|
Expresso - 21 de Julho
Marilyn à portuguesa
Inácio Rosa/Lusa
APRENDEU dança clássica.
Mais tarde, fez parte de um grupo musical com algumas pretensões: a Banda do Casaco.
Depois tornou-se menos exigente.
Incentivada, talvez, pelos empresários, enveredou por caminhos mais populares seguindo o princípio de que é preciso aproveitar as festas das vilas e aldeias e isso não se compadece com pruridos de qualidade. Casou.
Alcançou a fama com «Trocas e Baldrocas», cantada num Festival da Canção.
Aceitou fazer umas poses mais ousadas para as revistas do coração e, na sequência desse culto do corpo (e talvez inspirada em Jane Fonda), abriu um ginásio na linha de Sintra.
Fez várias operações plásticas.
Separou-se do marido e foi viver para um rés-do-chão em Massamá.
Aí se suicidou.
Há pessoas que têm a má sorte de tomar invariavelmente ao longo da vida as decisões erradas.
Cândida Branca Flor sonhou ser popular e cedeu demais na qualidade.
Casou com o seu agente artístico (ou fez do marido seu agente artístico, o que significa o mesmo) e, com isso, ficou na contingência de perder ao mesmo tempo o marido e o agente.
Não construiu uma família: condescendeu em não ter filhos.
Como era filha única, também não tinha irmãos.
Quando morreu, não tinha ninguém: nem pais, nem irmãos, nem filhos, nem sobrinhos só uma mãe adoptiva.
E, quando o declínio físico se tornou mais visível, ficou também sem agentes, sem amigos, sem contratos e sem dinheiro.
Encontraram-na como Marilyn morta em casa, ao lado de um frasco de comprimidos.
A solidão de Cândida Branca Flor não foi, entretanto, um problema só dela: é um problema desta sociedade.
O «Big Brother» ou a ilusão da Gata Borralheira
Sentem-no hoje homens e mulheres, novos e velhos, ricos e pobres.
Só que, para os que seguiram a «vida artística» os que andaram de terra em terra a fazer espectáculos, que viram o rosto impresso em cartazes, que escutaram os aplausos do público, que experimentaram as luzes da ribalta, que foram adorados e endeusados , a solidão custa mais.
Chegaram a ter tudo e perderam tudo.
Acreditaram na fidelidade do público e o público esqueceu-os.
Confiaram na sinceridade dos empresários e os empresários abandonaram-nos.
Pensaram ter garantido para sempre a fama, o dinheiro e os luxos e tudo isso desapareceu ao mesmo tempo.
Do passado não ficou nada.
Será isto mesmo, numa escala diferente mas igualmente dolorosa, que acontecerá amanhã às estrelinhas do «Big Brother» ironicamente chamadas «Big Estrelas».
Atingiram o estrelato de um dia para o outro e serão esquecidas de um dia para o outro.
Quem, daqui a cinco anos, se lembrará do Zé Maria, do Marco e da Marta, da Susana e do Mário, da Carla e da Sónia?
Saíram das suas terras, mudaram brutalmente de vida e agora dificilmente aceitarão o regresso à obscuridade.
Há quem pense que, apesar de tudo, valeu a pena.
Tiveram os seus quinze minutos de fama.
Por uma noite, as Gatas Borralheiras foram Cinderelas.
Eu julgo o contrário: era preferível nunca terem saído de Barrancos, de Portalegre ou de Peniche.
Cândida Branca Flor, no momento decisivo, terá sentido que a vida a usou impiedosamente: levou-a a acreditar numa ilusão e depois deixou-a cair.
Os concorrentes do «Big Brother» um dia pensarão o mesmo.
E-mail: jsaraiva@mail.expresso.pt
[anterior] |