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Público - 21 Jan 04
Imigrantes
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Com muito - e desnecessário - atraso, o Governo lá regulamentou a Lei da
Imigração. Felizmente cabe dizer que, no essencial, o fez bem.
Temos, sobre a política de imigração, defendido vários princípios, a
saber:
- Portugal precisa de mais imigrantes por razões humanas (não devemos
fechar a porta aos que procuram uma vida melhor); por razões económicas
(os imigrantes desempenham tarefas que os portugueses não querem
desempenhar); e por razões demográficas (para equilibrar a nossa baixa
natalidade e permitir que no futuro haja trabalhadores activos suficientes
para pagar as reformas de uma população envelhecida). Isto para não falar
do enriquecimento proporcionado pela imigração, pela saudável mistura de
povos e culturas.
- Portugal precisa de planear a imigração, o mesmo é dizer, precisa de
definir quotas para a admissão de imigrantes de acordo com as necessidades
do mercado de trabalho, evitando as políticas irrealistas de "portas
abertas", gémeas nas consequências sociais das políticas de "portas
fechadas", e procurando que os que chegam o façam em condições de se
integrarem bem e de serem tratados com dignidade.
- Portugal tem de resolver o problema dos imigrantes ilegais de forma
justa e sensata, isto é, nem recorrendo de forma repetida a legalizações
extraordinárias que fariam do nosso país o destino de eleição do tráfico,
nem expulsando os que já estão integrados, descontaram impostos ou
contribuíram para a segurança social.
- Portugal deve privilegiar o critério do reagrupamento familiar,
permitindo a consolidação das famílias, o seu enraizamento, condição
central para uma integração que nunca teria sucesso se visasse apenas os
que vivem sozinhos nos estaleiros das obras ou nos celeiros abandonados.
- Portugal, mesmo não legalizando os ilegais que não puder legalizar,
mesmo tendo de às vezes expulsar aqueles que as redes mafiosas conduzem,
em condições infra-humanas, até empregos precários ou patrões sem
escrúpulos (sem esse efeito dissuasor o combate às máfias não terá
resultados), tem de tratá-los, enquanto estão entre nós ou enquanto
aguardam processos de legalização, como cidadãos plenos que não ficam às
portas das escolas ou dos hospitais.
- Portugal, e os seus responsáveis, têm por fim a obrigação moral e
política de fazer a pedagogia construtiva da importância da imigração, têm
de combater as ideias erradas que levam muitos portugueses a desejar que
as nossas portas se fechem por completo - um número de portugueses
anormalmente alto de acordo com as sondagens, em que surgimos entre os
mais avessos a receber estrangeiros.
Sem uma coordenação global de todas estas políticas, aquilo que se deseja
- mais imigrantes, melhor tratados, melhor integrados, mais produtivos,
também mais "portugueses" e, no futuro, também com direitos políticos -
será inalcançável. A regulamentação da lei vai, e ainda bem, ao encontro
destas preocupações, até ao permitir afinar ano a ano, em função dos
ciclos económicos e da procura de emprego, o número de vistos de trabalho
a conceder. Há sensatez e humanidade, sem cedências aparentes aos
extremismos do "tudo aberto" ou do "tudo fechado".
Mas para que resulte, o Estado deve funcionar. Ser célere nos processos
burocráticos, que devem ser simplificados. E ser rigoroso na perseguição
aos que exploram a imigração ilegal. Boas leis não fazem um bom país -
boas práticas sim.
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