27 de Julho de 2000 - Público

Organizações de saúde norte-americanas relacionam mensagens e comportamentos
TV Violenta Afecta Crianças 

Por MARGARIDA PORTUGAL

Pela primeira vez desde que existe televisão, um grupo de organizações de saúde estabeleceu uma relação inequívoca entre a violência das mensagens transmitidas pelos media e o aumento da agressividade entre os menores. É uma certeza que surge após 30 anos de pesquisa e que acaba com as dúvidas sobre o impacte dos efeitos da televisão nos mais pequenos. 

Um senador norte-americano, Sam Brownback, disse ontem que a importância de estabelecer uma relação peremptória entre a televisão e a violência só é comparável ao momento em que se provou um paralelo entre o tabaco e o cancro. "Estamos perante um ponto de viragem. Já não há na comunidade profissional dúvidas nenhumas sobre isto. Pela primeira vez, quatro das mais prestigiadas associações médicas e psiquiátricas juntaram-se para afirmar categoricamente que a violência veiculada pela indústria do entretenimento tem um efeito directo nos nossos filhos". 

A emotividade do político norte-americano tem razão de ser. Até hoje, as certezas sobre o grau de influência da televisão, dos vídeos, da música e dos filmes nos telespectadores não eram muitas e, sobretudo, não eram consistentes. Desta vez, a Associação Americana dos Médicos, dos Pediatras e dos Psicólogos, para além da Academia de Psiquiatria Infantil e Adolescente juntaram-se para afirmar a uma só voz as suas certezas quanto à existência de uma relação directa entre o aumento da violência entre os menores de idade e os conteúdos transmitidos pelo audiovisual, designadamente a televisão, o vídeo e a música. E fizeram-no de forma taxativa. 

A declaração conjunta das quatro associações, ontem divulgada no âmbito de um debate sobre a violência na indústria do entretenimento, dizia que "a conclusão da comunidade de saúde pública, baseadas em mais de 30 anos de pesquisa, é de que consumir conteúdos violentos aumenta a agressividade nas atitudes, valores e comportamentos, particularmente nas crianças". Segundo o depoimento, os "efeitos são mensuráveis e duradouros" e têm ainda uma consequência suplementar: "o consumo prolongado de imagens violentas pode gerar distanciamento emocional em relação à violência no mundo real". 

"As crianças que estão expostas a muita violência nos media têm tendência a ver a violência como um meio efectivo de resolver conflitos e a achar que gestos violentos configuram um comportamento aceitável", continuam as associações na sua declaração conjunta. Para além do "alheamento emocional em relação à violência real", as crianças que consomem muita violência na televisão, por exemplo, "têm menos probabilidade de agir a favor da vítima de um acto violento", defende o comunicado. Finalmente, as associações norte-americanas concluem que "o visionamento da violência pode induzir em comportamentos violentos na vida real". Crianças precocemente expostas a programação violenta têm uma "tendência maior a assumir comportamentos agressivos mais tarde, do que crianças que não sofreram essa exposição", especificam. 

A forma definitiva como as associações traduziram as suas constatações levou os organismos representativos da indústria do entretenimento a reagir com cautela. "Não nos podemos pronunciar sobre algo que ainda não vimos", disse o porta-voz da Associação Nacional de Operadores de televisão. 

Menos hesitante, o senador Brownback espera que "os pais olhem para estas conclusões e percebam que têm que vigiar melhor os conteúdos que os filhos visionam, da mesma forma que vigiam a sua alimentação ou outros aspectos da sua saúde". O director de um organismo de monitorização da violência nos media, o "The Lion and Lamb Project", saudou a declaração conjunta das associações médicas dizendo: "Neste preciso momento a mensagem que se está a enviar para as crianças é de que a violência não tem problema, que faz parte da vida e que até pode ser divertida", disse. E frisou: "Estamos mesmo a usar a violência para fazer humor". Quanto ao envolvimento dos pais, não tem dúvidas: "Nós pensamos que os pais têm de controlar melhor o uso do controlo remoto".

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