Diário de Notícias - 20 de Julho
Ministério lava as mãos
Pais e professores exigem responsabilização da tutela e a
criação de organismo de certificação de qualidade
Elsa Costa e Silva
OPÇÃO. Negócio dos manuais escolares está totalmente entregue à
iniciativa privada, o que gera "assédio" dos professores
Não existe controlo sobre os manuais que chegam ao mercado
português. As editoras são livres de publicar os livros que entenderem
e o Ministério da Educação (ME) não tem qualquer tipo de
intervenção nessa matéria. A única actuação existe apenas no caso
de ser detectado posteriormente algum erro científico.
Esta quase demissão do Estado relativamente a um elemento central
nas salas de aulas portuguesas é uma situação que não agrada nem a
pais nem a professores, que exigem do ME a constituição de um
organismo que promova a certificação de qualidade dos manuais, antes
da sua chegada ao mercado e aos professores.
A liberdade de escolha aos professores deve, para a Federação
Nacional da Educação, ser mantida, mas o leque de livros admitidos
restringido. Manuela Teixeira, secretária-geral da instituição,
defende a "criação de uma equipa científica para avaliar e dar o
rótulo de qualidade". Uma medida "muito complicada",
reconhece a dirigente, mas "é essencial avançar nessa
matéria".
Também Abel Macedo, da Fenprof, aponta "o demissionismo do ME
no que toca à regulação desta matéria", alertando para a
necessidade de "uma aferição de qualidade".
Uma posição de responsabilização do ME à qual se associa a
Confederação das Associações de Pais (CONFAP). Vítor Sarmento,
presidente do organismo, afirma que no mundo dos manuais escolares
"existem razões para estarmos preocupados", o que o leva a
exigir "um processo de certificação de qualidade". Uma
medida que "compete ao Ministério da Educação tomar" e que
a CONFAP já apresentou ao anterior Executivo, no final do mês passado.
Sendo verdade que existe "algum assédio das editoras aos
professores, seria uma forma de dar mais segurança ao professor no
momento da adopção do manual".
Pedro Prata, membro da Comissão do Livro Escolar da Associação
Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), recorda que o facto de este
ser um negócio entregue à iniciativa privada faz com se submeta às
leis de mercado e por isso sujeito à concorrência, por vezes,
"feroz". No entanto, recusa que todas as editoras adoptem
mecanismos de promoção dos seus produtos como as descritas por
investigadores da Universidade do Minho ao DN e que incluem
"almoços, jantares ou chocolates". Também sócio-gerente da
Didáctica Editora, Pedro Prata afirma que a sua empresa "não
utiliza qualquer destes métodos para apresentação dos livros" e
que "cada editora terá de responder pelas suas estratégias".
No entanto, para este editor, os manuais escolares "constituem um
negócio de alto risco". Não há qualquer certeza de que o
investimento realizado no desenvolvimento deste produto venha a ter
retorno, através da sua adopção pelas escolas e professores.
O momento da escolha dos manuais é outro ponto problemático.
Considerando período delimitado para a opção e a
"inundação" de livros que devem avaliar, muitos professores
têm-se queixado da falta de tempo, exigindo o alargamento do prazo. Uma
exigência a que o ministério tem acedido, até porque a avaliação do
mercado está totalmente nas mãos dos docentes. Que, lembra Pedro
Prata, são também responsáveis pela utilização do manual na sala de
aulas.
Isabel Antunes, directora do Departamento de Educação Básica,
reconhece que "não há mecanismos de controlo a priori", mas
recorda que os professores "são profissionais". Reconhecendo
a existência de uma "grande tendência dos manuais para terem
muita informação, o que os torna muito pesados", Isabel Antunes
defende que a revisão curricular poderá ser o momento para os
repensar, dada a nova autonomia das escolas. A disciplina do
"estudo acompanhado" poderá ser uma oportunidade, diz ainda,
para "distinguir nos manuais o essencial do acessório", nem
sempre fácil.
Números incertos no sector do manual
O Ministério da Educação está agora a elaborar uma base de dados,
através