Público - 7 de JaneiroSe Não Falarmos Claro, como
Evitaremos o Pântano?
Por MÁRIO PINTO
1. Temos tido ultimamente o espectáculo argentino, de um povo
desesperado com o seu Estado, a sua Administração Pública e uma classe de
políticos onde parecem escassear as virtudes morais e cívicas que são
atribuídas paradigmaticamente aos chamados estadistas. Estadistas
precisam-se, na Argentina. Mas também em Portugal. Para que não cheguemos,
nem de longe, a estados de alma como o dos argentinos. Já fomos
prevenidos, pelo primeiro-ministro Guterres, contra o perigo de um pântano
político; prevenção que ele autenticou com o pedido de demissão. Depois
disso, quem é que pode ser acusado de exagerar as dificuldades políticas e
governativas que estão pela nossa frente?
2. Temos um problema que condiciona todos os outros: o do peso
financeiro do Estado. Sabemos que o peso financeiro do Estado é, entre
nós, insuportável para o actual nível de contribuição fiscal do país. Sim,
há injustiça fiscal
- que é indispensável e urgente corrigir. Porém, é essencial esclarecer
o País sobre duas coisas muito distintas. Uma é se se vai fazer maior
justiça fiscal sem aumento global de encargos, ou até eventualmente com a
sua redução, portanto apenas por amor da justiça. Outra, muito diferente,
é se (com ou sem maior justiça fiscal) se vai aumentar (e para quê e como)
a carga fiscal, para aumentar a despesa pública. É absolutamente
necessário que os partidos respondam claramente ao velho dilema: menos
Estado mas melhor Estado, melhor Estado só com menos Estado.
A história da democracia moderna e dos direitos civis fundamentais
começou pela questão da carga fiscal, vai para oito séculos (Magna Carta,
de 1215), não nos esqueçamos. Da questão fiscal está dependente o
desenvolvimento do País, económico, social e cultural. Do total da riqueza
produzida pela sociedade civil, o Estado tem de gastar menos, para que
sobretudo a sociedade civil possa investir, produzir mais e viver melhor.
3. As nossas dificuldades, mais antigas ou mais actuais, nasceram, ou
pelo menos aumentaram, por causa não só de erros, mas também, e talvez
sobretudo, de indefinições e de inactividades de governação (ou
hesitações, o que é talvez pior). Nesta altura, em vias de campanha
eleitoral, é o momento das definições. Ora, todos sabemos que os partidos
são tentados a dizer as coisas de modo a agradar a gregos e troianos, ao
maior número, o que só se consegue com ambiguidades, com formulações
redondas (como lhes chama José Manuel Fernandes no seu editorial de
sábado). Na verdade, o início das declarações de intenção política
eleitoral já deu pasto para não poucos reparos acerca de ambiguidades e
contradições que não honram nem os políticos nem os cidadãos. Essa táctica
significa que as coisas são ditas mais para caçar votos para os partidos
do que para definir efectivos programas de governo. Ora os partidos são
para o Governo, não o Governo para os partidos.
Os líderes políticos têm uma desculpa. É que em volta deles se acumula
uma nuvem sufocante de mensagens em que o desígnio é primariamente
partidário ou ideológico. Mas os partidos, hoje, já não são unívocos, se é
que já foram algum dia. E as ideologias, muitíssimo menos. Pior é, ainda
(porque ainda mais vaga e indefinida), a mitologia dos lugares
geográfico-partidários: direita, esquerda, centro, centro esquerda,
coligação de esquerda, etc.
De facto, tem havido bastante opinião escrita que insiste em que a
questão que se põe é a de uma nova esquerda, ou a de refazer a esquerda,
ou a de evitar que a direita ganhe; enfim: esquerda, esquerda, esquerda.
Outros dizem o simétrico: que é preciso que a direita volte ao poder,
enfim, direita, direita, direita. Depois há: coligação não, ou coligação
sim, para a direita, para a esquerda, para qualquer lado ou para nenhum.
Noutras variações, diz-se: ganhar o centro para a esquerda, ou o centro
para a direita. Pedir ou não pedir a maioria absoluta. E por aí fora. Ora
isto não diz muito acerca dos programas eleitorais concretos e precisos.
Se é que não é mesmo um jogo fraudulento. É preciso recordar a história?
4. Digam-nos claramente, pormenorizadamente, como nos querem governar.
Digam-nos claramente quais as mudanças, as reformas para os grandes
problemas que defrontamos, e que todos sentimos quais são. Como já disse,
não se pode esquecer o sistema fiscal, a questão da despesa pública. Mas
também a reforma do Estado. Uma opção estratégica de respeito, apoio e
incentivo ao desenvolvimento de uma sociedade civil forte, culta e
autónoma, renunciando ao estatismo. A reforma geral da Administração
Pública. A reforma do sistema escolar, devolvendo a educação aos cidadãos,
parificando a escola privada. As privatizações na área da saúde,
terminando com o impasse actual. A consolidação do rendimento mínimo com
compromisso inequívoco de controlo dos seus efeitos perversos. A defesa do
pilar público da segurança social com incentivo aos complementos da
responsabilidade dos cidadãos.
O alargamento de redes de apoio a muitas situações de necessidade, de
marginalização e de pobreza, preferentemente com parcerias com as
instituições privadas de solidariedade social ou outras instituições
privadas, inclusive com a iniciativa empresarial, como aliás já foi
iniciado. Uma política de apoio às famílias, e não apenas aos jovens e às
mulheres. A revisão das leis laborais, com uma maior autonomia e
flexibilidade da contratação colectiva de empresa, admitindo a negociação
directamente com as comissões de trabalhadores (aceitando a diferenciação
das pequenas empresas).
Um serviço público de televisão com uma moralidade decente, financiado
pelo Estado, evidentemente, com uma programação controlada por um órgão
representativo da sociedade civil, evidentemente. Uma política cultural de
incentivos (sem criar subsídiodependência) não apenas às belas artes e às
belas letras, mas a todas as outras componentes de uma cultura integral
(como a da filosofia e da história, por exemplo).
Redimensionação do Estado social, de modo a que haja Estado social para
ainda maior número de situações sociais que mereçam solidariedade; mas
sempre de acordo com o princípio da subsidiariedade, segundo o qual o
Estado não substitui a iniciativa dos cidadãos e da sociedade civil
naquilo que eles (se necessário com financiamento público) podem fazer
melhor e mais proximamente das situação. Etc., etc.
Por favor, expliquem-nos tudo em frases em que se não diga no fim o
contrário do que se diz no princípio (para contentar uns e outros). É que,
se não falarem claro, como poderemos nós ficar esclarecidos? E sem
esclarecimento, como querem que votemos dignamente? E sem dignidade, como
evitaremos o pântano?