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6 de Julho de 2000 - Guia
Adelaide e Manuel Líbano Monteiro
"Temos seis filhos, todos muito desejados"
São pais de seis crianças entre os seis meses e os onze anos. Garantem que tal não é fácil e que exige sacrifícios, mas que vale a pena, pois são uma família "muito feliz"
A maior parte dos portugueses têm um ou dois filhos e a sociedade está estruturada para essa realidade. Quando a excepção à regra surge e ouvimos alguém dizer que tem seis filhos, o comentário mais vulgar é "que horror, tantos..." A este comentário, ou outros semelhantes, associamos ainda a ideia de que se trata de gente com grandes carências económicas ou, no extremo oposto, alguém com muito dinheiro. Adelaide e Manuel são a prova de que este tipo de preconceitos não passam disso mesmo: preconceitos. Pais de seis crianças fantásticas (Francisco, de 11 anos, Mafalda, de 9, Inês, de 7, Sofia, de 6, Rosarinho, de 2 anos e meio e Pedro, de seis meses), garantem que os filhos não foram obra do acaso, antes pelo contrário. Adelaide explica: "Estamos casados há doze anos e o nosso projecto sempre foi ter, no mínimo, três crianças. Na altura não sabíamos se tal seria possível, pois tudo iria depender das nossas possibilidades e disponibilidade. Ter seis filhos foi fazendo parte dos planos à medida que a vida ia correndo e por isso mesmo todos eles foram muito desejados e planeados."
Oriundos, também eles, de famílias numerosas, Adelaide e Manuel garantem que esse facto influenciou, de certa forma, a sua decisão. Ele explica: "Eu tenho oito irmãos, a minha mulher tem cinco. E aquilo que sentimos é que numa família grande a felicidade e a alegria são reinantes. Para nós foi muito importante termos tido tantos irmãos, talvez por isso tenhamos querido dar o mesmo aos nossos filhos. E também temos noção de que, para cada uma das nossas crianças, era importante ter irmãos." Então e gerir uma família com seis crianças pequenas, não é difícil? - perguntámos. Adelaide sorri: "Não, não é propriamente difícil". Manuel, acrescenta: "Há que ter noção de que o tempo que se gasta com seis miúdos não é propriamente o tempo de um vezes seis. Ou seja, há muitas coisas que são feitas em simultâneo. Por outro lado, é importante que as pessoas tenham noção de que ter seis filhos é uma opção de vida. E se uma pessoa com um filho está mais presa do que uma sem filhos, então uma com seis está ainda mais presa. De qualquer forma, os mais velhos já ajudam, há bastante partilha de tarefas e eles próprios são já muito independentes. A partir de uma certa idade já fazem muita coisa sozinhos e o facto de terem irmãos também os torna mais independentes, pois mesmo inconscientemente são "puxados pelos mais velhos". E dão-se todos bem? "Dão. Claro que há as 'guerras' típicas de irmãos, mas isso é natural. No geral dão-se todos lindamente, brincam imenso uns com os outros."
Numa família numerosa mas onde as bases, em termos de educação e convivência, são as mesmas, quisemos saber se todos têm feitios parecidos. Manuel garante que não: "São todos diferentes em termos de personalidade. Cada um é como é e apesar da base da educação ser a mesma, todos eles são diferentes. Há uns mais distraídos do que outros, há uns que precisam mais de mimo, há alguns mais espontâneos, outros mais reservados..."
Aprender a partilhar
Embora vivam num apartamento com seis assoalhadas, para onde se mudaram há pouco tempo, Manuel e Adelaide fazem questão de que as filhas partilhem o mesmo quarto e explicam porquê: "Só o Francisco é que está sozinho num quarto, mas dentro em breve o irmão vai fazer-lhe companhia. Elas dividem o quarto porque aprender a partilhar é fundamental, há que saber utilizar e gerir um mesmo espaço. No fundo, este é o principio da sociedade em que vivemos. Mas, como também temos noção de que cada um deles necessita de ter o seu cantinho, arranjámos uma divisão onde colocámos várias escrivaninhas. Quando vão para a escola primária cada um tem direito a uma escrivaninha só para si, onde poderá guardar as suas coisas com toda a privacidade." Em relação aos brinquedos, partilhar é também palavra de ordem e quando questionamos o casal sobre a velha teoria de que quando se compra algo para um dos filhos, tem de se comprar também para os outros, Manuel é peremptório: "Nem pensar! Se eu seguisse essa ideia ou era muito rico ou não tinha nada. Claro que se vamos todos passear e resolvemos comer um gelado, é um gelado para cada um. Agora, se eu compro uma camisola ou uns sapatos para um, porque necessita, não vou comprar para os outros todos. Cada um tem as suas coisas na altura em que decidimos que devem ter. E muita coisa vai passando de uns para os outros, como é lógico. E acredite que eles gostam de herdar as coisas dos irmãos, sentem que é uma promoção, que cresceram."
