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Público - 6 Jan 04
Indústria Panificadora
Por POR RITA SIZA
O Governo reagiu ontem à indignação dos consumidores que foram
confrontados com o ajustamento do preço do pão nos primeiros dias do ano:
perante um aumento que, na maior parte dos casos, variou entre um e dois
cêntimos - o que corresponde a um crescimento entre os 15 e os 30 por
cento do valor -, o Ministério da Economia deu instruções à autoridade da
concorrência para investigar a forma como os industriais de panificação
fixaram os novos preços daquele que continua a ser o bem mais essencial da
alimentação dos portugueses. O Governo quer saber se houve ou não
concertação de preços por parte da indústria, uma prática que é punível
por lei e que os industriais desmentem em absoluto.
A crítica dos consumidores - que desde os primeiros dias do ano começam a
fazer as contas ao que vão pagar a mais nas facturas da electricidade, da
água, da gasolina e dos transportes - já era esperada pelo sector. "Este
ano, o ajustamento pode parecer mais agressivo, porque foi a primeira vez
que os consumidores foram confrontados com um aumento em euros", nota
António Fontes, da Associação dos Industriais de Panificação do Norte.
Como o valor mínimo possível da moeda europeia é o cêntimo, essa é a base
mínima de que a indústria dispõe para repercutir dois anos consecutivos em
que o preço final do produto não foi corrigido. "Qualquer aumento, mesmo
que seja de apenas um cêntimo, dá logo um crescimento de 15 por cento no
valor final. Como é o produto de menor valor da indústria alimentar, as
pessoas notam logo a diferença...", observa o mesmo dirigente.
Acontece que, este ano, a indústria não está só a reflectir os habituais
reflexos do aumento de preços de Janeiro, que influenciam os custos de
produção, e a corrigir o índice de inflação esperado. Está-o também a
fazer em relação à energia, água e matéria-prima - o preço do trigo
panificável aumentou nos mercados mundiais pela situação de profunda crise
de produção de trigo mole, que elevou para mais de 50 por cento o preço do
cereal (ver texto ao lado). E o valor final despendido pelo consumidor
paga ainda as adaptações que os estabelecimentos tiveram de sofrer para
corresponder à apertada legislação criada para garantir a segurança e a
higiene das unidades e dos produtos e a formação profissional dos
trabalhadores.
Daí que os panificadores não estejam dispostos a aceitar as suspeitas do
Governo, de indícios de uma alegada concertação no valor dos aumentos. "O
Ministério da Economia considera o aumento anunciado particularmente
gravoso e tem dúvidas sobre a sua legalidade, já que foi anunciado em
simultâneo para todos os tipos de pão", esclareceu fonte da tutela ao
Canal de Negócios. A mesma fonte acrescentou que, independentemente do
desfecho das investigações, a indústria deveria apresentar uma
justificação plausível para o aumento do preço.
"O Governo sabe bem a legislação que criou para esta indústria, que não
estava preparada para tantas exigências e teve de fazer obras de fundo
para poder cumprir", reclama António Fontes. "Mas se o Governo quer
investigar, a única coisa que dizemos é que estamos de portas abertas e
que rapidamente se vai perceber que estas acusações são infundadas e
irrealistas", contesta. "Os ajustamentos são determinados por cada
empresário, obviamente tendo em conta a concorrência, mas sem que exista
nada nem ninguém a nível associativo ou industrial a vincular que os
aumentos sejam de 10 ou 20 por cento", garante.
Preços não aumentavam há três anos
Apesar de alguns industriais terem mexido no preço do pão em Janeiro do
ano passado, já não havia um ajustamento a nível nacional desde que os
portugueses começaram a usar as moedas de euro, ou seja, a última variação
de preços já é uma distante memória de Janeiro de 2001, quando ainda foi
feita na moeda antiga. Em 2002, com a transição do escudo para o euro, a
maior parte dos panificadores reflectiu a variação do valor do produto no
necessário arredondamento da nova moeda - e desde então o preço não voltou
a ser corrigido.
Aliás, em defesa do seu produto, os industriais da panificação referem que
o preço que o consumidor paga pelo pão é dos que menos têm variado dentro
do normal cabaz alimentar das famílias. "Quando o pão deixou de ser
intervencionado e começou a pagar IVA, em 1991, custava 11,34 escudos.
Bastaria aplicar o índice da inflação nestes últimos 13 anos para perceber
que o pão é dos produtos cujo preço menos se tem agravado", sublinha
António Fontes. "Este ano, não estamos a fazer mais do que sempre foi
vulgar fazer-se em Janeiro: ajustar o preço do pão. Admitimos que, com os
euros, pode parecer estranho, mas, se as pessoas fizerem bem as contas,
perceberão que não é um aumento extraordinário", assegura.
Nas contas do preço do pão, há que distinguir entre o preço da unidade
(que acaba por ser o que o consumidor paga por cada pão, do tipo carcaça)
e o preço por quilo de massa - que é a conta que fazem os industriais. Se
se atender a essa diferença, pode constatar-se que os aumentos são mais
acentuados nos pães de menor peso - por exemplo, um pão com 30 gramas
poderá passar a custar sete cêntimos - em comparação com as carcaças ou
papos secos "normais", que têm um peso médio por unidade entre os 40 e 45
gramas: o ajustamento nesse caso irá, no máximo, até aos 10 cêntimos.
Mas, como explica António Fontes, nem estas contas são uniformes para todo
o país. "Em Portugal, há diferenciais de preço do pão de cerca de 20 por
cento entre o Norte e o Sul, e de 50 por cento entre o litoral e o
interior", garante. Por exemplo: o peso por quilo na região de
Trás-os-Montes não chega a ultrapassar um euro; na cidade do Porto, anda à
volta dos 2,50 euros.
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