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Diário de Notícias
- 14
Jul 06
As mães
Maria José Nogueira
Pinto
Aurora nasceu no sábado, dia 8, lá longe na cidade
de São Paulo.
Passei à categoria de avó e, muito mais importante,
a Catarina iniciou essa aventura, combate e milagre
que é ser mãe.
Revi as interpretações várias que, nas últimas
décadas, foram dadas da maternidade. Lembrei-me dos
primeiros tempos da faculdade e das paladinas da
mulher sem filhos, abertas que começavam a estar as
portas para as carreiras profissionais, o controlo
biológico do corpo, a autodeterminação, em suma!
Quem é que pensava ser mãe entre a agitada vida
académica, a participação política e contestatária,
a possibilidade de pontuar nas grandes discussões e
até, porque não?, uma fuga para Katmandu?
No meu meio, bastante burguês valha a verdade, as
"meninas" comoviam-se com a perspectiva maternal.
Queriam casar e ter filhos, o que fizeram na sua
maioria, tornando-se profundamente maçadoras com
intermináveis conversas sobre problemas de dentição
e máximas do Dr. Spock.
A classe média, pelo seu lado, despertava então para
as maravilhas da sociedade de consumo e desejava ter
filhos como o bebé Nestlé, pelo que se impunha
bastante parcimónia a fim de fazer render o dinheiro
para propiciar a cada rebento a parafernália - então
almejada e hoje obrigatória - própria de um recém- -nascido:
camas desmontáveis, andarilhos, cadeiras anatómicas,
brinquedos, biberões, aquecedores de biberões,
esterilizadores, máquinas de vapor, loções várias,
cotonetes, fraldas descartáveis e um sem número de
farinhas e purés.
No bairro onde eu vivia e vivo, havia pobres.
Mulheres pobres, mães de inúmeras crianças mais
pobres ainda. Eram pobres visíveis que as
estatísticas não procuravam sequer disfarçar, numa
época em que para a pobreza só havia, como
paliativo, a caridade. Estes pobres eram
periodicamente objecto de grandes discussões, em que
uns advogavam que os pobres não deviam ter tantos
filhos e outros, alegando a hipocrisia de tal
afirmação, afirmavam que não devia haver tantos
pobres.
Casei-me muito cedo.
Vejo agora à distância que não tinha qualquer
preparação para quase nada, do muito de fantástico
(bom e mau) com que a vida me distinguiu.
Desejava os filhos mas odiava a gravidez, nove meses
de uma convivência complicada que me deixava
impaciente e cheia de complexos de culpa.
Quando nasciam e eu os agarrava, vinha- -me à cabeça
este pensamento terrível: e agora? Sabia que era
preciso prolongar aquele parto por muitos anos,
empurrando-os com jeito para a vida. Que era preciso
protegê-los mas dar-lhes auto-estima; chamá-los meus
mas respeitar a sua autonomia e a sua identidade;
mimá-los mas torná-los resistentes às vicissitudes
do destino; dar-lhes o exemplo mas não os esmagar
com estereótipos; proporcionar-lhes condições de
êxito mas evitar-lhes o peso de um coração duro.
Como fazer? Quem é que me educara para educar?
Enquanto provedora, as crianças trepavam por mim
acima, agarrando-me, puxando-me os brincos e os
colares cujo brilho era irresistível naquele pequeno
mundo de sombras tentando perigosamente desatar nós
de abandono e fazer laços de afecto.
A montante, na Alfredo da Costa, foram as mães que
me agarravam as mãos, as que não queriam os filhos,
as que não podiam sequer querer os filhos, porque
não tinham nem emprego, nem casa, nem companheiro,
nem família. E as que tinham medo. E aquelas cujos
bebés não eram "perfeitinhos" e desnorteadas viam o
mundo desabar em seu redor. E as que choravam porque
tinham perdido o bebé. E as que vinham para
interromper voluntariamente a gravidez. E que também
choravam. Que dizer? Quase sempre só o silêncio e os
gestos podiam, com vantagem, substituir as palavras.
Recordei, na minha filha, todas as mães.
Muitas histórias de coragem, de amor e de esperança,
protagonizadas por heroínas anónimas em quotidianos
difíceis. E pensei na filha da minha filha. De como
tínhamos cumprido a nossa renovação geracional. E
com ela, fechado um ciclo e aberto outro. |