HÁ SINAIS que não enganam, embora as
ideologias dogmáticas se esforcem por não os ver. Alguns deles
emergiram no final do ano que passou. Saddam Hussein foi
capturado vivo e sem resistência num buraco imundo do país que
outrora condenara à miséria e ao despotismo. O general Kadhafi
veio a público declarar que aceitava o controlo internacional
sobre o seu programa de armamentos. Foi dito que o gesto
culminou vários meses de duras negociações lideradas por
americanos e ingleses. A França deixou saber que estava muito
infeliz por não ter sabido das negociações.
Ao mesmo tempo, com a pompa habitual, o
Presidente francês anunciou uma lei surpreendente que proíbe o
uso de símbolos religiosos cristãos, judeus e muçulmanos nas
escolas «públicas» da República.
Como se costuma dizer, as coisas estão
ligadas: o que hoje ameaça conduzir a França à periferia das
decisões mundiais é o mesmo que conduz o «laicismo» de Chirac.
É a embriaguez ideológica que acredita poder reconstruir a
realidade por decreto, em vez de observar de frente a
realidade para tentar agir sobre ela por ensaio e erro.
Raymond Aron chamou a essa dependência da ideologia «o ópio
dos intelectuais».
A chamada «lei da laicidade» de Chirac é
absurda a todos os títulos. O progressista «New York Times»
chamou-lhe em editorial «fundamentalismo secular». Anne
Aplebaum escreveu no «Washington Post» que a lei seria
inconstitucional na América. Podia ter sido acrescentado que,
em Inglaterra, inovações arbitrárias semelhantes conduziram no
século XVII à queda de Carlos I e, em seguida, ao fracasso dos
republicanos autoritários que o tinham executado. Como
observaram David Hume e Edmund Burke, o despotismo, seja qual
for o seu sinal político, dá-se mal com a tradição da
liberdade.
Foi a liberdade de expressão, neste caso
religiosa, que Chirac pôs em causa. Além disso, criou um
problema onde ele não existia: os símbolos religiosos não
constituem ameaça a ninguém, mas podem gerar legítimo
ressentimento quando são arbitrariamente ofendidos. Mais grave
ainda, isto foi feito para fugir de um problema real de que a
França tem medo: o fundamentalismo islâmico. Para fugir a este
problema, Chirac fingiu que tinha um problema também com
cristãos e judeus. Mas não há em França qualquer ameaça
fundamentalista cristã ou judaica. Como escreveu o «New York
Times», passou a existir um «fundamentalismo secular».
Só que, em vez de ameaçador, este
fundamentalismo é impotente e patético. Está a conduzir a
França para a periferia das decisões mundiais, da mesma forma
que está a depauperar nos franceses os recursos morais e
culturais que permitem ter orgulho em pertencer ao Ocidente.
Mas é o Ocidente que está hoje a ser atacado e é o Ocidente
que tem de ser defendido.
«O que é o Ocidente?», perguntarão de
imediato os intelectuais do Quartier Latin que aplaudiram
Chirac. A resposta é simples: o que quer que seja, não precisa
de ser inventado. Basta ser redescoberto. Como dizia Winston
S. Churchill, «estudem História, estudem História!».
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