Público - 2 de Julho

A tempo e a contratempo

Economia de Mercado, Sim; Sociedade de Mercado, Não.

Por MÁRIO PINTO

Quem pode haver aí que não dê importância à política? E a um acto tão decisivo como por exemplo uma remodelação governamental, que é uma mudança das pessoas que nos vão governar? Mas em que sentido é importante? E o que é importante?

Durante boa parte da vida da minha geração, a ideologia marxista seduziu a "intelligentzia". Por mim, nunca me convenci do postulado materialista, que é a base de toda a construção marxiana e marxista. E, independentemente disso, nunca me convenci de que, para a vida social e o desenrolar da história, existisse uma determinância sócio-estrutural: de que decorressem a inteligência, a liberdade e a responsabilidade do homem.

Diferentemente, sempre valorizei muito a cultura. Não num sentido pobre, quase só estético, como é tomado às vezes, em que a cultura não abrange por exemplo a educação, nem a ciência, nem a política, nem a ética. Mas antes num sentido integral, constituindo um todo criado e partilhado pelo homem, e por isso em toda a medida o exprimindo, o manifestando e o desenvolvendo, pessoal e comunitariamente. Neste sentido, não há cultura sem homem, e portanto não há cultura sem responsabilidade humana. Assim, falar de cultura é tratar de responsabilidade pessoal, e requer sempre a metodologia do espírito crítico.

Quando uma sociedade perde o sentido da criação responsável, e prefere um qualquer hedonismo, caminha para a crise e a morte. Ou, pelo menos, para a regressão civilizacional. Porém, dir-se-á que a sociedade dos nossos dias é altamente criadora! Nunca se criou tanto como hoje. Na ciência, na economia, nas belas artes, na política, na técnica. Sim, é verdade. Mas há um lado não criador, ou menos criador. E em que parecem dominar os efeitos perversos das mudanças criadoras em outros aspectos da vida. Refiro-me à ética da vida pessoal e familiar. Em trinta ou quarenta anos, a questão da ética do comportamento pessoal e familiar, que foi milenarmente fulcral, passou a ser residual. Ou seja: fica para o fim, para o resto, meio esquecida. Não pretendo com isto defender um qualquer conservadorismo primário. Não. Quero defender a importância fulcral da questão.

Há poucos dias, em dois interessantes artigos saídos no PÚBLICO, coincidindo com a divulgação de dados estatísticos por parte do INE, foi salientada uma importante mudança social e cultural. Num artigo de Dulce Neto, sugestivamente intitulado "comprar tempo", e num editorial de José Manuel Fernandes, sobre a pertinente questão de saber se estamos a viver com mais qualidade de vida, apesar de estarmos mais ricos. Há uma mudança melindrosa: é que, com o aumento da vida profissional, gera-se uma escassez de tempo para a vida familiar, cujas tarefas gratuitas tendem a ser substituídas por uma mercantilização crescente. O tempo vai para a produção; e não há tempo para as pessoas. E qual a causa do fenómeno?

A este propósito, gostava de contar duas pequenas histórias. Quando em Portugal a segurança social se alargou aos trabalhadores domésticos, verificou-se, então, que algumas mães de família, que não tinham qualquer trabalho "profissional" fora de casa e, por essa razão, não tinham segurança social, se declararam ficticiamente empregadas domésticas umas das outras, para poderem inscrever-se na Segurança Social e ganhar o direito a uma reforma futura. Sempre vi neste fenómeno uma solução genial. Mas passo a contar a outra história. Esta passada num seminário internacional, há muitos anos, em que se discutia o conceito de trabalhador activo, para efeitos estatísticos e de segurança social. O meu vizinho do lado, um simpático holandês, que aparentava acompanhar os trabalhos distraidamente, fazendo desenhos, passou-me em dada altura uma folha de papel desenhada, onde eu vi dois quadrados. Num deles, uma mulher colocava um prato fumegante em frente de um homem sentado à mesa, com um guardanapo ao peito. No outro quadrado, uma mulher punha feno no comedoiro de uma vaca. Por baixo do primeiro quadrado estava escrito: "femme non active". Por baixo do segundo quadrado lia-se: "femme active". Achei que era uma boa caricatura para as mães de família portuguesas, e pedi-lhe o desenho. Ele deu-mo. Ainda o conservo.

Está aqui em causa uma distinção de trabalho que ainda hoje tem actualidade em muitas causas, nas políticas e nas ideologias. Não há dúvida de que os trabalhos caseiros e familiares sofrem uma discriminação desvalorizadora. A ideia parece ser a de que só a esfera das profissões com expressão competitiva e remuneratória no mercado económico realiza os direitos humanos e a igualdade de cidadania. Assim, toda a vida social vai entrando para a esfera mercantil, esvaziando as esferas da gratuitidade e do dom. A vida profissional mercantil, cada vez mais competitiva e absorvente, a que se acrescenta o tempo (de relaxe!) que a televisão nos rouba, está a transformar-nos em seres cada vez mais (familiarmente) separados, mais (economicamente) escravos e mais (espiritualmente) passivos.

As principais vítimas destas mudanças são as mulheres (a quem não é possível retirar o papel criador da maternidade e da educação); e também as crianças (que crescem quase sem comunidade com os seus dois pais e, pior ainda, com a sua mãe).

Tenho ouvido frequentemente repetir uma frase doutrinária que faz uma clara distinção: economia de mercado, sim; sociedade de mercado, não. Muito bem.

Mas o problema não é o da distinção. O problema é o da concorrência entre estas duas esferas. Com efeito, hoje aumenta sensivelmente o número de empresas prestadoras de serviços substitutivos do trabalho tradicionalmente caseiro; tratamento de roupa, comida confeccionada, guarda de crianças e idosos, etc. Porque cada vez mais vendemos o nosso tempo no mercado profissional e temos menos tempo para dar na nossa vida familiar. O problema é, portanto, que uma boa parte da sociedade (que não se deseja de mercado) se está transferindo para a economia de mercado. E então, o que diz a este respeito a célebre frase doutrinária? 

[anterior]