Com seis crianças em casa, o mais natural é que, de vez em quando, uma delas adoeça, mas a experiência ensina a lidar com as situações com uma calma que, provavelmente, os pais de um ou dois filhos não têm. Adelaide explica: "A preocupação existe sempre que um cai, se magoa ou fica doente ou se algo não corre bem. O grau de ansiedade é que pode ser diferente. Claro que há uma experiência adquirida que nos permite saber lidar de outra forma com algo por que já todos passaram, como por exemplo uma febre ou uma gripe. No fundo o que se passa é que aprendemos a lidar com os sintomas e já reagimos de forma mais tranquila, mas só isso."
Um, dois, três, quatro...
Durante a semana as crianças dividem-se entre a escola, a casa e outras actividades, mas ao fim de semana é normal saírem todos juntos, para passear, ir beber um café ou ir à praia. E é nessas alturas que se sentem uma família diferente. Manuel esclarece: "Temos uma carrinha grande, para podermos sair todos juntos. Quando chegamos a qualquer lado e os miúdos começam a sair do carro, a maior parte das pessoas fica a olhar e a falar baixinho umas com as outras. Nessa altura sentimos que somos diferentes, mas nunca pela negativa. Somos uma família muito feliz e unida e isso é o que importa." Então e controlar seis crianças, não é complicado? - perguntámos - Adelaide garante que não: "Basicamente controlamos os três mais novos, pois os outros já são mais responsáveis, já não é necessário estar sempre com os olhos neles. Por outro lado, há que impor regras. Por exemplo, há horas para ir para a mesa, para ir dormir... E eles aceitam muito bem essas regras."
Embora vivam sem dificuldades, o casal reconhece que o facto de terem uma família numerosa leva a abdicar de um série de coisas e a fazer alguns sacrifícios, mas encaram isso com naturalidade. Manuel diz: "Uma vez mais é uma questão de opção. Se calhar há coisas que ficaram para trás. Há que saber fazer concessões e essas passam pelo tipo de férias que fazemos, o tipo de roupa que se usa, o tipo de casa em que se vive, o carro que temos. Provavelmente há coisas que outras pessoas poderão comprar ou fazer e que nós não temos disponibilidade, mas é, como já disse, uma opção de vida. Não tenho nada a lamentar e se voltasse atrás faria exactamente a mesma coisa."
Embora não tenham muito tempo livre, Manuel e Adelaide fazem questão de arranjar sempre um bocadinho para estarem juntos e conversarem a sós. Ele esclarece: "É fundamental para o bem-estar da nossa relação. O final do dia é nosso. Por volta das nove e meia dez horas já os miúdos estão todos deitados e nós temos um pouco de tempo para nós. Por outro lado, todos os anos tentamos tirar uma semana ou um fim-de-semana para estarmos a sós um com o outro. Nessa altura eles ficam com os avós e com os padrinhos. Ficam divididos, pois é complicado ficarem todos juntos, mas eles gostam imenso de ir para casa de familiares. Para além disso temos algumas actividades que fazemos os dois e que nos ajudam a manter a nossa relação como casal."
Embora já tenham seis crianças, Manuel e Adelaide não descartam a possibilidade de ainda vir a aumentar o agregado familiar, mas afirmam que agora querem desfrutar o prazer de ver crescer o mais novo: "Queremos acompanhar e gozar o crescimento do Pedro, mas não colocamos de lado a hipótese de ter mais crianças. Até porque os nossos filhos não se importavam nada de ter mais irmãos e já dizem 'quando o pai e a mãe tiverem outro bebé'..."
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