Diário de Notícias - 7 de JaneiroO bolo-rei e a
liberdade
João César das Neves
O bolo-rei agora não tem brinde. Ontem, dia de Reis, Portugal teve de
comer bolo-rei sem brinde. A razão deste facto é muito simples: o Governo,
sempre carinhoso e atento, decidiu proteger as populações incautas do
ataque insidioso do brinde do bolo-rei. De facto, o Decreto-Lei n.º
158/99, de 11 de Maio, estabeleceu, no seu artigo 4.º, n.º 1, que "é
proibida a comercialização de géneros alimentícios que contenham brindes
misturados".
Felizmente que o diploma decidiu também dizer generosamente:
"...exceptua-se, por razões de reconhecida tradição cultural, o bolo-rei..."
Só que essa benigna excepção é feita "... devendo respeitar os requisitos
do artigo anterior" (artigo 4.º, n.º 3). Ora este, entre outras
exigências, impõe que os brindes "sejam concebidos e apresentados de molde
a não causarem riscos, no acto de manuseamento ou ingestão, à saúde ou
segurança dos consumidores, nomeadamente asfixia, envenenamento,
perfuração ou obstrução do aparelho digestivo" [artigo 3.º, alínea a )], e
"tenham uma dimensão mínima de quatro centímetros de comprimento" [alínea
d )]. Com todas estas limitações e assustados pela coima até 1200 contos
(artigo 7.º, n.º 3), os produtores acabaram por retirar o brinde do
bolo-rei.
Ontem, ao mastigar uma fatia, dei por mim a pensar nos riscos incríveis
que suportei ao longo da minha infância inocente, toda ela passada antes
de Maio de 1999. Durante décadas, eu e, durante séculos, milhões de outros
portugueses estivemos sujeitos às agressões mesquinhas e traiçoeiras dos
brindes de milhares e milhares de bolos-reis. E também dos bonequinhos dos
pacotes de gelado, de que eu tanto gostava, em miúdo, e que agora estão
também proibidos. Antes do munificente Decreto-Lei n.º 158/99, a saúde
pública, em Portugal, andou à mercê de qualquer brinde que nos quisesse
asfixiar, envenenar, perfurar ou obstruir o aparelho digestivo.
O bolo-rei é apenas um pequeno exemplo. Existem hoje miríades de leis,
decretos, portarias e despachos que regem, delimitam e estatuem as coisas
mais ínfimas da nossa vida. É assim com "os alimentos e ingredientes
alimentares tratados por radiação ionizante", "as embarcações de pesca de
pavilhão nacional", "a poluição por hidrocarbonetos", "os balastros de
fontes de iluminação fluorescente", "os vagões para o transporte
ferroviário de mercadorias perigosas" e até "os indicadores financeiros
para os empreiteiros de obras públicas e industriais de construção civil",
para só referir alguns dos 80 diplomas publicados nos dias à volta do
Natal (de 18 a 28 de Dezembro).
Um exército de ministros, deputados e funcionários trabalham
incansavelmente para conceber leis que nos governam, condicionam e
preceituam. Uma multidão de advogados, juízes e fiscais labuta sem cessar
para que essas leis se apliquem mesmo. Desse incrível esforço, saem, todos
os meses, centenas de páginas do Diário da República , com leis novinhas.
Todos os anos, são acrescentadas várias prateleiras ao enquadramento legal
do País, gerando também a enxurrada de processos que entope os tribunais.
Cada uma dessas leis parece essencial e indispensável para nos proteger
dos perigos manifestos ou subtis, mas traiçoeiros, que nos espreitam a
cada momento. Como numa fatia de bolo-rei.
Nunca existiu, na história, uma sociedade com tantas regras e
imposições como a nossa. Dificilmente damos um passo ou respiramos um
momento sem cairmos na alçada de algum diploma legal. E as empresas,
essas, então, vivem numa perfeita selva regulamentar. Tudo está previsto,
detalhado, decretado. É a isto que chamamos "sociedade moderna livre e
democrática", um sistema em que podemos derrubar o Governo, mas em que o
bolo-rei e os gelados não podem ter brindes (ou favas!?) com menos de
quatro centímetros. Um regime em que centenas de milhares de pessoas
deixam de fazer coisas úteis, para se ocuparem a conceber e a publicar
leis, a vigiar e a punir os que fazem coisas úteis.
A justificação de tudo isto é o bem-estar e o progresso. Muitas vezes,
a lei até invoca a autoridade científica e técnica, impondo a sua
necessidade. Mas a verdadeira questão é política. O que está em causa é a
liberdade de cada um determinar a sua vida. Nunca, nem nas tiranias mais
violentas do passado, a vida humana foi tão regulada como hoje. Temos mais
conforto, mas perdemos a liberdade debaixo de um Estado que se julga
benevolente, mas que muitas vezes é só tonto, como na lei do bolo-rei. As
gerações futuras vão divertir-se à custa deste tempo, ingénuo a ponto de
pensar que pode regulamentar todos os pormenores e reduzir cada cidadão à
condição infantil, espartilhada por um tutor.
Mas o amor à liberdade nunca pode ser vencido. Os portugueses, sempre
indómitos, organizaram uma resistência eficaz à nova tirania. Bastou
lançar mão da atitude tradicional de displicência e desprezo perante leis
tolas, que já nos salvou de tantas ditaduras. Ganhei, ontem, um brinde bem
pequenino, na minha fatia de bolo-rei.