O mundo
político e cultural acolheu com unânime pesar a notícia da morte de
Norberto Bobbio, no passado mês de Janeiro de 2004, na italiana de
Turim.
Durante
muitos anos foi professor de Filosofia do Direito, Ciências Políticas e
Filosofia da Política na Universidade de Turim. Em 1984, o então
presidente da República, Sandro Pertini, nomeou-o senador vitalício.
Bobbio, de 94 anos, tinha sido hospitalizado no passado 27 de Dezembro
devido a uma crise respiratória.
Definia-se
como "um laico, não laicista nem anticlerical".
Nas vésperas
do referendo italiano sobre o aborto, o "Corriere de la sera" de 8 de
Maio de 1981 publicou uma entrevista na qual Bobbio explicava as suas
razões a favor da vida e manifestava a sua estranheza pelo facto de que
"os laicos deixem aos crentes a honra de afirmar que não se deve matar".
Para o
filósofo, a questão do aborto era uma questão "muito difícil": o
"clássico problema em o que nos encontramos frente a um conflito de
direitos e deveres", "antes de mais, o direito fundamental do concebido,
esse direito ao nascimento sobre o qual, na minha opinião, não se pode
transigir", dizia.
"É o mesmo
direito em nome do qual sou contrário à pena de morte - reconheceu então
-. Pode-se falar de despenalização do aborto, mas não se pode ser
moralmente indiferente ante o aborto".
Bobbio
recordou igualmente: "Diz Stuart Mill: "Sobre si próprio, sobre a sua
mente e sobre o seu corpo, o indivíduo é soberano". Agora as feministas
dizem: "Meu corpo é meu e o administro eu". Pareceria uma perfeita
aplicação deste principio. Porém, eu digo que seria aberrante incluir
nisto o aborto".
"O indivíduo
é uno, individual. No caso do aborto há "outro" no corpo da mulher -advertiu
-. O suicida dispõe da sua própria vida. Com o aborto dispõe-se de uma
vida alheia".
Dado que a
actividade, livros e ensinamentos do professor Bobbio eram testemunho de
um espírito firmemente laico, ao observar-se-lhe que as suas declarações
podiam suscitar surpresa no mundo laico, respondeu finalmente: "Queria
perguntar que surpresa pode haver no facto de que um laico considere
como válido em sentido absoluto, como um imperativo categórico, o "não
matarás". E me surpreendo pela minha parte com que os laicos deixem aos
crentes o privilégio e a honra de afirmar que não se deve matar".
Fonte:
Zenit.org, 12 de Janeiro de 2004
Tradução MM.