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Diário de Notícias - 6 de Janeiro
Só o super-homem não chora!
LEONOR FIGUEIREDO
Não é Carnaval, mas o Tiago, cinco anos, entra de rompante na sala,
mascarado de Zorro. Salta pelas cadeiras e mesas e não pára, num rodopio
violento que demora muito tempo. É incapaz de se sentar. A psicóloga quase
tem um ataque. Nunca vira nada assim. O Tiago assume a identidade de um
cão, farta-se de ladrar e rosnar. Os técnicos do centro, espantados, vão
ver o que se passa. Nesta sua primeira sessão de psicoterapia o Tiago
nunca tira a máscara do célebre herói do cavalo. Foi um caos. Quando a
Conceição Tavares de Almeida consegue, finalmente, que ele faça um desenho
da família, o Tiago pega numa caneta e, enraivecido, explode furiosamente
no papel branco círculos vermelhos. "É uma gruta onde vivem monstros e o
lobo mau", disse-lhe.(1.º desenho).
O Tiago é filho de uma toxicodependente. O miúdo queixa-se que a mãe liga
mais ao cão do que a ele, por isso emite latidos e gosta de brincar ao cão
e ao gato. A partir da sessão em que desenha uma figura (2.º desenho) já
está mais equilibrado. Passam-se três meses até que ele faz um palhaço
brilhante (3.º desenho). "O Tiago teve uma evolução brutal. Para ele foi
fundamental vir a estas sessões, estar com alguém que o tratasse como
criança e que estivesse e conversasse com ele" conta, ao DN, Conceição, a
psicóloga clínica do Centro de Atendimento a Toxicodependentes (CAT) da
Parede, que acompanha filhos de dependentes de drogas.
Os relatos que nos faz destes meninos fazem doer o coração. São crianças
que não têm oportunidade de ser meninos, e vivem diariamente os dramas dos
pais consumidores de drogas duras: as ressacas, a violência, a
negligência, a falta de cuidados, de comida, de higiene, o serem menos
importantes do que a dose diária necessária para manter o vício.
O caso que mais tocou a Conceição foi o de uma Rita, quatro anos,
abandonada pela mãe biológica, toxicodependente, que passou a chamar "mãe"
a outras pessoas da família. É desenvolvida para a idade, exprime-se muito
bem, mas durante os primeiros seis meses de psicoterapia brincava a estar
escondida dentro de um caixote do lixo imaginário. A terapeuta tinha de a
ir buscar "ao lixo", pegá-la como se fosse uma bébé e acariciá-la,
murmurando-lhe palavras meigas ao ouvido. "A Rita tinha um grande buraco
negro nos seus afectos e uma auto-estima muito baixa. Precisava de a
embalar ao meu colo. Regredia até aos seus primeiros meses de vida.
Metia-se no "lixo" porque se sentia tratada assim pela mãe. Foi das
situações que mais me impressionou", confessa a psicoterapeuta.
No segredo deste "confessionário" com a psicóloga, os miúdos falam pouco
de droga. "É uma questão de sobrevivência psicológica. Se ficam
psicologicamente sem os pais, não lhes resta mais ninguém", interpreta
Conceição Tavares de Almeida. Mas ela sabe a que se referem quando por
exemplo a Paula, 8 anos, lhe diz que fica "muito aflita" quando encontra a
mãe desmaiada na casa de banho (após o "chuto").
A solidão infantil é do tamanho do mundo. "Tentam crescer depressa demais.
Muitos tomam conta dos pais. O isolamento nota-se na pobreza do
imaginário, nas angústias que exprimem. Está tudo nos desenhos...",
observa a Conceição.
Alguns miúdos armam-se em fortes. Até ao dia...O Bruno, 9 anos, dá
conselhos à mãe, toma conta dela quando está, quer ser o homem da família.
Nas consultas não fala nas suas dificuldades. Mas um dia estava tão triste
que não resistiu. As lágrimas correram-lhe pela cara. Ele então não
resiste e lembra: "Só o super-homem é que não chora!"
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