Expresso - 10 Jan 04

O ópio dos intelectuais
João Carlos Espada

 

«O dogmatismo está a conduzir a França para a periferia das decisões mundiais.»

HÁ SINAIS que não enganam, embora as ideologias dogmáticas se esforcem por não os ver. Alguns deles emergiram no final do ano que passou. Saddam Hussein foi capturado vivo e sem resistência num buraco imundo do país que outrora condenara à miséria e ao despotismo. O general Kadhafi veio a público declarar que aceitava o controlo internacional sobre o seu programa de armamentos. Foi dito que o gesto culminou vários meses de duras negociações lideradas por americanos e ingleses. A França deixou saber que estava muito infeliz por não ter sabido das negociações.

Ao mesmo tempo, com a pompa habitual, o Presidente francês anunciou uma lei surpreendente que proíbe o uso de símbolos religiosos cristãos, judeus e muçulmanos nas escolas «públicas» da República.

Como se costuma dizer, as coisas estão ligadas: o que hoje ameaça conduzir a França à periferia das decisões mundiais é o mesmo que conduz o «laicismo» de Chirac. É a embriaguez ideológica que acredita poder reconstruir a realidade por decreto, em vez de observar de frente a realidade para tentar agir sobre ela por ensaio e erro. Raymond Aron chamou a essa dependência da ideologia «o ópio dos intelectuais».

A chamada «lei da laicidade» de Chirac é absurda a todos os títulos. O progressista «New York Times» chamou-lhe em editorial «fundamentalismo secular». Anne Aplebaum escreveu no «Washington Post» que a lei seria inconstitucional na América. Podia ter sido acrescentado que, em Inglaterra, inovações arbitrárias semelhantes conduziram no século XVII à queda de Carlos I e, em seguida, ao fracasso dos republicanos autoritários que o tinham executado. Como observaram David Hume e Edmund Burke, o despotismo, seja qual for o seu sinal político, dá-se mal com a tradição da liberdade.

Foi a liberdade de expressão, neste caso religiosa, que Chirac pôs em causa. Além disso, criou um problema onde ele não existia: os símbolos religiosos não constituem ameaça a ninguém, mas podem gerar legítimo ressentimento quando são arbitrariamente ofendidos. Mais grave ainda, isto foi feito para fugir de um problema real de que a França tem medo: o fundamentalismo islâmico. Para fugir a este problema, Chirac fingiu que tinha um problema também com cristãos e judeus. Mas não há em França qualquer ameaça fundamentalista cristã ou judaica. Como escreveu o «New York Times», passou a existir um «fundamentalismo secular».

Só que, em vez de ameaçador, este fundamentalismo é impotente e patético. Está a conduzir a França para a periferia das decisões mundiais, da mesma forma que está a depauperar nos franceses os recursos morais e culturais que permitem ter orgulho em pertencer ao Ocidente. Mas é o Ocidente que está hoje a ser atacado e é o Ocidente que tem de ser defendido.

«O que é o Ocidente?», perguntarão de imediato os intelectuais do Quartier Latin que aplaudiram Chirac. A resposta é simples: o que quer que seja, não precisa de ser inventado. Basta ser redescoberto. Como dizia Winston S. Churchill, «estudem História, estudem História!».

jcespada@netcabo.pt

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