Diário de Notícias - 19 de Janeiro

Um mundo de fraternidade e de paz
Maria Barroso Soares

Tive a honra e o grato prazer - por amável convite de um deputado europeu, o dr. José Ribeiro e Castro - de assistir, em Estrasburgo, à entrega do Prémio Sakharov.

Foi uma sessão inesquecível, pela alta qualidade dos premiados, pelo significado profundo da atribuição dos prémios e, sobretudo, pelas mensagens que cada um deles deixou ao Parlamento, a todos os assistentes e, através deles, a toda a Europa e ao mundo.

Como se sabe - e a presidente Nicole Fontaine o sublinhou, no discurso de abertura -, trata-se de um prémio que honra, em cada ano, "personalidades ou organizações que marcaram com o seu cunho a luta em favor dos direitos do homem e da liberdade no seu próprio país. No centro da sua acção, uma convicção muito forte: o direito de viver no respeito e na dignidade para cada ser humano, quaisquer que sejam a sua origem étnica, o seu sexo ou as suas convicções". Escolhidas foram três personalidades fascinantes que, efectivamente, deixam a sua marca na história contemporânea da humanidade.

Não se trata de figuras projectadas pelos meios de comunicação social, que, muitas vezes e infelizmente, dão ênfase ao escândalo e à violência, à intriga política e até à futilidade. A história destas três personagens daria para encher algumas páginas de jornais ou preencher largos espaços de televisão.

Quem a contou, sobretudo aos mais jovens, apontando-as como referências morais, culturais, espirituais e cívicas tão necessárias para inspiração e estímulo ao exercício da cidadania, em todos os países?

Passou, num breve apontamento, sem que cada um dos premiados fosse solicitado a explicar quem era, o que fez e o que faz, no seu país, para que o prémio lhe fosse atribuído. Eu sei que se trata de pessoas de grande envergadura e, simultaneamente, de grande humildade, muito doridas duas delas por golpes insanáveis e pungentes que lhes roubaram os filhos, a outra por uma guerra que fere o seu país - destruindo pessoas e bens -, há muitos anos.

D. Zacarias Kamwenho, um dos premiados, di-lo, é verdade, numa autobiografia que lança em Novembro de 1999, aquando da celebração das bodas de prata da sua ordenação episcopal: "Não gosto de falar de mim ou que falem de mim, bem ou mal." Mesmo assim, seria necessário dar a conhecer o que são, o que fizeram e o que fazem cada uma destas três personagens. Sobretudo no momento actual, quando a intolerância e a injustiça - e a brutal violência que delas resulta

- são, hoje, as características dominantes do mundo em que se vive.

Aliás, é justamente baseando-se nisso que Sua Santidade o Papa João Paulo II, na sua mensagem do primeiro dia de 2002, nos diz: "Não há paz sem justiça e não há justiça sem perdão."

E a presidente do Parlamento, ao fazer a entrega dos prémios a Nurit Peled-Elhanen e a Izzat Ghazzawi, declara: "O Parlamento Europeu - honrando conjuntamente os dois - quer contribuir para forçar o destino da paz contra a evidência da guerra, para manifestar as forças da tolerância e da compreensão, assim como manter a esperança."

E, ao fazê-lo a D. Zacarias Kamwenho, acrescenta: "Vós fizestes-vos o apóstolo dos direitos fundamentais e da paz, simbolizando a esperança do povo angolano, o seu desejo de paz, de liberdade e de justiça.

Nós saudamos o itinerário de um homem, o seu ecumenismo, a sua determinação, a favor da sua voz.

Nós saudamos também o porta-voz das aspirações de todos aqueles que, no seio da sociedade civil angolana, trabalham pelo diálogo e reconciliação."

O que está contido em todos os discursos - da presidente do Parlamento e dos três premiados - é justamente essa preocupação de tolerância e capacidade de perdão que os responsáveis dos destinos humanos - em Israel, como na Palestina e em Angola - têm de assumir, para que a Paz se instale.

As palavras de Nurit Peled-Elhanen são de uma veemência espantosa, duras como pedras, terrivelmente acusadoras quando aponta, corajosa e abertamente, o dedo aos dirigentes políticos e aos seus generais:

"Sempre soube que a guerra que devasta a nossa região não opunha o povo israelita e o povo palestiniano, mas esses "dirigentes" que destroem vidas e pessoas dos dois lados, que perdem as suas crianças nas partidas de roleta mortais desses políticos. Esses políticos e os seus generais, que transformaram a nossa região e transformam o mundo inteiro num deserto coberto de pequenos ossos.

