21 de Julho de 2000 - Público

Fechados na Rua

Por JOSÉ MANUEL FERNANDES

Ouvi pela primeira vez a expressão da boca de uma amiga, educadora de infância num bairro dos subúrbios. Não percebi logo o sentido: "fechados na rua"? Sim, fechados na rua: são os míudos, muitos deles crianças, que não têm para onde ir quando acabam as aulas e os pais ainda não regressaram do trabalho. As casas estão fechadas e eles não podem entrar. Estão, como os próprios dizem, "fechados na rua".

Os acontecimentos recentes, a erupção da violência grupal, a multiplicação do noticiário sobre os "gangs" de jovens que pululam nas periferias, recordaram-me a expressão. Talvez porque ela explique mais do que discursos sobre falta de policiamento ou exclusão social.

O que se está a passar à nossa volta é muito mais complicado do que os slogans.

Ontem a linha de Cascais estava cheia de polícias. Ia lá o ministro e havia que sossegar o povo. Mas será que alguém pensa realmente que enchendo os comboios de polícias se resolve algum problema? Sossega-se o povo, que se sentirá reconfortado. Mas pouco mais.

Nenhuma sociedade saudável pode assentar numa vida em que cada cidadão é vigiado por um polícia. Quando chegamos a estes extremos, quando reclamamos esse tipo de medidas, é porque algo está mal. E o que está mal não é apenas existirem bairros degradados e exclusão social - a violência grupal não desaparece quando se arrasam os bairros de barracas e se levam as comunidades para bairros sociais, até chega a agravar-se; o fenómeno dos "gangs" não surge apenas em zonas "excluídas", toca igualmente bairros da classe média onde se vive com desafogo.

As reportagens que temos publicado nas últimas semanas, assim como alguns dos testemunhos que recolhemos para edição de hoje, mostram como germina nesses bairros uma cultura de violência que antes de ser atribuída exclusivamente à pobreza ou à falta de um polícia de giro, deve ser relacionada com o desfazer dos tecidos sociais e dos quadros de valores que devem suportar a vida em comunidade.

Voltemos à ideia do "fechados na rua". Ela recorda-me uma das histórias contada numa dessas reportagens: a de um membro de "gang" que dizia roubar para comer apenas porque os pais, que lhe tinham dado uma televisão gigante, não lhe deixavam comida no frigorífico.

A ideia é a mesma: abandono. Uma estrutura familiar que não funciona, com os pais ausentes ou distraídos. Sem outra família por perto. Sem referências ao longo do dia e com grande incompreensão à mesa do jantar.

Ora a família é a primeira célula de socialização, é o local onde se aprendem as regras, onde se cria um quadro de valores. Quando essa célula não funciona, deixando os filhos na rua (e atirando os pais idosos para um lar), então vamos seguramente ter problemas. Sobretudo nos subúrbios, longe dos avós. E sobretudo nos bairros habitados por africanos, onde o divórcio entre a geração que emigrou para trabalhar e a segunda geração que já nasceu em Portugal é total.

"Fechados na rua", ociosos, juntam-se em bandos. As suas referências são os filmes da televisão e as formas de vida fácil de alguns dos mais velhos. 

Querem ter roupas de marca, querem frequentar os bares da moda, e não têm dinheiro. Mas é fácil roubar. Raramente corre mal. E as faltas raramente são castigadas. Assim, para quê ir trabalhar para as obras? Assim, porquê continuar a estudar? Assim, porquê esforçar-se por ser honesto?

Estas novas formas de violência não estão associadas a "roubar para comer" ou a "assaltar para comprar droga". Traduzem antes uma cultura de violência de quem não se importa de viver depressa, e perigosamente, de quem possui uma revolta difusa contra o dia a dia esforçado dos pais e nunca aprendeu a valorizar os princípios da vida colectiva. De quem prefere o "grupo" e as solidariedades do "grupo" ao risco de se perder na grande cidade, fazendo pela vida, trabalhando.

Por isso não é fácil enfrentar este problema, que exige muitos e diferentesesforços. E exige uma intervenção pluridisciplinar a diferentes níveis. É necessário intervir nos bairros mais degradados, mas sobretudo é necessário ordenar a grande cidade de forma a evitar a criação de "guettos" - que tanto podem ser de barracas como de coloridas habitações sociais. É necessário criar estruturas que permitam combater a ociosidade de quem tem os pais longe, multiplicando os clubes, associações, campos de jogos, espaços de integração. E é necessário apoiar todos os esforços de quem, nesses espaços, procura criar sistemas de valores e reconstituir os laços comunitários.

Mas também é necessário perceber se a forma como o nosso sistema legal trata com os menores é a mais indicada, se ela não envia a mensagem errada de que é sempre possível a impunidade. A repressão cega não é solução - a ausência de castigo também não.

Por fim, a escola. Uma escola onde não exista uma cultura de responsabilidade e de exigência, uma escola onde, em nome de uma falsa ideia de "integração", se permite o abuso e se tolera a inversão das hierarquias, essa escola agrava os problemas que julga resolver.

Da escola pública não se espera que se substitua à família - mas quando as famílias se desagregam espera-se que a escola pública represente ao menos o papel de referência socializadora. Isso implica, entre outras coisas, que a escola tenha regras e as faça respeitar, pois uma das coisas que os miúdos precisam de conhecer são os seus limites. Onde está a linha que não devem cruzar.

Ora a escola, frequentemente, perdeu a noção deste seu dever. 

PS. Fernando Gomes parece uma barata tonta. Uma barata tonta não devia fazer parte de nenhum governo.

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