Público - 18 Julho 2005
Não é sina. É
laxismo
Santana Castilho
Os
números são conhecidos, mas importa recordá-los na sua crueza: 7
em cada 10 alunos do 9.º ano reprovaram no exame de Matemática.
Ao significado brutal destes 70 por cento de chumbos importa
ainda acrescentar que a mais de 20 por cento deles correspondem
notas mínimas, próximas do zero doutros tempos. Apesar disto, 74
por cento dos alunos do 9.º ano passaram e estarão no 10.º,
chumbados a mais uma série de disciplinas, porque o exame se
limitou a um simples faz-de-conta.
Este desastre e este laxismo merecem reflexão e suscitam
perguntas. Que significa o chumbo rotundo, em exame, de tantos
alunos, cujos professores de todo um ano de trabalho contínuo
consideraram em condições de passar? Que causas explicam a
derrocada e o que se pode fazer para a corrigir? As medidas já
anunciadas nesse sentido estarão certas e serão eficazes?
Como é hábito no país, vem aí um grupo de sábios para estudar o
problema. Vai trabalhar em Agosto e deverá verificar se o abismo
entre as notas do exame e as notas dadas ao longo do ano se
distribui regularmente pelo país ou é específico de determinadas
escolas. Ora a dimensão dos números responde a esta questão sem
necessidade de qualquer estudo. Com esta extensão, e sem
prejuízo de maior evidência numa ou noutra escola, os
especialistas só poderão concluir que o problema é nacional.
Mas o essencial não é isso e também é evidente: o conhecimento
adquirido pelos alunos é demasiado baixo e foi aceite como
satisfatório por um sistema laxista de avaliação contínua. A
este propósito tenho ouvido questionar a validade do exame, para
se significar que ele era demasiado exigente para aqueles
alunos. Ora um instrumento de medida pode ser utilizado com
objectivos diferentes, pelo que qualquer juízo sobre ele deve
ser antecipado pela pergunta: o que é que se queria medir?
Parece-me evidente que os autores do exame quiseram medir o
conhecimento dos alunos por referência a um programa. Não
quiseram construir um instrumento que desse uma clássica curva
de Gauss. Fizeram bem.
Os resultados deste exame nacional acompanham os sucessivos
estudos da OCDE sobre a literacia matemática dos nossos jovens.
Os responsáveis não se mostram surpreendidos e dizem que os
esperavam. O problema é, portanto, velho. Mas, apesar disso,
persiste, o que mostra que não temos sido capazes de o resolver.
Por falta de estudos? Por falta de diagnósticos? Não, em meu
entender. Apenas por falta de adequadas medidas de política e de
gestão. Porque os responsáveis seguem orientações erradas.
Respondamos, então, conjuntamente, às outras questões
formuladas: o que justifica a situação, o que se pode fazer para
a corrigir e será que o Governo anunciou medidas certas? Não
cabendo em tão pouco espaço tão longa lista, retenho por ora
alguns aspectos de âmbito geral, deixando para o próximo artigo
os específicos da Matemática. Assim:
1. A atitude comum aos responsáveis políticos, aos pais, aos
professores e aos alunos é a de tudo dispor para passar de ano.
Esta atitude deve ser radicalmente substituída por tudo fazer
para saber. Se analisarmos as razões do êxito dos que estão
melhores que nós, definimo-las com as mesmas palavras que
exprimem as nossas carências: trabalho, exigência e
responsabilidade.
2. As medidas anunciadas pela ministra da Educação assentam
basicamente em duas vertentes: mais permanência nas escolas para
os alunos e professores e mais formação para os professores de
Matemática, por recurso às escolas superiores de educação. Esta
estratégia está cheia de contradições, corresponde a uma visão
burocrática dos problemas e apenas prevê mais do mesmo. A
ministra diz que só a rotina justifica que as escolas funcionem
por turnos e que por tal terão de mudar de regime. Mas logo a
seguir reconhece que é preciso construir novas escolas,
recuperar e melhorar outras, que há sobrelotação de muitas e
escassez de salas e de recursos humanos para que tal desiderato
se concretize. Em que ficamos? Diz também que a culpa não é dos
professores nem dos alunos, mas "das condições de ensino e de
aprendizagem", que não particulariza. Mas depois age sobre
alunos e professores. Mais horas de ensino para os primeiros e
mais formação para os segundos. Em que ficamos?
Sempre que em Portugal não funciona o que existe, os políticos
puxam pela cabeça e justapõem à ineficácia mais carga ineficaz.
Ora a equação é outra: o que temos que fazer para que as horas
de ensino existentes sejam produtivas? O que temos que fazer
para que estes professores, com a formação que têm, possam gerar
melhores resultados?
Muitos professores terão carências de formação, mas se forem
responsabilizados eficazmente, supervisionados eficazmente e
trabalharem com programas e métodos adequados, não precisam de
mais formação para produzir muito mais. A fiscalização
desapareceu. A monitorização das aulas não existe. E estamos a
falar de matérias científicas básicas, não de coisas complexas.
Os agentes a quem se reconhece hoje carências foram ontem
julgados competentes, a maior parte deles pelas mesmas escolas
que agora são chamadas a complementar o trabalho. São todos
licenciados e isto passa-se num momento em que aceitamos a
redução da formação, via processo de Bolonha. Se falharam há
pouco, com quatro anos de tempo inteiro, por que terão êxito
agora em várias horas de formação ad hoc? Em cima de uma
formação extensa, que custou muito dinheiro aos contribuintes,
propomo-nos agora jogar mais formação e mais dinheiro, ao mesmo
tempo que Bolonha lhe retirará um ano no futuro. Que coerência
sobra de tudo isto?
Aqui como noutros campos, as medidas que o Governo vem tomando
não emanam de um conceito estratégico nacional claro. Surgem de
forma avulsa e não fundamentada. Porque as alternativas não são
ponderadas, não têm a garantia de serem as mais adequadas.
Porque obedecem à táctica do facto consumado, não mobilizam.
Porque não mobilizam contribuem para que tomemos por sina o que
é simples laxismo. Professor do ensino superior