Diário de Notícias - 20 de Julho

Escolas e docentes vendem livros aos alunos

Denunciada por livreiros, situação é aceite pelos pais porque permite reforço de orçamento de estabelecimentos carenciados

Há escolas e professores primários a vender os manuais aos alunos. Um acordo com as editoras permite que eles comprem o material com o desconto de revenda que normalmente é dado aos livreiros (cerca de 20 a 30%), vendendo-o depois ao preço de capa. Esta situação, que permite um encaixe financeiro por parte das escolas, é denunciada pelos livreiros e reconhecida pelas associações de pais.

Emídio Ramos, livreiro de Setúbal, contesta esta concorrência desleal, que acontece principalmente fora das grandes cidades, aos profissionais do seu sector. "Estamos muito preocupados", afirma. Esta situação é um dos factores de agravamento do sector, que conta quase só com dois períodos do ano para vender: época escolar e natal.

Em declarações ao DN, Vítor Sarmento, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), afirma ser "mais tolerante em relação ao primeiro ciclo" e que com esta prática "ganha a escola, porque infelizmente estes estabelecimentos de ensino continuam marginalizados e com sérias dificuldades financeiras". Este "acordo", diz ainda o dirigente, permite às escolas um reforço do seu orçamento. "Os casos que eu conheço acontecem por esta razão", considera, defendendo, contudo, que esta não é a melhor solução para financiar a actividade das escolas.

Abel Macedo, do Sindicato de Professores do Norte, afirma conhecer também algumas situações, mas apenas com o intuito de "facilitar a aquisição de manuais por parte dos pais". O dirigente afirma ainda que "custa a acreditar que os professores possam tirar partido dessa situação", no entanto, "não seria surpreendente que fosse uma forma de as escolas conseguirem alguma melhoria orçamental, dadas as dificuldades que enfrentam".

Emídio Ramos aponta ainda que existem demasiados títulos no mercado, cujo número exacto é, aliás, uma incógnita. "Só na primária deverão existir cerca de 400", afirma. Uma situação que coloca óbvios problemas de stock e "se ficar um ou dois livros encalhados, lá se vai o lucro", insiste. Por outro  lado, esta enorme diversidade de títulos e edições nem sempre corresponde a uma efectiva variedade de materiais, uma situação que os investigadores da Universidade do Minho tinham já alertado. "Uma grande parte das vezes, trocam as páginas ou as capas e o livro fica praticamente igual", declara Emídio Ramos.

Uma situação que tem também implicações para os alunos repetentes. "Muitos acabam por ter de comprar os livros todos novos", com evidente prejuízo financeiro para os pais. Por outro lado, este livreiro denuncia aumentos de preços de 30 por cento. Um alerta que é corroborado pela carta que uma professora de uma escola básica de Coimbra escreveu à Direcção Geral da Concorrência e Comércio (DGCC), dizendo ser "imoral e ilegal subir desta forma os preços".

Uma situação que, afirma a professora, lesa o próprio Estado, na medida em existe que há comparticipação a cem por cento para alunos carenciados. Esta denúncia, que envolve três editoras, está a ser averiguada pela DGCC que avaliará depois se existe ou não indícios para abrir um processo de instrução.

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