aborto.no.sapo.pt - 26 Jan 04

Aborto e laicismo

 

O mundo político e cultural acolheu com unânime pesar a notícia da morte de Norberto Bobbio, no passado mês de Janeiro de 2004, na italiana de Turim.

 

Durante muitos anos foi professor de Filosofia do Direito, Ciências Políticas e Filosofia da Política na Universidade de Turim. Em 1984, o então presidente da República, Sandro Pertini, nomeou-o senador vitalício. Bobbio, de 94 anos, tinha sido hospitalizado no passado 27 de Dezembro devido a uma crise respiratória.

Definia-se como "um laico, não laicista nem anticlerical".

 

Nas vésperas do referendo italiano sobre o aborto, o "Corriere de la sera" de 8 de Maio de 1981 publicou uma entrevista na qual Bobbio explicava as suas razões a favor da vida e manifestava a sua estranheza pelo facto de que "os laicos deixem aos crentes a honra de afirmar que não se deve matar".

 

Para o filósofo, a questão do aborto era uma questão "muito difícil": o "clássico problema em o que nos encontramos frente a um conflito de direitos e deveres", "antes de mais, o direito fundamental do concebido, esse direito ao nascimento sobre o qual, na minha opinião, não se pode transigir", dizia.

 

"É o mesmo direito em nome do qual sou contrário à pena de morte - reconheceu então -. Pode-se falar de despenalização do aborto, mas não se pode ser moralmente indiferente ante o aborto".

 

Bobbio recordou igualmente: "Diz Stuart Mill: "Sobre si próprio, sobre a sua mente e sobre o seu corpo, o indivíduo é soberano". Agora as feministas dizem: "Meu corpo é meu e o administro eu". Pareceria uma perfeita aplicação deste principio. Porém, eu digo que seria aberrante incluir nisto o aborto".

 

"O indivíduo é uno, individual. No caso do aborto há "outro" no corpo da mulher -advertiu -. O suicida dispõe da sua própria vida. Com o aborto dispõe-se de uma vida alheia".

 

Dado que a actividade, livros e ensinamentos do professor Bobbio eram testemunho de um espírito firmemente laico, ao observar-se-lhe que as suas declarações podiam suscitar surpresa no mundo laico, respondeu finalmente: "Queria perguntar que surpresa pode haver no facto de que um laico considere como válido em sentido absoluto, como um imperativo categórico, o "não matarás". E me surpreendo pela minha parte com que os laicos deixem aos crentes o privilégio e a honra de afirmar que não se deve matar".

 

 Fonte: Zenit.org, 12 de Janeiro de 2004

 

Tradução MM.

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