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17 de Julho de 2000 - Diário de Notícias
Os roubos e a demagogia
Francisco Moita Flores
Se há território onde a classe política se sente pouco
á vontade, ou melhor dizendo, abre a boca com despudor demagógico, é
aquele onde se inscreve a actividade criminosa
desenvolvida por crianças ou delinquentes
juvenis.
Paulo Portas não se cansa de falar no assunto.
E agora Durão Barroso, dando razão a Guterres, vai a
reboque do PP na mesma cruzada, clamando repressões e polícias e mais
polícias contra este género de criminalidade.
Portas ainda se desculpa, que nunca passou pelo
Governo, mas Durão Barroso, que tem na sua bancada Carlos Encarnação,
o qual durante anos desempenhou exemplarmente
funções no MAI e é profundo conhecedor destes problemas,
já não pode merecer a mesma condescendência.
Sabe-se que o discurso que põe
em ebulição o problema da insegurança dá votos.
Mais do que a criminalidade
real, o clamor que se desenvolve á sua volta potencia medos, provoca
angústias, generaliza inquietações e gera desconfianças sobre o
Governo, as polícias e os tribunais, garantindo votos
ou, no mínimo, dúvida sobre a natureza do
voto.
Vivemos em insegurança, porque eles não fazem
nada!, e o eles são o Governo, qualquer Governo que é
alvejado por este discurso populista.
Aliás, o próprio PS não é inocente nesta
retórica, se recordarmos como durante o último
Governo de Cavaco Silva geriu esta frente de propaganda.
É o discurso que engorda fileiras partidárias de
militantes medrosos, mas também aquele que
rapidamente vira o feitiço contra o feiticeiro,
quando se descobre que nem o PP, nem o PSD, nem o PS, nem o PCP, nem o
BE têm a receita alquímica que resolve o problema da delinquência
infantil e juvenil.
Na verdade este tipo de criminalidade tem aumentado,
particularmente à custa da actividade detectada na região
metropolitana de Lisboa e sabe-se que esta
turbulência que leva à agressão de outros jovens, a
torná-los vítimas de roubo, umas vezes de sapatos de ténis, outras
vezes de relógios, muitas vezes de calças,
camisolas, telemóveis, está associado a consumo
de estupefacientes.
Porém é uma associação diferente das relações
que se podem estabelecer entre consumo e furto num outro
território criminal, ou seja, dos furtos em
residências, em estabelecimentos, em automóveis
e em boa parte dos crimes de esticão.
Aqui, os mais diversos estudos
apontam para um determinismo quase perfeito. São crimes maioritariamente
cometidos por toxicodependentes.
Mas quando falamos dos "criminosos
infantis", de grupos de rapazes de 10, 11, 12 anos que roubam e
agridem outros levando-lhes bens de natureza pessoal,
haverá a certeza de que esta prática está
associada tão deterministicamente com a toxicodependência?
Pensamos que não e adiante explicaremos
porquê.
Antes, queremos colocar a
seguinte questão: sendo esta actividade criminosa da autoria
de crianças, e sabendo-se da sua inimputabilidade, que lhe retira
qualquer tipo de responsabilidade penal até aos 16 anos,
esta frente de propaganda contra Fernando Gomes é
perfeitamente descabelada.
Continuam a faltar polícias na rua? Continuam.
Sobretudo de patrulhamento apeado e de vigilância
em zonas de alto risco. A polícia não faz nada?
Mas desculpem-me, o que é que a
polícia pode fazer?
Não pode prender, não pode dar-lhes um par de
açoites, não pode levá-los para a esquadra pendurados pelas orelhas,
que pode fazer então?
Encaminhá-los para os serviços tutelares de menores
para que um magistrado decida do seu internamento?
Mas alguém acredita que um magistrado
no seu perfeito juízo tome uma decisão dessas com base em meia dúzia
de furtos de camisolas, sapatos de ténis e camisolas de marca?
Se não podem ser presos, se
não serão internados, que outras medidas podem ser tomadas
que não nos façam rir, por se saber que os resultados práticos são
tão nulos quanto demagógicos?
São perguntas a mais.
Para elas não é Fernando Gomes
quem tem resposta e as que dá iludem o problema central.
Por isso, é bem feito que lhe
tenham furtado o casaco para aprender como lidar com estes perdigotos de
palmo e meio.
O que Paulo Portas e Durão Barroso não
podem fazer é alijar as suas responsabilidades na construção desta
sociedade de hiperconsumo, sustentada na construção de
mitos que diariamente se reproduzem como símbolos
de diferenciação numa sociedade de massas.
O que nem estes nem outros partidos podem recusar é a
activa cumplicidade ou a silenciosa absolvição
face à produção de estímulos de competição e consumo que
evangelizou os pais e agora vai contaminando as crianças.
Quando eu era puto, o grande
sonho dos rapazes da minha escola era termos uma bola e para jogar
qualquer sapatilha servia.
Hoje a bola pouco importa, desde que a sapatilha tenha
marca de distinção.
E a distinção neste caso pode valer 20 ou
25 contos.
Não se retire daqui qualquer proselitismo contra
estes mitos diferenciadores.
Mas ninguém duvide que a ideologia hiperconsumista
que se instalou na metrópole veio aumentar o
exército de um certo lúmpen-proletariado infantil, que sem acesso aos
bens envereda pela prática criminosa, como forma
de consegui-los.
Tal como na década de 60 se furtavam automóveis,
quando ainda eram marca diferenciadora, para "dar uma
volta".
Se em vez de polícia,
disciplinassem a publicidade, talvez oferecessem propostas
melhores.
Se em vez de prisões apostassem na educação, na
actividade formadora que entrega à criança a dimensão
real dos valores adequados à sua socialização
harmoniosa, menos fundada na individualidade (e no
individualismo) e sustentada nos valores da solidariedade e do
humanismo, por certo que o interesse pela bola, que junta e unifica
interesses, seria muito maior do que pela marca
que os separa e os coloca em disputa.
Se por cada polícia que
se pede, pedíssemos mais e melhores professores, melhores pais,
melhores vizinhos, melhores condições para a educação, e finalmente
melhores políticos, talvez construíssemos uma sociedade
menos desumanizada, muito menos brutal e agressiva
e com crianças mais felizes.
Mas isto é pedir muito, é
assunto aborrecido, que não se aguenta e até enfada.
E pior, não dá votos.
Francisco Moita Flores assina esta coluna à
segunda-feira.
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