Diário de Notícias - 16 de Julho
Lixo tóxico
João César das Neves
Ao contrário da quase totalidade dos comentadores, nunca escrevi
sobre os reality shows, os novos programas degradantes da televisão.
Já várias pessoas me pediram para falar sobre o tema, mas não o fiz
por uma razão simples: nunca vi esses programas. Tenho pois dificuldade
em escrever sobre algo que não conheço. O motivo da minha ignorância
é também simples: nós lá em casa tratamo-los como eles são, lixo
tóxico. E, no que se respeita ao lixo tóxico, o que há a fazer, como
todos sabem, não é contemplá-lo, elaborar ou especular sobre ele. É
apenas removê-lo e incinerá-lo.
Esta posição parece-me evidente. Claro que posso ser acusado de
julgar algo sem o conhecer. Mas é assim que toda a gente faz com o lixo
tóxico. Não me consta que alguém vá cheirar, lamber ou apalpar os
detritos para os julgar.
A informação anexa a esses produtos é suficiente para o juízo. É
precisamente isso que se passa nestes programas. Os "rótulos"
que os acompanham são mais do que esclarecedores; não é preciso
"abrir a embalagem" para saber do que se trata.
Posso também ser acusado de violar o princípio, hoje omnipresente,
de que "se deve experimentar de tudo". Mas essa ideia não
passa de um enorme embuste. Ela só é usada para justificar o gozo de
prazeres maus, normalmente por adolescentes. Nunca vi ninguém dizer que
"se deve experimentar de tudo" como motivo para ser estudioso,
trabalhador, honesto ou paciente. A degradação é sempre degradação
e não merece curiosidade. Por todas estas razões, continuaremos lá em
casa a considerar esses programas como lixo tóxico, seguindo as regras
básicas da higiene.
O que é difícil de entender é a actuação política e legal
perante a questão.
As autoridades, normalmente tão solícitas em tratar problemas
ambientais, mostram uma enorme inacção neste outro tipo de poluição
social, indiscutivelmente mais vasto e certamente muito mais grave.
Contamos com serviços públicos para a remoção e tratamento de todos
os tipos de lixos, mas já estamos há demasiado tempo à espera de uma
actuação conveniente neste outro campo. Foi, por exemplo,
particularmente revoltante ouvir recentemente alguém, que foi um dos
ministros da Educação mais intervencionistas e centralizadores da
nossa História invocar as virtudes da "auto-regulação",
agora que tem a pasta da Comunicação Social, para justificar a sua
apatia sobre este assunto.
Isto, aliás, revela mais uma vez a tendência crescente no nosso
tempo para controlar e limitar furiosamente actividades legítimas e
meritórias, como a educação, o emprego, a produção e o
investimento, enquanto se liberaliza e facilita actos nocivos e
criminosos, como o aborto, a droga, a eutanásia e a pornografia. Isto
não é socialismo, nem liberalismo; é apenas incongruência, uma
infâmia de que o futuro nos vai acusar amargamente.
Esta inacção dos responsáveis manifesta um outro facto. Os
governos estão sempre fortemente prevenidos e preparados para lutar
contra os males do passado, mas ficam indefesos perante os novos
desafios. A nossa política de televisão está toda orientada para
combater a censura, problema que tivemos nos anos 60. Só fica
atarantada e incapaz face aos fenómenos actuais.
Uma outra questão tem ocupado muito o debate: por que razão existem
tantas pessoas disponíveis (e ansiosas) para se degradarem em público?
Foram elaboradas as teorias mais complexas e variadas, mas em geral
falharam o alvo. Não se trata do fim do mundo nem de uma perversão
nova e inesperada, mas também não são atitudes normais e aceitáveis.
Afinal, esses comportamentos entendem-se perfeitamente desde que se
aplique um dos
princípios mais básicos e
evidentes da psicologia humana, o pecado original.
Todas as épocas sempre conheceram os efeitos desta terrível
atracção do abismo na nossa natureza. Só no tempo do humanismo
materialista e ingénuo é que alguém se pode surpreender com isso. É
por causa do pecado original que as leis sempre, em todas as culturas,
colocaram limites à liberdade individual, para além da liberdade dos
outros, defendendo cada um de si próprio. Até hoje, quando se apregoa
teoricamente a liberdade absoluta, se proíbe o suicídio e a
escravatura voluntária. Mas o fascínio do humanismo materialista com a
liberdade absoluta leva a que agora, em Portugal, uma pessoa esteja
impossibilitada de aceitar a indignidade de uma remuneração abaixo do
salário mínimo, mas seja livre de se vender à degradação na
televisão à vista de todos. Isto não é liberalismo, nem socialismo;
é só mesmo estupidez.
Este lixo tóxico tem uma grande vantagem sobre o tradicional: é
muito fácil de controlar. Felizmente que todas as televisões incluem
ainda sempre um botão para desligar. Isto torna muito simples a
remoção do lixo. Não se consegue eliminar todo, porque algum sempre
escorre pelas conversas dos amigos. Por isso, quanto menos se falar dele
melhor. É esta a razão porque não escrevo sobre os reality shows.