Público  - 19 Jan 07

 

A campanha do referendo
António Bagão Félix

 

Se o dr. Louçã mandasse (credo!), de uma coisa estou certo: não era necessário dinheiro para campanhas porque... não haveria campanhas. Mas em Portugal não é assim. A minha legitimidade para defender uma posição é exactamente igual à dos iluminados, como o dr. Louçã

 

Odr. Louçã disse a propósito do próximo referendo sobre o aborto (perdão IVG, para não ferir a sua sensibilidade) que - e estou a citar - "Bagão Félix está a dirigir uma campanha milionária, financiada por uma liga de milionários anónimos". E adiantou: "É preciso muita crueldade para utilizar rios de dinheiro a favor do "não" e achar que o Estado português não pode gastar dinheiro com as mulheres mais pobres, no momento em que elas mais sofrem."
Acontece que eu não dirijo nenhuma campanha, não faço parte de nenhuma comissão executiva de qualquer movimento, não conheço nenhum hipotético financiador de qualquer campanha. Até poderia, como qualquer cidadão na posse de todos os seus direitos, ter estado ligado a alguma angariação de recursos para a campanha. Mas, simplesmente, não estou!
Sou um apoiante de todos os movimentos do "não", com muita honra e convicção, e aceitei ser um dos mandatários de uma das suas plataformas (Não Obrigada). Felizmente nestes movimentos há muita gente, de todos os meios e condições sociais, com muito valor para os dirigir, com sabedoria e espírito de missão. Gente de fortes e amadurecidas convicções em quem acredito plenamente.
É certo que já não deveria ligar minimamente aos dislates habituais do dr. Louçã. Nem sequer perder um segundo com as atoardas e as insinuações com que costuma mimosear os seus oponentes. Para ele, até parece que não há limites na política. Tudo parece valer, aliás numa enorme coerência com o relativismo e minimalismo éticos que, qual profeta iluminado, gosta de pregar. Julga-se detentor da verdade. E monopolista da moralidade pública... Não sei porquê, mas Louçã "vê-me" por todo o lado quando se trata de campanhas. Por um lado, só me sinto grato por ser referido e citado tão amiúde por Sua Excelência. É sinal que o incomodo e não lhe sou indiferente. Por outro lado, à falta de argumentos, o dr. Louçã entra - sobretudo se houver câmaras de televisão por perto - no insulto fácil e descabelado. Está-lhe na massa do sangue.
Como regra, não tenho por hábito perder tempo com a sua verborreia feita de tiques e (a)taques. Mas, desta vez, ultrapassou os limites no efeito que pretendeu maliciosamente forjar. Não fosse um momento planeado como certamente o foi, e diria que teria sido uma doentia mas fértil imaginação onírica. Tão onírica que até me "viu" a fazer uma coisa que para ele é abominável se for contra as suas ideias: colar cartazes...
Louçã sabe que tem a seu favor o que eu não tenho, como simples cidadão que sou e não pertencendo a nenhuma organização política ou partidária. Ele tem tempo de antena, holofotes e um aparelho.
Como Louçã nada diz de verdadeiro improviso, embora teatralize com mestria, é evidente que as palavras foram ditas com toda a intenção. Repare-se nesta mistura: milionários, anónimos, liga, mulheres mais pobres, rios de dinheiro, crueldade... e logo se vê, à míngua de argumentos respeitáveis, o demagógico e desonesto efeito pretendido. Claro como a água. Sobre o que está em discussão no referendo, nada disse!
Se o dr. Louçã mandasse (credo!), de uma coisa eu estou certo: não era necessário dinheiro para campanhas do que quer que fosse porque não haveria campanhas do que quer que fosse. Mas, infelizmente para ele, em Portugal não é assim. A minha legitimidade para defender uma posição é exactamente igual à dos iluminados, como o dr. Louçã. Nem mais, nem menos. Com uma diferença substancial: é que eu acredito no debate sério, respeitoso, com carácter, sem mentiras ou manobras de diversão.
Defendo as minhas posições sabendo respeitar as diferenças. A calúnia pessoal não faz parte do argumentário de quem quer demonstrar com seriedade os seus pontos de vista. Estes desafios fazem-se com ideias, não com ataques pessoais soezes. Mas as calúnias do dr. Louçã não são, de há muito, sindicáveis. Faz os seus "sermões" com a desfaçatez de quem não é sujeito à apresentação de provas do que diz.
Começa bem a campanha do dr. Louçã. Mandatário da Plataforma Não Obrigada