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6 de Julho de 2000 - Diário
Económico
Governar Portugal
Via verde para a família
José Manuel Durão Barroso
«Uma verdadeira política de
família deve assumir uma dimensão transversal influenciando todas as
políticas sectoriais: fiscal, educação, saúde, habitação, etc.»
Como vimos ontem, a propósito da
solidariedade social, a família tem sido esquecida pelo Governo em
termos de política de segurança social.
De facto, importa ter consciência de
que não há solidariedade social sem solidariedade geracional e não há
solidariedade geracional sem solidariedade familiar.
Contudo, uma verdadeira política de família
deve assumir uma dimensão transversal influenciando todas as políticas
sectoriais: fiscal, educação, saúde, habitação, etc.
Não é certamente por mero acaso que
Constituição da República Portuguesa, no artigo 67º, é muito clara
ao reconhecer a família como elemento fundamental da sociedade e ao
atribuir ao Estado a incumbência de definir e executar uma política de
família com carácter global e integrado.
Pelo que, no plano da governação,
entendo dever ser este o caminho a seguir, ou seja: há que dar, em
todas as políticas, justo relevo à família.
Assim, e com a preocupação de lançar
a semente para uma política que promova a família e o seu papel
enquanto elemento estruturante da sociedade, o PSD apresentou um
conjunto de diplomas legislativos, designado como Via Verde para a
Família, de que destacaria:
Incentivos às famílias para que
possam manter no seu seio as pessoas idosas ou portadoras de deficiência
diploma já discutido e chumbado pelos votos do Partido Socialista;
Criação do Cartão Família
, pelo qual se concede acesso facilitado a um conjunto de bens e serviços
quer às famílias mais numerosas, quer às que integram pessoas
portadoras de deficiência física ou psíquica;
Apoio à maternidade e paternidade,
pelo alargamento, em determinadas circunstâncias, da redução do horário
de trabalho;
Elevação, em sede de IRS, do
limite para dedução à colecta de despesas de educação já a partir
do segundo dependente, bem como o aumento progressivo daquele limite a
partir do terceiro dependente;
Recomendação ao Governo para que
tome medidas concretas em matéria de consumo de bebidas alcoólicas.
Convicto de que este pacote
constitui um passo importante na nossa ideia de política de família,
sei, porém, que não é o suficiente.
Por isso mesmo, no debate sobre o estado
da nação, assumi o compromisso de apresentar uma Proposta de Lei de
Bases para a Família, com o objectivo de estabelecer as linhas programáticas
fundamentais da política de família e o quadro jurídico que permitirá
a integração das medidas que vierem a ser aprovadas.
Não se pretende que o Estado se
substitua à própria família, regulando por excesso tudo quanto lhe
diga respeito.
Ao Estado não cabe tentaculizar ou
sufocar a família. Mas compete-lhe promover a identidade, a vitalidade
e os espaços de organização, autonomia e liberdade próprios da
instituição familiar.
Muito daquilo que se joga neste âmbito
não depende de legislação. Como se sabe a sociedade não se muda por
decreto.
Alguns dos problemas essenciais radicam
em comportamentos e modos de vida, aquilo que é, ao fim e ao cabo, a
cultura dominante da nossa sociedade.
Visto que a família funciona como o
mais genuíno barómetro social e económico das sociedades,
considero que importa centrar na política de família o ângulo da análise
e da busca de soluções para os problemas das pessoas. É a este nível
que desde logo se devem promover as melhores respostas para a igualdade
de direitos entre homens e mulheres, para a compatibilização entre a
ocupação profissional e a vida familiar e para a reserva de mais tempo
dos pais junto das crianças.
Não podem deixar de me suscitar
particular atenção e preocupação as situações que mais fragilizam
as pessoas e as famílias, como a exclusão económica e social, a doença,
a droga, o alcoolismo, a deficiência ou a instabilidade emocional.
Numa sociedade em permanente transformação,
em que os padrões cívicos e comportamentais têm vindo a enfrentar
profundas convulsões, a família assume especial relevo.
Porque é o meio privilegiado de convivência
natural e solidária entre diferentes gerações.
Porque é o núcleo transmissor de princípios
éticos, cívicos, sociais e educacionais.
Porque é um dos lugares estratégicos
para a mudança, tendo em vista um País menos dependente do Estado e
crescentemente apoiado numa sociedade cada vez mais sólida e
afirmativa.
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