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Correio do Vouga - 16 de Janeiro
Associação Portuguesa de Famílias Numerosas
A família natural é um valor universal
Fernando Martins
A família natural é um valor universal, independentemente dos tempos e
lugares. É a forma mais normal de os homens e mulheres se organizarem; em
todas as culturas, a família é essencial para a formação dos mais jovens e
para o apoio aos mais velhos. Assim falou, em entrevista ao Correio do
Vouga, Belmiro Fernandes Pereira, casado, pai de quatro filhos, professor
da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e membro empenhado da
Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN), em fase de lançamento
na região de Aveiro, onde haverá 50 mil famílias com três ou mais filhos.
A APFN, fundada há três anos, nasceu para procurar respostas para os
muitos problemas que as mais de 300 mil famílias numerosas existentes em
Portugal enfrentam no dia-a-dia, a variadíssimos níveis. Assim, para além
de defender os legítimos interesses das famílias grandes, pretende
contribuir para criar um ambiente propício ao desenvolvimento físico,
intelectual, moral, espiritual e social dos membros das mesmas famílias,
no respeito pela dignidade da pessoa humana. Mas também quer defender a
liberdade fundamental dos pais à educação dos seus filhos, escolhendo,
livremente, o modelo de ensino que pretendem.
Esta associação deseja revitalizar os laços de solidariedade e
interdependência entre os vários membros e gerações que compõem o agregado
familiar, fomentando acções que visem propiciar às famílias as condições
de acesso aos bens materiais, morais e culturais indispensáveis a um
desenvolvimento equilibrado da família. Aposta também numa verdadeira
cultura da família, como elemento fundamental na estruturação e
desenvolvimento da sociedade humana, despertando-a para os seus direitos e
deveres na participação cívica. Ainda quer criar apoios materiais que
possam solidariamente concorrer para a resolução ou minimização de
situações concretas e urgentes de famílias numerosas.
Com base nestes objectivos da APFN, bem expressos nos seus estatutos,
Correio do Vouga quis ouvir um dos seus membros, Belmiro Pereira,
interessado em fazer crescer em Aveiro aquela associação, tão certo está
da força da união entre as famílias grandes da nossa região. Se formos
capazes de retomar valores que se perderam, como o da família alargada,
muitos problemas sociais podem vir a ser resolvidos, sobretudo os dos
idosos e das crianças, disse.
O nosso interlocutor lembrou que nas últimas décadas se investiu
enormemente em infantários e creches, centros de dia e lares da 3ª idade,
que funcionam sabe Deus como, para resolver situações que as famílias
não conseguem ultrapassar. Perdeu-se a noção de família alargada e não há
quem cuide das crianças e dos idosos, sobretudo na hora de trabalho. E
logo acrescentou que a mulher ganhou autonomia com o emprego, mas também
disse que agora ela se encontra sobrecarregada, porque trabalha em casa e
fora de casa. Para evitar isso, defendeu na família a partilha de
tarefas, aproveitando também a imaginação e as novas tecnologias.
Belmiro Pereira sublinhou que é possível repensar os horários de
trabalho, tornando-os mais flexíveis, e a forma de organização das
empresas, para que os pais possam dar mais assistência aos filhos,
enquanto defendeu um maior apoio à maternidade, já que enfrentamos em
Portugal um sério problema demográfico. Frisou que há falta de
mão-de-obra, há menos alunos nas escolas, há menos estudantes nas
universidades e há cursos abertos, para além do envelhecimento da
população. Também condenou a mentalidade antinatalista da nossa
sociedade, que só será ultrapassada protegendo-se a maternidade. As mães
têm de ser favorecidas, disse.
Habitações pequenas e caras definem o número de filhos
Para além de muitos outros factores, as habitações pequenas e os preços
altos definem o número de filhos, afirmou o nosso entrevistado, que de
imediato acrescentou: não aparecem no mercado T5 ou T6, e se aparecerem
são caríssimos, o que condiciona à partida o número de filhos do casal.
Adiantou que os filhos criados em pequenos apartamentos não vão ter um
dia muitos filhos; vão ter um ou dois, pelo que é preciso repensar a
urbanização, tornando os apartamentos maiores e mais baratos, se é que
queremos aumentar o índice demográfico.
Por outro lado, Belmiro Pereira informou o nosso jornal que, ao nível dos
pequenos/grandes problemas, a APFN tem lutado bastante, nomeadamente
propondo o Bilhete de Família que dará acesso a espectáculos, museus,
concertos, cinema, exposições e transportes. Por um preço único e
acessível, toda a família beneficiará, beneficiando também as empresas que
aderirem, que acabam por ganhar clientes. De outra forma, uma família
numerosa não pode usufruir daquilo que usufrui a família com poucos
filhos, o que é injusto
Mas o nosso entrevistado não se ficou por aqui e denunciou mais uma
injustiça: o preço por escalões da água fornecida pelos Serviços
Municipalizados. As famílias com muitos filhos atingem depressa o último
escalão, o que as obriga a pagar a água muito mais cara. O mesmo acontece
com o preço da energia eléctrica e com outras despesas obrigatórias, que
deveriam merecer do Estado e das autarquias uma atenção e uma política
muito especiais.
Quanto aos livros escolares, outra sobrecarga para as famílias com muitos
filhos, aquele membro da APFN adiantou que é urgente encontrar uma solução
viável e justa. É urgente que o Estado forneça os livros e que estes
possam ser reutilizados no ano seguinte. No início do ano, com os meus
quatro filhos, gastei quase 100 contos, um gasto absolutamente
desnecessário; os livros do ano anterior, que se encontravam em bom
estado, ficaram na estante, salientou.
Ainda denunciou o regime fiscal injusto que temos, dizendo que no cálculo
do IRS, na aquisição de casa e de automóvel (uma família numerosa tem de
comprar um carro grande), bem como na tributação do trabalho, as famílias
com muitos filhos são sempre prejudicadas. Apesar de algumas declarações
em contrário, o Estado não está a considerar as famílias numerosas, disse
a finalizar Belmiro Pereira.
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