Diário de Notícias - 2 de Julho

Tempo de mentira

João César das Neves

Porque é que o nosso tempo não é feliz? Os progressos político-sociais e científico-tecnológicos criaram condições excelentes, que nenhuma outra época teve.

Existem hoje meios suficientes para acabar com a fome e a pobreza no mundo e montámos mecanismos sofisticados para promover a justiça, a saúde, a cultura. Mas a velha miséria continua e os que estão na abundância vivem novas formas de infelicidade. As pessoas são mais ricas que nunca, mas não se sentem mais felizes. Somos hoje a prova viva da velha frase "o dinheiro não dá felicidade". Porquê?

A razão da nossa infelicidade no meio da prosperidade vem, fundamentalmente, de um subtil desequilíbrio. O ser humano é muito mais simples do que se pensa. No meio da variedade de personalidades, existe uma permanência comum: o objectivo de todas as acções humanas, o propósito de tudo o que fazemos, é sempre a felicidade.

E a felicidade, que parece ser um tema tão excelso e difícil, é fundamentalmente o resultado de dois elementos básicos, a liberdade e a verdade. Os progressos dos últimos séculos foram, naturalmente, todos aplicados na busca da felicidade. Mas apenas através do primeiro dos seus elementos, a liberdade.

Vivemos o tempo da liberdade. O desenvolvimento social afirmou a luta contra a escravatura, a injustiça e a tirania e conseguiu vitórias marcantes contra velhas prisões da humanidade, as doenças, sujidade, isolamento, analfabetismo, etc. Muito falta ainda fazer, mas é extraordinário o que se conseguiu. Só que o esforço de libertação perdeu de vista a outra condição da felicidade, a verdade.

O nosso tempo de liberdade é também o tempo da ilusão, da fama, da mentira. Nunca como hoje o ser humano viveu tão mergulhado na falsidade patente e óbvia. À nossa volta, todo o dia, multiplicam-se as mentiras descaradas, assumidas, institucionais. São de tal forma correntes que nos habituámos a elas e damo-lhes o desconto. Vivemos adaptados ao embuste.

As maiores mentiras registam-se nos campos onde mais cresceu a liberdade. O sistema político alimenta-se, mais que nunca, de manipulação, demagogia, hipocrisia e utopia. Todos os envolvidos, sobretudo os eleitores, têm a sensação de participar numa vasta encenação, em que a imagem da vida pública pouco tem a ver com a realidade dos propósitos, obstáculos e equilíbrios de forças. Não admira o infame desprestígio das autoridades, que já roça o paroxismo alarmante.

Na vida corrente, a falsidade tem um lugar central. A publicidade não esconde o seu propósito de criar expectativas, controlar emoções, suscitar desejos. Tudo isto são eufemismos para aquilo a que todos chamamos "enganar". As notícias, alegadamente imparciais, são realmente interpretações pessoais que, mesmo quando não tentam aldrabar, distorcem pela aparência de rigor.

Os nossos lazeres passam-se no mundo da fantasia. Filmes, novelas, revistas, livros, jogos de computador criam um ambiente de ficção em que mergulhamos grande parte da nossa vida. Agora suportamos o irrealismo dos reality shows. 

Saboreamos voluntariamente os mitos do sucesso fácil, do mal menor, da cultura sem tabus, do emagrecimento sem custo, do parto sem dor, do almoço grátis, da vida cientificamente ordenada. Até o negro pessimismo, em que tantos caem pela desilusão, é falso. A droga não passa de um superlativo da alienação da vida comum. A maior perversão é acreditarmos piamente na inevitabilidade da vida hedonista, consumista, superficial.

Pior, a falsidade atingiu o elemento mais sagrado da natureza humana, a amizade. Tudo contribui para que as relações pessoais sejam postiças, volúveis, falsas. A aberração dos vizinhos ignorados, o fascínio dos encontros ocasionais, a fragilidade dos amigos de discoteca, a infidelidade da parceria de interesse, a mentira da cumplicidade de partido e, sobretudo, a falsidade das juras de amor.

Das juras de amor egoístas e efémeras, mas também das juras de amor sinceras. Das juras sinceras que são falsas porque nascem de um amor que é condicional ao prazer, de uma felicidade que não está aberta ao sofrimento. 

Mas o mais definitivo domínio da mentira na nossa vida é a perda do Absoluto. A maioria das pessoas hoje pensa que não existe uma verdade, apenas opiniões. Há muitas verdades, variáveis, contingentes, discutíveis. 

Por isso, não há verdade nenhuma. Não existe um verdadeiro absoluto,

permanente, com o qual se possa confrontar o meu ser relativo e mutável. O pior do nosso tempo de mentira é a suprema mentira da ausência da verdade. 

Vivemos mergulhados num mundo de engano. Pior, sentimo-lo como natural. Num tempo que tem muito mais que alguma vez pensou ter, e que se dedica intensamente a lutar pela liberdade, vive-se a mais triste desorientação. 

É a falta da verdade que destrói a liberdade e a felicidade. No meio da prosperidade, esquecemos o que disse o Homem mais feliz de sempre: "a verdade vos libertará" (Jo 8, 32).

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