiro planeamento familiar, sério, responsável e equilibrado, tal como existem técnicos e instituições que apoiam o planeamento estratégico empresarial.
Mas não é esse o planeamento familiar de que hoje se fala. O planeamento militante e ideológico, que está em crescendo entre nós em centros de saúde e na "educação sexual" das escolas, não tem nada a ver com a lógica normal das famílias. Tal como o antigo "planeamento económico militante" nada tinha a ver com a programação das empresas. Debaixo de expressões inócuas e lógicas, escondem-se outras realidades. Que, aliás, são muito semelhantes nos dois processos de planeamento. O paralelismo é evidente.
Em primeiro lugar, trata-se, em ambos os casos, de um esforço muito redutor da realidade. O "planeamento da família" não tem nada a ver com os problemas familiares da habitação ou do orçamento; não se ocupa dos velhos ou crianças, da cozinha ou da limpeza. Realmente, esse suposto planeamento só trata de um detalhe muito específico da família: o sexo. O mesmo já se passava exactamente com o planeamento económico, que também não orientava a vida da empresa e dos mercados, das relações laborais, da contabilidade ou das tecnologias a usar. Limitava-se a impor preços e quantidades, deixando tudo o resto por definir.
Em segundo lugar, ambos os planeamentos têm a característica de incluir fortes orientações ideológicas escondidas debaixo de uma aparente neutralidade técnica. O planeamento económico, fingindo ser apenas um esforço para a eficiência produtiva, revelava-se como um canal de influência de sistemas políticos, do corporativismo salazarista ao marxismo.
Também o planeamento familiar militante que hoje nos é facultado segue firmes orientações ideológicas, por debaixo de uma capa de técnica médica. Esses especialistas têm ideias bem definidas sobre os comportamentos dos seus pacientes. Centram-se no prazer genital e defendem a liberdade sexual sem tabus (o pudor) ou restrições (a castidade). E, sobretudo, assumem a perfeita igualdade e equivalência entre várias "formas de família", fidelidade conjugal, promiscuidade, homossexualidade e outras. Esta posição de igualdade, parecendo neutra e eficiente, é altamente polémica e significa a imposição de um poderoso preconceito ideológico.
Outra semelhança entre o planeamento familiar e o económico é que ambos pretendem estar justificados por resultados científicos, mas em ambos os casos a ciência envolvida é uma ficção. A superioridade técnica da programação económica centralizada enganou muitos, durante muito tempo. Nessa época, era comum distorcer dados empíricos, análises aplicadas ou estatísticas, de forma a provar essa superioridade e a desacreditar a liberdade de mercado. Esta moda pseudocientífica durou décadas.
Também hoje abundam os estudos alegadamente rigorosos que demonstram o artificialismo cultural do pudor, as vantagens sanitárias da promiscuidade, a estabilidade das uniões de homossexuais e a sua origem genética natural, entre muitas outras teorias. Os métodos e as falácias envolvidos têm muitas semelhanças com os erros das análises económicas dos anos 60.
Em quarto lugar, ambos os planeamentos têm uma visão mecânica do fenómeno que tratam. O planeamento económico via a economia como um grande mecanismo, que devia ser controlado de forma engenheiral. Gostos dos consumidores, subjectividade de empresários e trabalhadores, expectativas dos agentes económicos eram elementos que ficavam sempre por considerar.
O actual planeamento familiar militante reduz a família ao sexo e o sexo ao prazer. A afectividade familiar, o sentido espiritual da sexualidade e os seus elementos antropológicos e culturais são esquecidos ou secundarizados. Todas as questões familiares a planear são reduzidas à dimensão corporal, tratada de forma médica.
Mas o elemento mais importante é que qualquer um dos planeamentos implica um enorme desprezo pelas pessoas e uma terrível arrogância intelectual. Por debaixo da capa de solidariedade e serviço, está a convicção segura de que os outros, sejam casais e jovens ou empresários, trabalhadores e consumidores, não sabem realmente tratar das suas vidas. São os técnicos iluminados dos departamentos de planeamento económico ou dos serviços de saúde que têm a sabedoria que falta às massas ignorantes.
Nos anos 60, toda a gente culta sabia que o estúpido sistema de concorrência de mercado gerava ineficiências, desperdícios e exploração, enquanto os sublimes métodos de planeamento fariam maravilhas pela economia. Essa certeza é agora alvo da chacota generalizada. Hoje, uma certeza semelhante envolve a ideologia pseudocientífica que suporta os métodos aparentemente neutros do planeamento familiar. Técnicos de saúde ou pedagogos da "educação sexual científica" preparam um desastre semelhante. Muito mais grave, pois a família é muito mais importante que a economia.
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