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Público - 15 de Julho
Demagogia, Ignorância e Racismo
Por ANTÓNIO BARRETO
Há momentos assim, na vida de um político: de repente, de semblante
sério, pretende mostrar que se preocupa com as "realidades
eternas" e os "factos essenciais da vida". Chamam-lhe a
"grande política". Neste caso, foi Durão Barroso. Participou
em iniciativas de defesa dos interesses da família.
Prometeu, para quando "for governo", novas políticas:
subsídios, isenções, apoios, creches, medidas e incentivos. Nada de
particularmente excitante. É mesmo possível que algumas das medidas
prometidas sejam justas. Podia ter-se ficado pelas famílias, mas não
resistiu: com ar grave, denunciou a baixa natalidade dos portugueses e
garantiu que aplicará, no governo, políticas públicas que estimulem a
renovação das gerações! Afirmou um objectivo nacional: aumentar a
natalidade! Não disse evidentemente como. Ou antes, deu a entender que
com medidas de apoio e isenções lá se chegaria.
Julga Barroso (e outros) que assim impressiona a Igreja católica,
alvo, desde que se abriram brechas na sua aliança com o Partido
Socialista, de todas as atenções. O desígnio, em campanha eleitoral,
é previsível e não mereceria especial atenção. O problema é que a
Igreja parece hoje interessar-se muito mais pela imigração. O
território da reprodução e do sexo (do prazer sexual, da
contracepção, das uniões de facto, da homossexualidade, do aborto, da
sida, do casamento dos sacerdotes e o sacerdócio das mulheres) é-lhe
particularmente inoportuno e fonte de incómodos.
Não sei qual será o caso de Barroso, mas há duas espécies de
políticos que se interessam pela natalidade: os demagogos e os
ignorantes. Preocupam-me mais os segundos. Há, com efeito, quem pense
sinceramente poder aumentar a natalidade com políticas públicas.
Estão absolutamente enganados, mas nada os
demove. Quando se lhes pergunta com que meios pretendem levar a cabo a
cruzada da natalidade, gaguejam e respondem invariavelmente: abonos de
família, creches, subsídios, licenças de parto para as mães e os
pais, assistência médica, bolsas de estudo e o que mais houver e se
possa pagar.
Nem a experiência, nem a história, confirmam a justeza de tais
políticas. Além de que esta atitude revela uma espécie de real
desprezo pelas pessoas. Alguém julga que uma mulher ou um casal façam
filhos por 10 contos por mês? E que uma licença de parto de cinco
meses para as mães e de uma semana obrigatória para os pais fará com
que a natalidade aumente? E que uma creche aumenta a natalidade e
melhora vida de família? É ridícula a ideia de que o dinheiro e umas
"facilidades" serão um incentivo decisivo para os portugueses
fazerem filhos. Convinha que estes senhores estudassem um pouco mais as
causas das mudanças dos comportamentos demográficos e percebessem a
complexidade do tópico, insusceptível de ser atacado com promessas
eleitorais e aumentos de abonos. A não ser, evidentemente, que houvesse
muito dinheiro, mesmo muito, e total falta de responsabilidade na
aplicação de políticas que falharam noutros sítios. Com efeito, em
certos países ricos, como na Inglaterra, uma mulher solteira que dê à
luz tem rendimento mensal garantido, casa gratuita, passe de transportes
públicos, medicamento e alimentação infantil, ajuda nas tarefas
domésticas e na limpeza da casa, assistente social e apoio
psicológico... O resultado foi fulgurante: a natalidade bruta não
aumentou, mas o número de mães solteiras disparou. Especialmente o de
mães menores. Por outro lado, a relação entre altas natalidades e
famílias "convencionais", implícita nas palavras de Barroso,
é simplesmente inexistente. Vários países europeus com natalidade
elevada exibem também taxas de "ilegitimidade" altíssimas,
duas a três vezes superiores à portuguesa: França, Reino Unido e
Dinamarca, por exemplo.
Além da demagogia e da ignorância, estou convencido de que nestas
políticas há uma boa dose de racismo. Que mal há na mestiçagem? Por
que não acreditar que a mistura de portugueses de gema com africanos,
brasileiros e eslavos é a melhor solução para garantir vitalidade
demográfica? Nem é necessário uma política pública para os chamar:
já cá estão!
Estão, mas são maltratados. Por isso, por eles e por nós, era bem
melhor que os dirigentes políticos se interessassem pela imigração,
abrissem os olhos e definissem políticas sérias. Cuidassem do
acolhimento dos estrangeiros e não os tratassem como gado. Fixassem
quotas para combater o mercado negro e os "rackets".
Legalizassem os clandestinos. Tratassem das escolas para filhos de
imigrantes. E fiscalizassem as obras, a começar pelas do Estado.
Em 1992, ao encerrar o congresso do Partido Socialista, um triunfante
António Guterres inicia a caminhada que o levará, três anos depois, a
Primeiro Ministro. O discurso de coroação é igual a tantos outros:
tolerância, unidade e confiança. O trivial. Excepto... uma
declaração "de fundo", inédita para o universo socialista e
rara na política local. Apesar de aconselhado a evitar a demagogia,
Guterres anuncia que a baixa natalidade dos portugueses é a sua
principal preocupação e que os socialistas se iriam interessar pelo
tema. Assim, julgava ele, piscava o olho à Igreja e dava-se ares de
homem de Estado, atento aos problemas de civilização. Os dez anos
seguintes, incluindo, sobretudo, os seis de governo socialista,
trouxeram resultados à medida de tal desígnio: a maior imigração da
história do país. Não só brasileiros e africanos, como, novidade
absoluta, muitas dezenas de milhares de europeus de leste. Como era de
prever, a natalidade manteve-se essencialmente a mesma. E se uma ligeira
recuperação se verificou, o que falta demonstrar, foi em boa parte
graças aos ímpetos demográficos dos imigrantes.
É possível que, dentro de dez ou mais anos, a natalidade portuguesa
deixe de declinar ou estagnar e cresça de modo a aproximar-se das taxas
europeias do Norte, bem mais altas. É não só possível, como, graças
à imigração, provável. Para isso, todavia, as "políticas
natalistas" da Guterres e Barroso não terão dado qualquer
contributo. A fórmula bíblica deixou de fazer sentido e foi
substituída por um dilema: "cresçam ou multipliquem-se". E
os portugueses querem crescer.
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