Expresso - 13 de Julho de 2002

E, no entanto, ela move-se...
 
João Carlos Espada

NO PASSADO dia 27 de Junho, o Supremo Tribunal norte-americano aprovou (por cinco votos a favor e quatro contra) a constitucionalidade dos famosos «vouchers» escolares, ou cheques-ensino. Dias depois, o Presidente Bush celebrou o evento comparando-o à histórica decisão judicial de 1954 (Brown vs. Board of Education) que pôs termo à segregação racial nas escolas.

A comparação faz todo o sentido e é reveladora da profunda e irónica mutação operada no panorama político ocidental do último meio século. Muitos dos que se apresentam como herdeiros do combate à segregação racial nos anos 1950 e 1960 opõem-se hoje tenazmente aos «vouchers» escolares. No entanto, os «vouchers» comprovadamente beneficiam em primeiro lugar os mesmos que há meio século eram segregados: os pobres e, no caso americano, sobretudo os negros pobres.

A primeira experiência de «vouchers» nos EUA teve lugar na cidade de Milwaukee, no início da década de 1980. Foi lançada pela Bradley Foundation, uma fundação privada com sede na cidade, em colaboração com associações de pais pobres de zonas degradadas. A Fundação Bradley criou com o seu próprio dinheiro bolsas de estudo destinadas a famílias pobres que quisessem pagar propinas em escolas da sua escolha. O programa teve a adesão entusiástica das famílias de zonas degradadas, cujas escolas estatais se encontravam em situação deplorável.

As crianças que beneficiaram das bolsas inscreveram-se em escolas independentes e começaram a melhorar os seus resultados. O número de candidatos aumentou vertiginosamente. O governo da cidade acabou por adoptar
os «vouchers», transformando-os num programa estatal. Perante o sucesso de Milwaukee, o sistema foi adoptado depois em Cleveland, Ohio. Mais recentemente, foi aplicado no estado da Florida.

Os sindicatos das escolas estatais abandonadas pelos pobres declararam guerra aos «vouchers». Começaram por argumentar que estes visavam destruir a escola do Estado (a que chamam pública). Mas os factos mostravam que apenas as más escolas estatais eram abandonadas, não as boas.

Os sindicatos precisavam de um argumento mais convincente. Descobriram que mais de 90% dos estudantes pobres de Milwaukee e Cleveland que recebiam «vouchers» iam usá-los em escolas religiosas, sobretudo católicas. Estava encontrado o argumento: os «vouchers» eram inconstitucionais porque canalizavam dinheiro público para instituições religiosas, violando dessa forma o princípio da separação entre a Igreja e o Estado.

Foi este sofisma que o Supremo Tribunal acabou de refutar. Não há qualquer violação desse princípio, dado que o Estado apenas dá o dinheiro às famílias. São estas que escolhem a escola, que pode ou não ser religiosa. Por que razão deveria o Estado proibir as famílias de escolherem escolas religiosas, se estas cumprem os requisitos gerais de qualidade, iguais para todas?

A proposta dos «vouchers» está ainda longe de ter conquistado a aprovação da maioria. Mas a fraude intelectual dos seus opositores pode agora ser vista por quem quiser ver. Retomando a célebre expressão de Galileu - cuja
história, aliás, foi sempre mal contada pelo dogmatismo secular - é caso para dizer: «E, no entanto, ela move-se...»

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