Esses seres matreiros utilizam Deus e o bem da nação, a liberdade e a democracia para nos convencer a fornecer a carne e o sangue que alimentam os seus jogos mortais. Eles utilizam a nossa mágoa como um instrumento político e as nossas crianças como as moedas do seu jogo de lotaria: "Tu matas dez das minhas crianças e eu mato trezentas das tuas e ficamos quites até ao nosso próximo encontro.""

E é na voz das mães - "a voz daquelas que dão a vida e estão determinadas a preservá-la" - que ela acredita para defender a vida das crianças, dos seus filhos, sejam eles israelitas ou palestinianos, tenham eles nascido na Europa ou na Ásia, na África ou na América. Porque pensa, e bem, que só as mães sentem a necessidade, imperiosa e visceral, de apertar as crianças nos seus braços e de as proteger do perigo.

As mães sabem que a morte de uma só criança - não importando que criança seja, sérvia ou albanesa, iraquiana ou afegã, palestiniana ou judia - é a morte do mundo inteiro, do seu passado e do seu futuro.

E termina prevenindo que, "se nós não queremos que o nosso planeta inteiro se torne o reino da morte, devemos fazer ouvir a voz das mães até que ela abafe todas as outras".

Izzat Ghazzawi considera que o prémio é uma afirmação de fé na capacidade de as culturas estabelecerem um diálogo entre elas, esbatendo intolerâncias e incompreensões.

Ferido - tal como a sua parceira israelita - no seu amor de pai, com a perda irreparável e trágica de um filho de dezasseis anos, Ghazzawi afirma que o sofrimento pode e deve ser utilizado como "uma força para curar, e não para conduzir uma luta cega inspirada pelo espírito de vingança e ódio".

E este notável escritor lembra que, sempre que as civilizações partilharam valores, o seu património cultural se enriqueceu e redobrou de brilho e que justamente o seu afrontamento foi causa de enfraquecimento. E coloca - e muito justamente - o problema do desequilíbrio entre os ricos e os pobres, das injustiças que os ferem como uma das mais importantes causas da intolerância e dos ódios que opõem os seres humanos, dos choques entre povos e culturas. E afirma, com uma clareza e uma coragem espantosas: "Nada é sagrado, quando o homem é humilhado e privado do seu direito de viver na dignidade."

D. Zacarias Kamwenho, que se afirma pela voz do poeta frei Manuel Rito Dias, vindo da terra onde "há mais riqueza e menos ambição, onde a floresta não tem fim e a esperança também não", faz toda a sua intervenção no seguimento da grande mensagem pastoral angolana de Março de 2000 - "Não podemos evangelizar sem promover a paz".

Consternado e revoltado contra a situação que vive, há tantos anos, o povo a que pertence, grita a necessidade de a inverter urgentemente e de acabar com a intolerância e o ódio que opõem angolanos contra angolanos, irmãos contra irmãos, fazendo grassar a fome, o medo e o sofrimento.

Diz D. Zacarias: "A fome, a nudez e as doenças criaram imagens que se fossem captadas e projectadas nos ecrãs dos senhores da guerra, talvez estes perdessem também o sono nessa noite e começassem a pensar Angola."

A tolerância é para este ilustre da CEAST - inspirado em Locke e na sua própria experiência - a palavra-chave que abrirá, necessariamente, as portas, há tanto cerradas, da paz.

E afirma que o prémio que recebe será um estímulo à prossecução da sua luta pela paz em Angola e põe, num gesto de generosidade, o que tão justamente recebe ao serviço do Fundo Ecuménico para a Paz.

Grande, notável e generosa figura a deste arcebispo que tanto se tem empenhado pela justiça e pelo perdão, os pilares de que fala João Paulo II como essenciais para a construção da paz.

Foram três lições de tolerância, de dignidade humana e de amor, reveladoras de um entranhado desejo de paz no mundo. Não há raivas no coração, tão dilacerado, destes três seres de eleição; há apenas um espaço aberto ao perdão e à justiça onde cabem todos os seres humanos, qualquer que seja o ponto do mundo onde se encontrem.

Que elas nos possam servir para fortalecermos o nosso apego à democracia e ao respeito pelos direitos humanos, o nosso amor à liberdade responsável.

Inesquecíveis, como disse no começo deste artigo, os momentos que vivi, ouvindo estas três extraordinárias personagens, referências a apontar aos nossos jovens, para que eles acreditem que é possível transformar este mundo em que vivem num mundo de fraternidade e de paz. 

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