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Diário de Notícias - 21 de Janeiro
DEMAGOGIA SANGRENTA
João César das Neves
O aborto volta às páginas dos jornais e às câmaras de televisão. Desta vez
aparece de uma forma realista, dramática, pungente, com casos reais e
pessoas concretas. Longe vão os debates abstractos de valores, direitos e
diplomas. As notícias confrontam-nos com problemas candentes de mulheres
destroçadas, que contam a sua miséria em directo. O que pode ser mais
verdadeiro e indiscutível ?
Mas, de facto, esta é forma mais antiga e descarada de manipulação. Não há
dúvidas sobre a realidade e o dramatismo do sofrimento das pessoas
envolvidas. Mas também ninguém duvida de que a sua dor está a ser usada
com propósitos políticos, para promover interesses e agendas particulares.
As pessoas merecem o maior respeito. Por isso mesmo, é preciso repudiar o
jogo em que elas são utilizadas cinicamente como peões.
Existem hoje muitas vítimas de carências extremas, famílias destruídas,
misérias indescritíveis. Quem somos nós para julgar essas pessoas ? Quem
sabe o que cada um faria se alguma vez se encontrasse nessas situações
abomináveis ? Há quem, em circunstâncias extremas, cometa actos
tresloucados, matando, roubando, ferindo. Talvez nós, se estivéssemos no
lugar desses infelizes, fizéssemos ainda pior. Mas isso, se explica, não
desculpa. Não devemos julgar as pessoas; temos o dever de condenar os
actos. Eles podem até, em certos casos limite, ser compreensíveis. Não são
defensáveis.
Nunca ninguém se lembraria de pedir a despenalização do assassínio ou do
roubo só porque há casos de pessoas desesperadas que os cometem em
situações que nos parecem justificáveis. Porque é que o mesmo raciocínio é
válido no aborto ? Abortar é matar uma criança indefesa antes sequer de
lhe ver a cara. É um acto abominável, que todas as culturas em todos os
tempos sempre repudiaram, por mais pungentes que fossem as circunstâncias.
Devemos evitá-lo, combatê-lo, lamentar e ajudar as mães que caíram nessa
horrível prática. E repudiar o acto ainda mais veementemente por causa do
seu sofrimento.
Ninguém deve ignorar esta horrível realidade, que merece todo o respeito e
atenção. Devemos ser incansáveis na sua prevenção, amparo e suporte. Só
que, aquando da sua descrição pública, processa-se uma subtil mudança de
assunto. Do dramatismo, o político ou o jornalista deduz e propõe,
subrepticiamente, a solução que lhe interessa, escondendo o raciocínio no
meio da dor. O seu propósito é muito diferente da aparência e pouco tem,
de facto, a ver com a vida daquelas pessoas concretas. Mostra o mal, mas
como se ele justificasse automaticamente a proposta particular de cura que
defende. E que perpetua esse mal. O que pretende não é ajudar as vítimas.
É vender uma lei, ganhar pontos na luta partidária.
Este foi o modo como, ao longo de séculos, os demagogos conseguiram
enganar multidões. O político corrupto nunca fala de valores, direitos e
diplomas. Ele refere exemplos concretos, mostra realidades chocantes ,
conta histórias comoventes. Foi sempre com casos reais que se distorceu a
realidade.
Hitler justificou as invasões da Checoslováquia e da Polónia, que lançaram
a guerra, não com o princípio da superioridade racial, mas com relatos
pungentes da perseguição de arianos nos Sudetas e em Dantzig. A
indiscutível miséria de operários concretos é a "cassete" usada pelos
revolucionários para justificar os seus planos ruinosos. Histórias
verdadeiras e horríveis, propagandeadas por alguns para manipular a
maioria, justificaram as piores abominações da História, limpezas étnicas,
terrorismo, opressão de minorias.
A televisão hoje traz-nos histórias aflitivas de atrocidades no Médio
Oriente, Afeganistão, Caxemira, Angola. São relatos fidedignos, com nomes,
caras, lágrimas e escombros. Sentimos justamente a sua tristeza, a sua
dor, até a sua indignação. Mas não podemos apoiar os extremistas dessas
regiões, que usam os mesmos casos para justificar o ódio entranhado e
promover mais vingança. Essas histórias servem para repudiar a violência,
não para suportá-la e promovê-la.
Do mesmo modo se devem considerar os casos que hoje nos trazem sobre o
aborto em Portugal. Temos que compreender o sofrimento dessas pobres mães
que se viram no situação limite de se ferir a si mesmas para matar o seu
filho. Mas temos de perceber que ele é uma razão para aumentar o nosso
repúdio pelo flagelo do aborto, não um argumento para o legalizar e
facilitar.
A demagogia vem embrulhada em argumentos incríveis, como os que pensam que
um assassínio é menos grave se for cometido dentro da lei e em condições
higiénicas, ou os que acham que o importante é evitar a vantagem dos
ricos, com dinheiro para matar impunemente os seus bebés, legalizando o
aborto para todos matarem em igualdade.
No final, porém, fica apenas a dor persistente daquelas mulheres que, por
estarem sozinhas, assustadas, violentadas, vêem nas suas mãos o sangue dos
seus filhos. E vão viver com ele o resto da vida.
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