ObservatoriodoAlgarve.com - 10 Jul 08

 

Famílias grandes contra "injustiça da água"
João Prudêncio

 

No Algarve há quase 6 mil famílias com três ou mais filhos. Já se habituaram a pagar tudo pela medida grande, mas é no caso da água que clamam contra o que consideram ser uma injustiça.

 

Com tanta gente a consumir, rapidamente atingem os maiores escalões. Mesmo que se danem para poupar água!

 

Cansado de pagar entre 50 e 60 euros por mês, José Ares Cruz, 40 anos e três filhos, dispara: "Antes de os miúdos crescerem, pagávamos 20 euros de dois em dois meses. Mas agora, com eles grandes e as novas tarifas e as taxas de resíduos sólidos, tenho meses de pagar 60 euros. Este mês foram 56", explica o munícipe de Faro.

 

Aquele concelho faz parte da maioria de municípios que, no Algarve, não fazem condições especiais para famílias numerosas, mas também há municípios que já são "amigos das famílias numerosas" na região. São os casos de Tavira, Portimão, Lagos e Vila Real de Santo António.

 

Não é que, em casa de Arez Cruz, não se faça diariamente um tremendo esforço de contenção de consumos. "Nem banheira temos", sublinha o gerente bancário, que evoca os acrescentos de redutores que colocou nas extremidades das torneiras e o peso no autoclismo, que evitam desperdícios.

 

"Chateamo-nos com os miúdos cada vez que estão mais de dois minutos no banho, mas nem assim conseguimos reduzir a factura", lamenta.

 

Em causa está o facto de as autarquias e empresas municipais de abastecimento de água terem tarifas de consumo escalonadas em função da quantidade gasta em cada domicílio, independentemente do número de pessoas do agregado familiar.

 

No caso de Faro, por exemplo, o primeiro escalão (até 5 metros cúbicos) é pago a 0,40 € por metro quadrado, o segundo escalão (entre 6 e 10 metros) a 0,89 €, o terceiro (11 a 20 metros) a 1,08 € e o quarto (mais de 20 metros cúbicos) a 1,95 €.

 

"No mês passado, cheguei aos 27 metros cúbicos, portanto tive que pagar 7 metros ao preço do escalão máximo", queixa-se José Arez Cruz.

 

Liderados pela Associação Portuguesa das Famílias Numerosas (APFN), os grandes agregados recusam-se a ser confundidos com grandes gastadores de água e reivindicam o que chamam "o direito a um consumo mínimo por pessoa".

 

"Na situação actual, somos penalizados exactamente da mesma forma que um casal sem filhos, por exemplo, que não tenha cuidados rigorosamente nenhuns com o consumo e tome banhos de imersão todos os dias", constata Arez Cruz.

 

"Acham que somos muito pobres ou muito ricos"

 

Para Alexandra Alexandre, 41 anos e cinco filhos, os 50 euros que gasta por mês em água têm um preço elevado: "Até temos um balde ao pé da banheira, para encher com a água que ainda não vem quente. Depois regamos as plantas com ela".

 

Há um ano, Alexandra foi recebida pelo vice-presidente da Câmara de Faro - cidade em que vive - , Augusto Miranda, que se "mostrou sensibilizado", mas até agora ainda não houve "fumo branco" para os lados da empresa municipal Fagar.

 

Mas nem sempre são recebidos com compreensão: "Confundem-nos com as famílias carenciadas e, como muitos municípios já prevêem uma tarifa para essas famílias, não percebem que as famílias numerosas façam apelos à equidade", lamenta Alexandra.

 

"O problema é que, para o senso comum, nós, os que optam por ter mais filhos, ou somos muito ricos ou muito pobres. Os ricos não precisam, os pobres já têm ajudas. Não percebem que há gente da classe média com dificuldades devido a estas injustiças, como no pagamento da água", lamenta.

 

Enquadradas pela APFN, as famílias chamam a atenção para o que classificam como "uma profunda contradição" entre um Estado que subsidia a maternidade e uma parcela desse mesmo Estado que as penaliza pelo simples facto de... serem grandes.

 

"Isto numa sociedade que já não cresce porque há mais mortes que nascimentos e em que são urgentes incentivos à maternidade. Assim, está-se a desincentivá-la", argumenta Alexandra Alexandre.

 

Há poucos anos, quando Maria do Carmo Cunha, 37 anos e cinco filhos dos 2 aos 11 anos, tomou posse como delegada da APFN no Algarve, a nível nacional só a Câmara de Sintra era "amiga da família".

 

Hoje, são já algumas dezenas em todo o País (embora só 24 constem do site da APFN, porque nem todas cumprem todos os requisitos para tal), assinala a mãe de família, sublinhando que a equidade nos preços da água "é apenas uma das muitas questões em que as famílias numerosas podem ser ajudadas". Os transportes e os preços das entradas em teatros e museus são outras ajudas possíveis, que vêm ocorrendo cada vez mais em todo o País.

 

Mas, assinala, o problema da água é fundamental e carece de resolução urgente na maioria das câmaras, devido ao crescendo exponencial do preço nos vários escalões.