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Público - 11 Jan 04
Crimes Sem Castigo
Por ANTÓNIO BARRETO
"Isto anda tudo ligado"
Eduardo Guerra-Carneiro
Tinha de ser! Depois de se terem culpado, sucessivamente, os ricos ou
famosos, os políticos em geral, os socialistas em particular, os juízes,
os procuradores, os advogados e os homossexuais, chegou a vez dos
jornalistas. E começaram as reflexões sobre as medidas a tomar em ordem a
moderar os ímpetos dos jornalistas e aumentar o rigor da imprensa
(jornais, rádio e televisão). Uns preferem as leis, outros o auto controle
e a deontologia. Uns pensam que a lei geral é suficiente, outros acham que
esta deve ser reforçada. Uns acreditam na Alta Autoridade, outros confiam
numa nova e severa lei de imprensa. Os inocentes entendem que basta
confiar na opinião pública e os líricos esperam por uma reforma de
mentalidades. A verdade é que não existe consenso, muito menos
unanimidade. Nem sequer sobre o real contributo da imprensa para o
mal-estar em que se vive.
Entre as ilusões em vigor, uma delas estipula que "a imprensa isto...",
"os jornalistas aquilo...". Estes juízos são detestáveis. Há jornalistas
bons e maus, sérios e viciosos, honestos e vendidos, verdadeiros e
mentirosos. Há imprensa que se esforça por elevar a cultura e a decência
dos cidadãos e há aquela que vive da sordidez. Há jornais e televisões que
não utilizam meios ilícitos, nem sequer condenáveis; como há os que
procuram sangue e miséria, compram testemunhos, forçam revelações,
suscitam e sugerem explicações, procedem à montagem intencional de factos
mais ou menos verdadeiros, excitam as emoções fáceis, exploram os
sentimentos das vítimas, ocultam situações, retiram factos e frases do
contexto, torcem a realidade, prestam serviços subservientes aos
interessados, põem-se a jeito para proporcionar "fugas" intencionais,
enganam-se e enganam, vendem e vendem-se. Quem, em vez de formular votos
piedosos e referir a "comunicação social" em abstracto, estiver realmente
interessado em saber quem é quem, basta ler, ver e ouvir para distinguir.
Nesse sentido, o gesto do Presidente da República, em mensagem à nação, de
carácter excepcional e grave, foi destituído de consequências. Terminar um
acto solene com, em vez de acção, um "apelo" aos "operadores de justiça" e
aos "profissionais da comunicação social", equivale a condenar à
inutilidade uma boa intenção.
Outra ilusão perigosa é a que consiste em utilizar, indiferentemente, ora
o termo "jornalista", ora a designação "profissionais de comunicação
social". Na verdade, é forte a tendência para esquecer pessoas mais
importantes e decisivas do que, apesar de também responsáveis, os
jornalistas executantes. Os proprietários e administradores, assim como os
directores dos chamados órgãos de comunicação, não são jornalistas, mas
dominam de muito perto e cada vez mais o teor e o tom da informação, os
alinhamentos, os enquadramentos e os programas. Sem eles, nem os mais
infames jornalistas conseguiriam fazer o que querem ou o que fazem. Só com
eles, com a sua conivência, a sua autorização, a sua confirmação e, as
mais das vezes, a sua direcção, podem os jornalistas entregar-se a actos
ilícitos e a gestos condenáveis. Se, numa redacção, houver uma ordem
explícita para não explorar as misérias dos outros, não comprar notícias,
não usar testemunhos anónimos, não recorrer a fontes não identificadas,
não servir interesses políticos ou privados, nem aceitar recados, podemos
ter a certeza de que tais factos diminuirão drasticamente.
Temos pouca sorte, neste país pobre, ignorante e com poucas horas de voo
democrático: a concorrência entre jornais e televisões faz-se, geralmente,
pelo volume de sordidez, pela quantidade de sangue e pela variedade de
escândalos, não pela seriedade e pela cultura. Muitos jornais não têm brio
em criar confiança, mas têm orgulho em excitar a qualquer preço.
Faltam provedores do leitor, não pagos pelas respectivas empresas, em
quase todos os jornais, rádios e televisões. Nota-se a ausência de
conselheiros e assessores jurídicos a tempo inteiro nas redacções.
Sente-se a inexistência de uma denúncia pública e constante, dos casos
concretos e identificados de mentiras, omissões e calúnias de que os
órgãos de informação sejam responsáveis, por uma Autoridade independente
mais interessada nesses efeitos profiláticos e preventivos do que em
especulações teóricas sobre as funções simbólicas e o equilíbrio
partidário. Vê-se a falta de coragem das direcções dos órgãos de
informação para advertir, punir e despedir profissionais capazes de
mentira, engano, desleixo e intoxicação.
Neste caso da pedofilia, como noutros que conhecemos recentemente, o papel
desempenhado pela imprensa teve tanto de bom quanto de mau. A ampliação
dos problemas, os exageros emocionais, as quebras de regras vigentes, a má
reputação lançada sobre pessoas, o alimento do clima de histeria e a
criação de bodes expiatórios foram, é certo, veiculados ou inventados pela
informação. Mas também é verdade que, sem a imprensa, não saberíamos nem
metade do que sabemos hoje sobre o processo judicial e as suas aberrações
e pouco se saberia sobre a pedofilia, de que talvez nem sequer houvesse
casos em investigação e julgamento. O que, apesar da incerteza, os
portugueses sabem hoje da pedofilia, dos métodos de interrogatório
policial e judicial, dos processos de detenção preventiva e do uso e abuso
da prática de escuta telefónica, devem-no à imprensa e aos jornalistas.
Paradoxalmente: foram alguns actos ilícitos da imprensa que permitirão,
talvez, que se condenem criminosos e se reformem processos judiciais
absurdos.
Não se altere, por evidente inutilidade, a lei da imprensa. Revejam-se,
isso sim, as leis do segredo de justiça, assim como, por obsoletas e
confusas, as que contemplam os chamados crimes de abuso da liberdade de
imprensa. Apliquem-se, finalmente, as leis vigentes. Se as leis actuais
fossem aplicadas, já teríamos, a estas horas, vários "operadores de
justiça" (magistrados ou não) e diversos "profissionais da informação"
(jornalistas ou não) presos, suspensos, castigados ou despedidos. Esta
impunidade é certamente uma das raízes dos problemas actuais. Eis que
parece simples. Mas a verdade é que a discussão sobre os modos de
funcionamento e de organização, assim como sobre as regras deontológicas
das empresas de informação, é indispensável e necessária. Tanto, pelo
menos, quanto a discussão sobre o processo e a organização da justiça e os
poderes judiciais. Engana-se quem pense que basta olhar para um dos lados
do mundo.
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