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Público - 28 Jan 04
Porque nos Chocou Tanto a Morte de Fehér
O acontecimento de domingo à noite estava espelhado no dia seguinte na
cara das pessoas no autocarro, na rua, na televisão. O que se sucedeu não
deixou ninguém indiferente. Porque nos chocou tanto a morte de Fehér?
Estamos habituados a conviver com mortes. Todos os dias morre alguém nas
nossas estradas, hospitais ou cidade. Basta abrir um jornal para nos
confrontarmos com alguns falecimentos recentes, a televisão mostra-nos
frequentemente atentados impressionantes, dezenas de mortos, crianças e
mulheres prostrados em plena rua esvaindo-se em sangue. Não ficamos
indiferentes, não nos passa ao lado, mas também não muda o nosso humor.
Paradoxalmente, o falecimento de Fehér foi de certa forma bem mais
"humano" do que estes, mas tocou-nos incrivelmente mais. Um despreocupado
sorriso, um olhar para o chão, uma queda. E pronto. Assim faleceu Miklos
Fehér, 24 anos, húngaro, jogador de futebol. Foi isto que nos estremeceu,
o facto de nessa noite ter ficado tão patente a fragilidade da vida e a
inevitabilidade da morte.
Não se trata de um idoso em fase terminal, de alguém com uma doença
incurável ou de uma vítima de homicídio. Era um jovem de 24 anos!
Certamente muito mais saudável que a esmagadora maioria de nós.
Teoricamente, tínhamos muito mais hipóteses de falecer do que alguém como
Fehér. Mas no entanto ele morreu, e nenhum de nós se sentiu seguro como
dantes.
Um falecimento destes não nos convida a uma reflexão sobre a morte, mas
sim sobre a vida. Esta perde, bruscamente, todos os ornamentos e enfeites
que todos os dias lutamos por lhe pôr e onde centramos a nossa vivência. A
simplicidade com que se deixa de viver, com que se perde tudo o que se tem
e lutou nesta terra, obriga-nos invariavelmente a um reajustamento de
ideais e de objectivos. Alarga-nos os horizontes e encurta-nos o tempo.
Esta consciência de que nos andamos a esquecer de algo, e de algo
fundamental, vê-se pelas reacções do público e jogadores presentes no
recinto. Desapareceram clubes e cores, pontos e golos. Naquele estádio
via-se simplesmente a humanidade, confrontada e aterrorizada com a sua
única certeza, a morte. No limite, tudo o resto não chega sequer a ser
secundário, simplesmente não interessa. Segunda-feira, dia 26 de Janeiro,
não houve tabelas de classificações, nem houve crise. Nenhuma estrela pop
se casou, nem ninguém se importou com a casa mais vigiada do país.
Inevitavelmente, nestas ocasiões, vem-me à memória uma frase de C. S.
Lewis: "A dor é o megafone através do qual Deus fala a um mundo surdo."
Talvez não estejamos a prestar atenção ao que de facto é importante. E
pode acontecer que de nós não reste senão uns zeros na conta bancária e
uns recortes de alguma revista colorida com a nossa imagem, condenados ao
amarelecimento do tempo. Porque no final todos caímos, de uma forma mais
ou menos aparatosa, e não necessariamente com um sorriso.
Rui Tato Lima
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