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Diário de Notícias - 29 de Janeiro
Se tem filhos não case
MÁRCIO ALVES CANDOSO
A reforma fiscal feita no tempo de Pina Moura e Ricardo Sá Fernandes dá
vantagens às pessoas com filhos que não se queiram casar. É que a nova
norma legal que discrimina positivamente, em termos fiscais, as famílias
monoparentais - em que só um dos pais, mais vulgarmente a mãe, toma conta
dos filhos - permite "fugas" e está a ter um efeito perverso.
Há casais "de facto" que só vêem desvantagens em declarar a sua união e há
outros que, antes de casar, estão a pensar duas vezes se vale a pena pagar
a factura fiscal. Quem declare que vive sozinho com filhos pode deduzir à
colecta de IRS um valor equivalente a 80% de um salário mínimo nacional;
quem viva em união de facto ou esteja casado - fiscalmente tanto dá - só
pode descontar 50%.
No espírito do legislador esteve, sem dúvida, a possibilidade de dar uma
maior protecção às chamadas mães solteiras. Mas como, em termos fiscais,
não há maneira de provar que quem é solteiro e tem filhos reparte com o
outro progenitor a despesa com os descendentes, o "buraco" legal existe. E
está a ser aproveitado.
O domicílio fiscal, item normalmente utilizado pelas Finanças para provar
a vida em conjunto, é até facilmente ludibriado: trata-se normalmente de
casais jovens que (ainda) nem sequer se deram ao trabalho de informar as
autoridades de que já não vivem em casa dos pais.
A nova redacção do antigo artigo 80-A do Código do IRS trouxe ainda outro
efeito colateral. É que na reforma fiscal foi introduzido um artigo - o 14
- que dá à união de facto um tratamento fiscal neutro em relação aos
casais legalmente constituídos. Mas, confrontados com as vantagens do "monoparental",
os espíritos mais avisados - ou mais materialistas - nem sequer se dão ao
trabalho de a pedir.
Em termos meramente fiscais, a lei nasceu... morta. Mais: ainda por cima
dá uma trabalheira ao Fisco. É que na Direcção-Geral dos Impostos está
tudo avisado da possibilidade de um dia destes aparecer um indivíduo de
grande fortuna que resolveu dividir a sua vida - passe o exagero - com uma
sem-abrigo. As vantagens são enormes. Conhecido o pendor inventivo dos
portugueses quando se trata de fugir ao Fisco, há quem assegure que o
exemplo não é descabido.
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