Expresso - 27 de Julho de 2002

Livros para férias
 
João Carlos Espada

CLASS Wars: The State of British Education (Londres: Little, Brown, 2002) é apresentado pela editora como «o livro que todos os pais deviam ler». O autor, Chris Woodhead, foi durante seis anos «Her Majesty's Chief Inspector of Schools». Hoje, descreve com o coração despedaçado a situação caótica a que chegou o ensino estatal britânico. Tendo sido defensor da escola do Estado, descrê agora da possibilidade de a regenerar a partir de dentro - razão pela qual se demitiu da sua função de inspector-chefe. Termina o seu livro apelando à introdução dos «vouchers», como última esperança de reformar a ditadura burocrática e pós-moderna que se instalou no ensino - e cujas principais vítimas são os mais pobres.

Woodhead descreve com grande exactidão a mistura de marxismo e anarquismo hedonista que hoje domina a cultura burocrática do ensino (para não falar da televisão). Mas não nos diz de onde vem esta cultura. The Long March: How the Cultural Revolution of the 1960s Changed America (São Francisco: Encounter Books, 2000), de Roger Kimball, tenta responder a esse mistério. Com impressionante paciência, o autor - chefe de redacção da revista «The New Criterion» - recorda passo a passo a emergência da contracultura na década de 1950, a sua explosão radical na década de 60, e a sua gradual ascensão aos centros do poder intelectual nas décadas seguintes.

Kimball observa sabiamente, apoiando-se em Edmund Burke, que «o antídoto de uma revolução cultural não é uma contra-revolução, mas uma paciente recuperação de virtudes perdidas». Esta recuperação é possível, acrescenta Kimball, porque estas virtudes decorrem da natureza humana, não foram centralmente inventadas, e a sua descoberta simplesmente emergiu com o lento amadurecimento civilizacional. Por outras palavras, se essas virtudes foram livremente descobertas, elas podem ser livremente redescobertas.

Francamente menos optimista é Francis Fukuyama no seu último livro, O Nosso Futuro Pós-Humano: Consequências da Revolução Biotecnológica (Lisboa: Quetzal, 2002). Como Kimball, Fukuyama considera que a origem do fracasso de todas as tentativas centralizadas de redesenhar as sociedades livres residiu na incontornável resistência espontânea da natureza humana. Mas, segundo ele, estamos em vésperas de manipular geneticamente essa natureza. E as consequências não serão risonhas.

Pode a filosofia ajudar a enfrentar estes problemas? Não seguramente na actual versão ortodoxa, responde Anthony O'Hear, no livro Philosophy in the 21st Century (Londres: Continuum, 2001). Segundo O'Hear - director da revista «Philosophy» e do Royal Institute of Philosophy de Londres -, a presente ortodoxia consiste em cultivar a desconstrução de todos os chamados «preconceitos» sustentados pelo senso comum. Mas essa ortodoxia assenta, por sua vez, no colossal preconceito de que a chamada «Razão» pode fornecer fundamentos primeiros mais seguros do que a experiência longamente acumulada e criticamente avaliada. «Se a 'Razão' pode fazê-lo», diz O'Hear, «ela tem mantido essa proeza muito bem escondida, sobretudo nos modernos departamentos universitários».

Boas leituras, boas férias, e até Setembro.

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