decisivo como por exemplo uma
remodelação governamental, que é uma mudança das pessoas que nos
vão governar? Mas em que sentido é importante? E o que é importante?
Durante boa parte da vida da minha geração, a ideologia marxista
seduziu a "intelligentzia". Por mim, nunca me convenci do
postulado materialista, que é a base de toda a construção marxiana e
marxista. E, independentemente disso, nunca me convenci de que, para a
vida social e o desenrolar da história, existisse uma determinância
sócio-estrutural: de que decorressem a inteligência, a liberdade e a
responsabilidade do homem.
Diferentemente, sempre valorizei muito a cultura. Não num sentido
pobre, quase só estético, como é tomado às vezes, em que a cultura
não abrange por exemplo a educação, nem a ciência, nem a política,
nem a ética. Mas antes num sentido integral, constituindo um todo
criado e partilhado pelo homem, e por isso em toda a medida o
exprimindo, o manifestando e o desenvolvendo, pessoal e comunitariamente.
Neste sentido, não há cultura sem homem, e portanto não há cultura
sem responsabilidade humana. Assim, falar de cultura é tratar de
responsabilidade pessoal, e requer sempre a metodologia do espírito
crítico.
Quando uma sociedade perde o sentido da criação responsável, e
prefere um qualquer hedonismo, caminha para a crise e a morte. Ou, pelo
menos, para a regressão civilizacional. Porém, dir-se-á que a
sociedade dos nossos dias é altamente criadora! Nunca se criou tanto
como hoje. Na ciência, na economia, nas belas artes, na política, na
técnica. Sim, é verdade. Mas há um lado não criador, ou menos
criador. E em que parecem dominar os efeitos perversos das mudanças
criadoras em outros aspectos da vida. Refiro-me à ética da vida
pessoal e familiar. Em trinta ou quarenta anos, a questão da ética do
comportamento pessoal e familiar, que foi milenarmente fulcral, passou a
ser residual. Ou seja: fica para o fim, para o resto, meio esquecida.
Não pretendo com isto defender um qualquer conservadorismo primário.
Não. Quero defender a importância fulcral da questão.
Há poucos dias, em dois interessantes artigos saídos no PÚBLICO,
coincidindo com a divulgação de dados estatísticos por parte do INE,
foi salientada uma importante mudança social e cultural. Num artigo de
Dulce Neto, sugestivamente intitulado "comprar tempo", e num
editorial de José Manuel Fernandes, sobre a pertinente questão de
saber se estamos a viver com mais qualidade de vida, apesar de estarmos
mais ricos. Há uma mudança melindrosa: é que, com o aumento da vida
profissional, gera-se uma escassez de tempo para a vida familiar, cujas
tarefas gratuitas tendem a ser substituídas por uma mercantilização
crescente. O tempo vai para a produção; e não há tempo para as
pessoas. E qual a causa do fenómeno?
A este propósito, gostava de contar duas pequenas histórias. Quando
em Portugal a segurança social se alargou aos trabalhadores
domésticos, verificou-se, então, que algumas mães de família, que
não tinham qualquer trabalho "profissional" fora de casa e,
por essa razão, não tinham segurança social, se declararam
ficticiamente empregadas domésticas umas das outras, para poderem
inscrever-se na Segurança Social e ganhar o direito a uma reforma
futura. Sempre vi neste fenómeno uma solução genial. Mas passo a
contar a outra história. Esta passada num seminário internacional, há
muitos anos, em que se discutia o conceito de trabalhador activo, para
efeitos estatísticos e de segurança social. O meu vizinho do lado, um
simpático holandês, que aparentava acompanhar os trabalhos
distraidamente, fazendo desenhos, passou-me em dada altura uma folha de
papel desenhada, onde eu vi dois quadrados. Num deles, uma mulher
colocava um prato fumegante em frente de um homem sentado à mesa, com
um guardanapo ao peito. No outro quadrado, uma mulher punha feno no
comedoiro de uma vaca. Por baixo do primeiro quadrado estava escrito:
"femme non active". Por baixo do segundo quadrado lia-se:
"femme active". Achei que era uma boa caricatura para as mães
de família portuguesas, e pedi-lhe o desenho. Ele deu-mo. Ainda o
conservo.
Está aqui em causa uma distinção de trabalho que ainda hoje tem
actualidade em muitas causas, nas políticas e nas ideologias. Não há
dúvida de que os trabalhos caseiros e familiares sofrem uma
discriminação desvalorizadora. A ideia parece ser a de que só a
esfera das profissões com expressão competitiva e remuneratória no
mercado económico realiza os direitos humanos e a igualdade de
cidadania. Assim, toda a vida social vai entrando para a esfera
mercantil, esvaziando as esferas da gratuitidade e do dom. A vida
profissional mercantil, cada vez mais competitiva e absorvente, a que se
acrescenta o tempo (de relaxe!) que a televisão nos rouba, está a
transformar-nos em seres cada vez mais (familiarmente) separados, mais
(economicamente) escravos e mais (espiritualmente) passivos.
As principais vítimas destas mudanças são as mulheres (a quem não
é possível retirar o papel criador da maternidade e da educação); e
também as crianças (que crescem quase sem comunidade com os seus dois
pais e, pior ainda, com a sua mãe).
Tenho ouvido frequentemente repetir uma frase doutrinária que faz
uma clara distinção: economia de mercado, sim; sociedade de mercado,
não. Muito bem.
Mas o problema não é o da distinção. O problema é o da
concorrência entre estas duas esferas. Com efeito, hoje aumenta
sensivelmente o número de empresas prestadoras de serviços
substitutivos do trabalho tradicionalmente caseiro; tratamento de roupa,
comida confeccionada, guarda de crianças e idosos, etc. Porque cada vez
mais vendemos o nosso tempo no mercado profissional e temos menos tempo
para dar na nossa vida familiar. O problema é, portanto, que uma boa
parte da sociedade (que não se deseja de mercado) se está transferindo
para a economia de mercado. E então, o que diz a este respeito a
célebre frase doutrinária?