Público - 18 Jan 04

Constâncio Defende Necessidade de Se Trabalhar Mais Anos, Ter Mais Filhos e Acolher Mais Imigrantes
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES

Os países europeus têm de estar disponíveis para aceitarem mais imigrantes e os europeus devem compenetrar-se que terão de trabalhar mais anos do que hoje e ter mais filhos se querem assegurar o seu futuro, defende Vítor Constâncio na entrevista que concedeu ao PÚBLICO e à Rádio Renascença e que, para além de poder ser lida amanhã nestas páginas e ouvida na rádio hoje pelas 12 horas, também poderá ser vista pelas 23 horas no canal Dois. Na entrevista que estreia o novo formato destas conversas semanais, o Governador do Banco de Portugal defende que, sem mais imigrantes, mais anos de trabalho e mais filhos, "a Europa entra em declínio e terá dificuldades crescentes para resolver os seus problemas sociais".

"O aumento espectacular da esperança de vida das pessoas faz com que as atitudes perante o trabalho tenham que acompanhar essa mudança", prosseguiu Vítor Constâncio. "As coisas não ficam estáticas, pelo que, se a Europa quer defender a sua cultura, a sua civilização e quer ter os meios económicos para o fazer mantendo o seu modelo social, é necessário garantir um crescimento económico mais forte no futuro. É isso que exige medidas estruturais".

Entretanto, no curto prazo, o responsável máximo pelo banco central mostrou-se optimista face à evolução da economia em 2004. Para Portugal prevê uma "inversão do ciclo" pois "a economia vai voltar a crescer e os portugueses vão consumir mais". Na Europa acredita que a retoma já está aí, apesar das incertezas causadas por níveis elevados de endividamento e pelos "défices gémeos" da economia americana: o défice público e o défice externo.

Defensor da consolidação orçamental, Vítor Constâncio considera que ela é necessária não só para Portugal cumprir os compromissos europeus, mas também para que o país possa "enfrentar melhor as flutuações da economia, coisa que não tem acontecido neste anos" e para estar preparado para as despesas crescentes, que decorrem do envelhecimento da população, que vai exigir mais dinheiro para sustentar os sistemas de pensões e de saúde.

Contudo, a "necessidade de reduzir o défice do orçamento pesa negativamente na capacidade de voltar a crescer mais depressa", razão porque defende que Portugal necessita de actuar do lado da despesa e do lado da receita. Do lado da despesa não se mostra surpreendido com o quase congelamento salarial na administração pública, mas alerta para que "a contenção muito forte dos vencimentos dos funcionários públicos em 2003 e 2004 não poderá manter-se nos anos seguintes". Defende também uma redução "de forma automática e gradual, dos efectivos na administração pública" aproveitando o facto de todos os anos de reformarem milhares de funcionários. Volta, por outro lado, a criticar a decisão de baixar o IRC, não porque "pense que isso deva ou não acontecer, mas porque só no curto prazo, em termos técnicos, em 2005 essa descida representa uma perda de receita de 0,4 por cento do PIB".

Os melhores resultados que prevê para 2004 surgem, na sua opinião, depois de um período de desaceleração inevitável: "Temos de compreender que a expansão da dívida [verificada nos anos 90] não podia continuar ao mesmo ritmo. Tínhamos sempre de passar por um período de quebra que foi agravada por dois factores: a desaceleração a nível mundial após 2001 e um problema orçamental muito sério."

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