Público - 11 de Julho
Encruzilhadas do Ensino
O ensino secundário deve privilegiar a vertente formativa genérica
ou visar mais os aspectos da instrução concreta de disciplinas e
conteúdos técnicos específicos?
Devemos criar disciplinas do tipo educação para a cidadania,
ed. ambiental, ed. para a saúde, ed. sexual, ed. para a prevenção
contra a droga, ed. para a prevenção rodoviária, ed. para os
media..., com conteúdos que nunca serão consensuais ou reservar para a
escola uma função mais supletiva ou complementar nesses domínios,
respeitando os princípios educacionais transmitidos pelas famílias, e
admitindo mesmo o carácter facultativo desses conteúdos?
É legítimo que perguntemos: O que se quer do ensino secundário? O
que se pretende dos professores? O que é que convém aos alunos? E à
sociedade? E ao País?
Uma curiosidade do nosso ensino secundário reside na obrigatoriedade
de, no acto de matrícula, os alunos optarem entre uma disciplina de
religião e moral católicas e outra cuja sigla é DPS (desenvolvimento
pessoal e social).
Mas ninguém sabe o que seja. Não há programa. Não há professores
que a leccionem. Não existe na realidade. E é por isso que a maioria
dos alunos escolhem DPS... Elucidativo, não?
Por outro lado, e atendendo à rentabilidade do nosso ensino, é
incompreensível que os alunos reclamem na rua (mais) uma disciplina de
educação sexual quando, por vezes, o seu horário diário atinge nove
(!) horas de aulas com um intervalo de 60-70 min. para o almoço!
No que respeita aos professores, interessa que se diga que não é
possível recauchutá-los a bel-prazer, com uma suposta formação que
os tornaria aptos a leccionar qualquer coisa. Em vez de estimulá-los e
apoiá-los a investir no aperfeiçoamento contínuo da sua formação de
base, conduzem-nos antes para becos de incompetência de que resulta
frustração e prejuízo para todos, com consequências terríveis para
o futuro. Por mim, humilde professor de ciências naturais/biologia, em
qualquer das educações agora em moda sou apenas cidadão comum. Ora,
não foi pelas minhas características de vulgar cidadão que fui
admitido no ensino... (...)
De resto, o olimpo ministerial é habitado por deuses tão etéreos
que não percepcionam a realidade terrena. Pois não são eles que,
propondo nova revisão curricular, afirmam que a "área-escola"
- o mais rotundo fracasso do ensino secundário da última década - tem
potencialidades a desenvolver? Vai daí arranjam uma "área-projecto"
obrigatória (!) um pouco assente naquele pressuposto. E não lembra a
tão doutas personagens que, no ensino, é precisamente a
obrigatoriedade de coisas vagas e aleatórias que conduz ao falhanço.
Dir-me-ão: mas na "área-escola" até houve uma ou outra
iniciativa com interesse. Pois houve, e aí é que está a questão: se
tivessem existido preferencialmente casos bons, eles tornavam-se motivo
de interesse e mais gente os repetia. (...) Gostaria de me enganar, mas
a "área-projecto" bem pode tornar-se mais um caso de sucesso
fictício a registar em estilo grandiloquente nas actas das reuniões de
professores durante os próximos dez anos...
Volto à minha experiência pessoal. Quando ensino ciências
naturais/biologia, conforme os assuntos, sinto-me a ensinar normas de
higiene, saúde alimentar, prevenção do cancro, prevenção da sida,
respeito pelo ambiente, etc.
Pergunto, de quantas educações precisa um ser humano para se
formar? E fico estupefacto quando me obrigam a participar em longas
reuniões para, entre outras coisas, decidir se nas escolas devem ou
não existir maquinetas de preservativos. Que em África, por exemplo,
se distribuam preservativos e se ensine como se usam, aplaudo. Mas, devo
desperdiçar tempo e ofender a inteligência de um aluno (do ensino
secundário) para lhe ensinar o que ele sabe, porventura melhor do que
eu? Preferia que a escola preparasse os alunos, de modo a que chegassem
ao ensino secundário a ler (obrigatoriamente) bem. Então, ser-lhes-ia
fácil obter os preservativos na máquina da farmácia mais próxima,
podendo entender e seguir adequadamente as instruções do rótulo.
Senhor (novo) Ministro da Educação, vamos ao que interessa?
José Batista da Ascenção
Professor (do Ensino Secundário) e Encarregado de Educação
Braga.