15 milhões de contos
anuais
Os manuais escolares limitam a actividade do professor, a sua
diversidade/variedade é aparente e são um produto económico poderoso
das editoras portuguesas. Estas são algumas das conclusões do projecto
eme, que, desde 1996, estuda o papel, estatuto e relação com o mundo
do manual escolar.
Este é o retrato quase devastador do elemento central das escolas
portuguesas que surge do trabalho de 12 investigadores, coordenado por
Rui Vieira Castro, do Instituto de Educação e Psicologia da
Universidade do Minho.
Os processos de adopção dos manuais pelas escolas não são
lineares e envolvem uma série de "dispositivos paralelos",
com vista a pressionar os professores. Os investigadores registaram uma
"política comercial extremamente agressiva, que passa mesmo pela
existência de uma espécie de representantes das editoras nas escolas,
que podem fazer parte do seu corpo docente". Os manuais são ainda
acompanhados por uma série de complementos, como acetatos, CD-ROM,
cadernos de actividades e outros materiais, na tentativa de agradar aos
docentes. Por outro lado, "há as chamadas contrapartidas:
encontros que se fazem sob a capa de acções de formação de
professores que não passam da apresentação do livro" e também
"a oferta de almoços, jantares e chocolates".
Acções que vêm no seguimento de uma concorrência feroz, num
mercado de cerca de 15 milhões de contos anuais, o que é "preocupante,
na medida em que os profissionais não têm meios para afrontar de forma
crítica essa agressividade".
A escolha acaba por "não ser suficientemente informada, porque
os docentes não têm tempo e são bombardeados com inúmeros livros
diferentes". Uma situação em que a autoridade do País não está
isenta de culpas, dado que "há alguma desregulação e mesmo
demissão do próprio Estado".
Por outro lado, o sistema implementado acaba por ter professores a
usar um manual que não escolheram e que, por vezes, não gostam. Os
livros são adoptados no final do ano lectivo pelo corpo docente
presente, que não é o mesmo que, no ano lectivo seguinte, vai utilizar
a lista seleccionada. "Por isso, há livros que não são usados e
temos alunos bombardeados com fotocópias", diz Rui Vieira Castro.
O que não agrada aos pais, que gastam uma verba significativa do
orçamento familiar para a aquisição de livros.
Esta prática levou à indicação nas escolas para que os livros
sejam utilizados ao máximo nas aulas. E, se é certo que "o manual
tem que existir e que não podemos esperar que surja o exemplar
perfeito", não é menos verdade que os professores têm uma
palavra a dizer. O problema é que "não há uso crítico deste
produto", afirma Rui Vieira de Castro. Usar o manual sim, "mas
olhando criteriosamente, seleccionando, retirando ou acrescentando o que
for necessário".
No entanto, os investigadores reconhecem que "as condições da
escola não favorecem o uso crítico, pela própria natureza do
manual". A este material pedagógico não faltam defeitos: "É
de natureza repressiva, quase totalitária, pretendendo ter tudo."
Por isso, passamos de livros quase só antologias de texto a produtos
com estratos de literatura, questões, sugestões de actividades,
resumos, etc. "Restringem os espaços de autonomia dos
profissionais", limitando a sua acção.
"O manual acaba por querer substituir-se a todas as outras
actividades", refere Vieira Castro. Uma situação quase caricata
é o facto de os livros incluírem, para os anos em que o programa assim
o determina, a exploração de notícias de jornais. Na ânsia de tudo
facilitar ao professor e para que ele não tenha o trabalho de adquirir
uma publicação do dia, colocam notícias nos manuais. O único
problema é que a maior parte é de há dez anos e não tem qualquer
ligação à realidade actual. Por isso, a solução apontada pelos
investigadores é que seja contrariada a tendência para encarar o
manual como "o mundo, a disciplina", incentivando e garantindo
que sejam usadas várias fontes de informação na escola.
Registo
MULTIPLICIDADE. Enquanto objecto cultural, o manual escolar
contribui para o reforço de uma atitude cultural etnocêntrica, não
garantindo a diversidade que povoa as escolas. Os investigadores
consideram que os textos literários deviam promover uma representação
multifacetada do mundo, mas esse objectivo surge debilitado. "O
corpus literário deveria garantir uma multiplicidade de visões,
contemplado textos de autores brasileiros, africanos e americanos",
como forma de contribuir para a integração das minorias étnicas.
CIÊNCIA (I). A importância dos manuais escolares vai além
dos objectivos de aprendizagem. São, para os investigadores,
instrumentos essenciais para configurar leitores ou mesmo o discurso
sobre a ciência. Mas a prática nesta matéria é igualmente digna de
reparos, na medida em que reproduz preconceitos sobre a ciência, quando
devia combatê-los, e contribui para a criação de leitores
dependentes.
CIÊNCIA (II). As limitações no que toca à criação de uma
cultura científica são variadas. Para a investigadora Laurinda Leite,
"o conhecimento que o manual apresenta nem é, nalguns casos,
aceite pelos cientistas". A imagem que transparece é a de uma
ciência "muito indutivista e quase ingénua". As descobertas
científicas são apresentadas quase como um acaso. "A própria
história da ciência tem um estatuto de curiosidade e é usada para
cumprir programa."
DEPENDÊNCIA. Segundo a investigadora Lourdes Dionísio, os
manuais escolares criam "um leitor muito dependente das questões,
das explicações de terceiros, ou seja, exilado do sentido". A
dependência das perguntas é visível nos elevados níveis de
iliteracia dos portugueses: os questionários apresentados aos
inquiridos para avaliação desse índice não são da mesma natureza
que os que foram resolvidos na escola. Daí a incapacidade em
resolvê-los.
"VERDADE". O conteúdo dos manuais escolares é a
apresentado como sendo a "Verdade". "Não é
problematizado e a contradição está ausente", explica Laurinda
Leite, quando o conhecimento científico é construído à base de
muitas tentativas falhadas, dúvidas e indecisões. Que não surgem nos
livros de escola.
LEITURA. Um estudo de caso de 18 manuais do 7.º ano de
Português, realizado por Lourdes Dionísio, verificou que, apesar dos
novos objectivos propostos para a disciplina em termos de oralidade e
escrita, os manuais continuam a ser livros de leitura. "O seu
núcleo é isso." A diversidade também é aparente: "Os
textos são os mesmos, as perguntas - na quantidade, forma e no que
visam - semelhantes."