12 de Julho de 2000 - Diário Económico

Governar Portugal

Educação: um contrato com o futuro (I)

José Manuel Durão Barroso

O relatório de Dezembro de 1999 do FMI conclui, em linguagem diplomática, que a análise do sistema de ensino português "sugere níveis consideráveis de ineficiência".

Com efeito, naquele estudo comparativo Portugal surge como um dos países da OCDE mais mal colocados em termos da relação entre investimento público na educação e desempenho do sistema de ensino (5,8 % do PIB, contra 4,8% da média da OCDE e 5,1% da média da UE - dados de 1997).

Não será pois por falta de diagnóstico que o sistema educativo caminha penosamente para o descrédito, pois de há muito que se conhecem os principais pontos de tensão e estrangulamento. O problema coloca-se na manifesta inacção quanto às questões centrais da educação ou, então, num experimentalismo de reformas inconsequentes, que muitas vezes transforma os alunos em cobaias de sucessivos e incoerentes modelos educativos.

O pressuposto fundamental da política de educação reside na necessidade de construir uma escola assente numa atitude que valorize o trabalho, a disciplina, a exigência, o rigor e a competência. Que dê relevo à capacidade de iniciativa e ao espírito crítico, em vez do ensino em "quantidade" e meramente livresco. Precisamos de substituir a retórica tecnocrática pelo discurso da qualidade. De valorizar e fazer respeitar o estatuto do professor. De impor, em todos os níveis, a lógica da avaliação.

Antes de tudo o mais importa reconhecer a prioridade aos valores essenciais, que se devem transmitir desde os primeiros anos de ensino. Acredito na necessidade de uma educação baseada nos valores da civilização europeia e do humanismo cristão, que reforce o patriotismo, que incentive o orgulho na história e na cultura portuguesas, que saiba valorizar a nossa língua, que sublinhe a importância da igualdade entre homens e mulheres, que suscite o respeito pelo ambiente, que difunda os ideais democráticos, a cidadania e a protecção dos direitos humanos, que combata qualquer tipo de discriminação, nomeadamente de tipo racista ou xenófobo.

Um dos primeiros objectivos deve ser a universalização da educação e do acesso ao saber. Só assim se evitará a discriminação e se promoverá uma verdadeira igualdade de oportunidades. Para tal urge generalizar a educação pré-escolar e, ao mesmo tempo, reduzir os níveis de iliteracia, tanto escrita como falada, que atinge hoje 4 em cada 5 portugueses. 

Mas temos também de saber combater o abandono escolar, problema que assume  proporções alarmantes. Um em cada quatro alunos que iniciam a escolaridade obrigatória acaba por abandonar antes de concluir a sua formação básica.

Apenas cerca de metade dos alunos concluem o percurso do secundário - a taxa mais baixa da Europa comunitária.

Este combate exige, entre outras medidas, um sistema de tutoria escolar que perante as primeiras manifestações de risco de abandono possa actuar junto do aluno, da sua família e dos seus professores. A escola não pode continuar de mãos cruzadas perante este fenómeno que não cessa de aumentar.

O insucesso escolar, em particular em disciplinas como a Matemática e as Ciências, revela-se cada vez mais preocupante. Entre os 28 sistemas analisados pela OCDE no seu estudo deste ano sobre os resultados de exames internacionais, Portugal figura em último lugar em Matemática e em antepenúltimo em Ciências. O fenómeno manifesta-se logo a partir dos primeiros anos de escolaridade e marca o trajecto de uma grande parte dos alunos. Uma das consequências é a clara distorção da procura de cursos superiores e um défice acentuado de formações tecnológicas em que estamos tão carenciados. 

Por isso propusemos um Plano de Emergência para o Ensino da Matemática e das Ciências que o tempo tem vindo a demonstrar ser de urgente adopção. Esse plano inclui um programa de formação de professores do ensino básico, a utilização de um vasto conjunto de novos materiais didácticos, o envolvimento dos pais, dos media e de instituições científicas para a prossecução de objectivos precisos para cada um dos níveis de escolaridade. 

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