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Público - 29 Jan 04
Aferir para Quê?
Por NUNO PACHECO
Aferir. Ou, se procurarmos sinónimos apropriados nos dicionários
habituais, apreciar, avaliar, comparar, conferir, confrontar, cotejar,
examinar, fiscalizar, julgar. Foi com essa finalidade que, no final dos
anos 90, foi decidido instituir nos três ciclos do ensino básico (no 4º,
6º e 9º ano) a realização de provas para avaliar os conhecimentos dos
alunos. Num despacho oficial, datado de 18 de Fevereiro de 2000, escrevia
a então secretária de Estado Ana Benavente: "A avaliação aferida visa
permitir o controlo dos níveis de desempenho dos alunos e a avaliação da
eficácia do sistema, através da devolução dos resultados às escolas para
enriquecimento das aprendizagens, no âmbito do desenvolvimento dos
respectivos projectos educativos." Dito assim, parecia bonito. E útil,
como sugeria Ana Benavente ao declarar, em Dezembro desse mesmo ano e já
depois de feitas (em Maio) as primeiras provas: "O objectivo não é fazer
uma avaliação dos meninos, nem das escolas, nem dos professores. Trata-se
de um elemento completamente novo, precioso e estruturante para que, entre
outras coisas, se defina e se afirme um currículo nacional."
Pois bem: passados três anos, esse elemento "precioso" pauta-se por
resultados no mínimo inquietantes. A Matemática continua má, como de
costume, mas o seu domínio tende a piorar quanto mais se avança no tempo e
na idade, do 4º para o 9º ano. No 6º ano, por sua vez, os mais de 116 mil
alunos que realizaram provas de aferição em Maio de 2002 ficaram-se por
uma média aterradora: 33,5 por cento numa escala de 0 a 100. O mais
curioso e, simultaneamente, mais preocupante, é que os piores resultados
são os que se verificam precisamente no último ano do básico. O "fim da
linha", aquele ponto onde o aluno pode abandonar de vez a escola ou seguir
directamente para o Secundário e daí para o Superior, em lugar de ser um
momento de ajuste e superação das falhas dos anos anteriores, é
precisamente a escala mais baixa de um continuado declínio. Chegados a
este ponto, e recordando as belíssimas intenções dos inventores de
semelhantes provas, cabe então perguntar: aferir para quê? Para ajuizar,
ano após ano, da evolutiva miséria do nosso ensino? Para enriquecer "dossiers"
ministeriais com informação que a ninguém ou quase ninguém aproveita? Para
corrigir o rumo e inverter os desastrosos resultados que ano após ano
contemplamos com crescente perplexidade? Há, no horizonte imediato, um
ex-ministro (agora na oposição e daí mais disponível) preocupado com o
tema: Augusto Santos Silva, que ao fim de dois requerimentos ao Ministério
obteve finalmente os dados que agora surgem a público. E haverá decerto
governantes e professores e pais a quem tais resultados preocupam ou
envergonham. Mas a interrogação permanece: serão tais provas
verdadeiramente úteis a uma verdadeira mudança? Alguém quer responder?
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