31 de Julho 2000 - Público

Curso de gestão doméstica ajuda na reinserção em Valongo

"Temos de Ir para o Baratinho..."

Por MÁRIO BARROS

Aprender a viver com qualidade, mas também criar laços de amizade com a comunidade. Foram estes os objectivos que levaram a Câmara de Valongo a criar um curso de gestão doméstica. Ao longo de seis semanas, 12 mulheres aprenderam a usar melhor o dinheiro, a cuidar da saúde, da segurança e dos filhos. Se pudessem, repetiam.

Esmeralda tem 31 anos, nove filhos e está desempregada. Enquanto amamenta o filho mais novo, os outros três que a acompanham fazem um grande esforço para falar baixo, mas a inquietude própria de quem tem idade para começar a ler e a escrever está à flor da pele. Apesar de preferir o silêncio, o seu rosto vale por mil palavras, que certamente serviriam para agradecer e elogiar as outras 11 mulheres com quem conviveu ao longo de seis semanas num curso de gestão doméstica, na freguesia de Campo, em Valongo. Ali aprendeu algo mais sobre como cuidar da higiene da família e da casa, alimentar bem e sem grandes custos os seus filhos ou gerir o dinheiro, mais escasso do que os dias do mês.

O convívio com outras mulheres acabou por ser um dos pontos mais importantes, já que todas elas fazem parte de famílias carenciadas, que a Câmara Municipal de Valongo tirou de barracas e de casas abarracadas e realojou há cerca de um ano em habitações sociais, ao abrigo do programa especial de realojamento. Mas, ao contrário do que muitas vezes acontece, o processo de reinserção não se ficou pelo simples entregar da chave da nova casa.

Os serviços de Acção Social da Câmara de Valongo tomaram então em mãos a tarefa de lhes ensinar algo mais. Começou assim o curso de gestão doméstica, em que foram abordados sete temas: cuidados de saúde, alimentação e nutrição, higiene pessoal, higiene habitacional, segurança, gestão económica e emprego.

"Era importante fazer alguma coisa por estas famílias e ao longo das seis semanas trouxemos pessoas especializadas em cada uma das áreas. Ficámos felizes ao verificar que das 12 mulheres que iniciaram o curso, nenhuma desistiu e agora todas querem que acções como esta continuem", disse Sónia Macedo, uma das assistentes sociais que tem acompanhado as várias famílias envolvidas no curso.

Passados dois meses, todas têm saudades dos dias em que ouviam da boca do director do centro de saúde local os alertas acerca do alcoolismo, da toxicodependência ou das doenças infecto-contagiosas; ou os conselhos dos bombeiros acerca das regras de segurança caseira, ou ainda das entrevistas simuladas para um emprego.

Manuela Andrade, por exemplo, recebeu benefícios imediatos dessa aprendizagem. "Quando estava no Centro de Emprego, fizemos um cartaz a oferecer-me para lavar escadas. Depois, fui a um prédio que estava em construção e um senhor disse-me que ia precisar de gente. São quatro andares a 15 contos por mês... não é mau".

No caso de Conceição, os lucros foram outros: "A camaradagem. Isso é que foi! Sair de casa, espairecer a cabeça... Gostei muito do bombeiro e daquela parte em que nos ensinaram a poupar. A vida é assim... temos de ir para o mais Baratinho". A nutricionista que leccionou o módulo alimentação e nutrição fez mesmo um pequeno livro com receitas saudáveis e de baixo custo.

Desempregada e com sete filhos, cinco dos quais com deficiências mentais, a vida de Conceição não tem sido fácil. Porém, a graça com que fala das dificuldades contagia as restantes companheiras de conversa. 

Por entre sorrisos envergonhados, Margarida, 39 anos de dificuldades bem vincadas na cara e mãe de dois filhos quebrou o gelo e confessou: "Eu bebia muito vinho e estive muito mal. Tive mesmo de ser internada no hospital. Já não bebo há dois anos, mas o Dr. Miguel [director do centro de saúde] ajudou-me a perceber que isso fazia mal e agora só bebo água e sumos". 

E como a idade não é obstáculo para que se aprendam coisas novas, Beatriz Moreira, de 43 anos, nem hesitou quando foi contactada pelos serviços de Acção Social. "Gostei de tudo e agora a gente até se sente respeitada. Se houvesse outro ia já, porque faz falta o convívio com as outras pessoas". 

Foi pelo convívio, mas sobretudo pela amizade que Margarida Rebelo, de 57 anos, não falhou um único dia. É que a sua amiga Esmeralda disse que só aceitava frequentar o curso se Margarida fosse. "Eu não era para vir, mas como ela só vinha comigo..." Mais ao lado, Esmeralda concordava com a cabeça e o seu sorriso dizia tudo. 

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