Diário de Notícias - 6 de Janeiro

"Dou-lhes alimento afectivo"

Um dia, a Conceição atendia um toxicómano pela 1.ª; vez, com o filho ao lado. Embaraçada, porque tinha de lhe perguntar "Quantas vezes se injecta por dia? Que dose toma?" na presença do miúdo, sugeriu-lhe que fosse fazendo uns desenhos. Foi assim que tudo começou. Já tinha reparado que utentes do CAT da Parede levavam os filhos, e ficavam na sala de espera com outros toxicómanos. Achou inadequado.

Teve então a ideia genial de os atender "à parte". Em 1995. Desde então a consulta tem crescido e tomado forma, com a supervisão da pedopsiquiatra Maria José Gonçalves, do Hospital da Estefânia. Tem sido um sucesso. Embora lhe saia do pêlo, porque acumula com consultas de adultos, investe porque "sinto que lhes dou alimento afectivo".

Até hoje seguiu 50 crianças dos 4 aos 10 anos. Com bons resultados. "São todos uns sobreviventes. Tomam conta deles próprios e dos pais. A maioria é inteligente, frequenta a escola sem problemas. Mas com grandes dramas na relação com os pais. Outros eram deixados em casa, sozinhos, sem comida, sujos, quando deviam estar no infantário. Ou usados como pedintes".

O trabalho da Conceição pode evitar que estas crianças venham a tornar-se toxicómanas ou com problemas de saúde mental. Meninos de risco. Há outros CAT que querem seguir o exemplo. 

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