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Público - 3
Jul 06
O Parlamento e o povo. A política e a
cultura
Mário Pinto
1.EM PORTUGAL, tem sido travado o radicalismo
extremo e a pressa excessiva das minorias
vanguardistas que pretendem a aprovação de
legislação que "fractura" (a expressão é dessas
minorias) a concepção antropológica fundamental da
nossa cultura e da nossa civilização, de raízes
greco-romanas e judeo-cristãs. Há que reconhecer que
houve alguma moderação na legalização do aborto e
quanto às "uniões" homossexuais. Pergunta-se: vai
agora deixar de ser assim, na lei da procriação
medicamente assistida? Tal como também ocorreu nos
casos anteriores, voltou a ser evidente não apenas a
pressa, mas também a repetição do chauvinismo
parlamentar contra o referendo. O que não deixa de
ser irónico: quando as maiorias parlamentares
simples foram de outros, essas maiorias foram só por
si ditadura (assim no caso da maioria parlamentar
dos governos de Cavaco Silva); agora, que são
próprias (actual maioria do PS, PCP e BE), as
maiorias parlamentares simples tornam-se o bom
paradigma da democracia contra o perigo dos
referendos populares.
2. POIS BEM: será um tremendo erro deixar prevalecer
nestas matérias a sofreguidão revolucionária de uma
ocasional maioria simples parlamentar. O que assim
se pode provocar é uma praxe de mudança de regimes
jurídicos fundamentais de quatro em quatro anos: o
regime do casamento; o do aborto; o da procriação
medicamente assistida; e outros. Pois não vêem estes
novos ricos da legitimidade parlamentar que as
maiorias parlamentares mudam de quatro em quatro
anos? Esperemos, também, que as magistraturas sejam
prudentes, porque a nossa milenar concepção
antropológica foi unanimemente tida como pressuposto
na feitura da Constituição, e deve portanto ser
considerada matéria constitucionalizada.
3. RECORDAREI, a este propósito, o caso da América
do Norte - mais uma vez, a América vai à frente.
Perante a ofensiva radicalista dos movimentos
homossexuais, nos Estados Unidos, 37 Estados
definiram por lei o matrimónio como "união legal de
um homem e de uma mulher". Dezanove destas leis
foram aprovadas por referendo. Todas mantiveram,
portanto, a orientação da Lei Clinton de defesa do
matrimónio, que só concedeu legalidade ao matrimónio
heterossexual. Recentemente, o próprio Senado dos
Estados Unidos discutiu a hipótese de uma revisão da
própria Constituição Federal, no mesmo sentido. Os
governos do Canadá e da Austrália já admitiram
revogar as leis sobre matrimónio homossexual
vigentes nesses países. Navarro-Vals, professor
catedrático da Faculdade de Direito da prestigiada
Universidade Complutense, ex-portavoz da Santa Sé,
publicou recentemente um artigo no jornal El Mundo
em que admite que, em vez de um efeito dominó, se
esteja a produzir um efeito blindagem. Este efeito
de blindagem e a marcha-atrás que se está notando em
matéria de matrimónio homossexual poderá ocorrer
também noutras matérias, como por exemplo quanto ao
aborto e a certas soluções da procriação assistida
ou artificial, dadas as previsões preocupantes que
se estão fazendo em várias latitudes. Deve pois
haver a maior cautela nestes "avanços fracturantes"
em matérias que tocam a identidade antropológica, a
vida e a dignidade humana, tais como foram
secularmente consagradas no fundamento da nossa
cultura e da nossa civilização. Todo o consenso
possível não é demais.
4. QUE EM CERTAS matérias há urgência em legislar,
como no caso da procriação medicamente assistida,
não há dúvidas; só que essa urgência não justifica
maximalismos mais do que duvidosos. Esta é a posição
dos peticionários do referendo. Por isso, não se
argumente com a necessidade e a urgência de lei.
Nisso estamos de acordo; no que não estamos de
acordo é com todas as soluções da lei votada. A
pressa não justifica más soluções. Não se tomem os
peticionários por tolos. Se o Parlamento não aprovou
uma lei há mais tempo, não se pode agora invocar a
seu benefício as pressas das quais tem culpa. ... |