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Diário de Notícias
- 10
Jul 06
Não
digas 'porquê', diz 'obrigado'
João César das Neves
A
vida tem sentido. A realidade do mundo, a
evolução da humanidade, os acontecimentos da nossa
história pessoal têm uma lógica, uma sequência, uma
finalidade. Só por isso é que, perante algo que não
entendemos, sempre perguntamos: "Porquê?" Queremos
saber a razão, a causa, o propósito. Se as coisas à
nossa volta fossem sempre arbitrárias e fortuitas,
ninguém as tentaria compreender.
Até os livres-pensadores, presos a uma visão
materialista, cega e efémera da existência, se
indignam quando sofrem uma injustiça, ficam confusos
quando não entendem o que observam ou vivem. Todos,
de alguma maneira, esperamos ordem e equilíbrio à
nossa volta. Como se poderia viver num mundo
ilógico? Numa sociedade aleatória? Numa história
caprichosa? A vida tem sentido.
Esse sentido da vida não é uma lei férrea, um
destino predeterminado. Ele pode ser distorcido,
oculto, perdido, atacado. Existem naturalmente
muitas coisas que não entendemos, acidentes
fortuitos, desastres destruidores, factos
incompreensíveis, porquês sem resposta. Por isso,
naturalmente, nem sempre o sentido é o que nós
gostaríamos. Nem sempre a vida encaixa nos projectos
que vamos fazendo. Mas tudo isso só confirma a
existência do sentido da vida. Tal como a doença
manifesta a realidade da saúde e o crime não anula a
existência da lei, antes a revela. Por isso
continuamos a perguntar "porquê?".
A era moderna nasceu quando esta pergunta "porquê?"
ganhou um novo teor. Antes era apenas uma súplica de
motivo; depois passou a ser a investigação de uma
causa. O ser humano foi sondando e analisando o
mecanismo da realidade. Perguntar "porquê?" passou a
exigir uma teoria explicativa. Graças à nova
atitude, a humanidade ganhou muito. A ciência abriu
as portas à técnica e esta trouxe conforto,
medicina, progresso, prosperidade. Perguntar
"porquê?" permitiu um enorme domínio sobre a
realidade. O sentido da vida pareceu acessível,
decifrável, controlável.
A era contemporânea começou quando este resultado
trouxe um novo tom à pergunta "porquê?". Agora,
perante algo que não entendemos, assumimos um acento
exigente, indignado, reivindicativo: "Porque nos
acontece isto? Como é possível que não tenha sido
evitado? Não há um estudo, uma política, uma
solução?" O ser humano começou a impor direitos, a
fazer exigências à realidade. Vivemos, mas sob
condições, segundo as regras que reclamamos. Esta
evolução, se nos concedeu enormes benefícios, também
nos fez perder dois dos elementos fundamentais do
sentido da vida.
O primeiro é que a vida é um dom, algo que só temos
porque nos foi dado. Recebemo-la um dia, tal como a
haveremos um dia de entregar. Até lá temos de seguir
o caminho que ela escolhe. Mesmo no mundo da
tecnologia, não controlamos o que nos acontece,
apenas aquilo que fazemos com o que nos acontece. A
existência tem sentido, mas é tudo menos
controlável.
O segundo aspecto que a visão actual ignora é que
todas as situações, mesmo as mais desesperadas, têm
em si sempre algo de bom. O mal absoluto não existe.
A vida tem sentido. Os horrores da violência,
miséria, desespero são bem visíveis no meio do
conforto da modernidade. Chocamos contra as tristes
situações em que o sentido da vida é distorcido,
oculto, perdido, atacado. Mas há sempre um raio de
luz no fundo da maior escuridão.
Muita gente recusa estes aspectos como atitudes
passivas, conformistas, medíocres. É preciso, dizem,
ser sempre proactivo, exigente, inovador,
inconformado. Esses espíritos tacanhos só vêem duas
alternativas: a exuberância irrequieta ou a apatia
boçal. Mas respeitar o sentido da vida e promover o
lado positivo dos acontecimentos, por ínfimo que
seja, é a única forma realista de construir a
sociedade justa, o desenvolvimento sustentado, a
vida com sentido. Os edifícios utópicos
bem-intencionados foram causa dos maiores desastres
da humanidade.
Esquecendo estes dois aspectos, o ser humano actual,
até no meio da prosperidade, sente uma amargura que
o passado desconhecia. Para quem exige direitos, a
quem impõe projectos, é difícil sentir-se grato por
viver no mundo, mesmo quando chove, por ter um
corpo, mesmo com dores. "A sabedoria na vida não
está em fazer aquilo de que se gosta, mas em gostar
daquilo que se faz", como diz o provérbio que o meu
pai gosta de repetir. A verdadeira felicidade é
daqueles que, perante os obstáculos e
contrariedades, não perguntam "porquê?", mas
conseguem dizer sinceramente "obrigado!".
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